José Paz Rodrigues – O filme germânico “A Onda” é um filme inspirado nos acontecimentos que tiveram lugar no ano de 1967 na escola Cubberley de Palo Alto, na Califórnia. Depois de cinco dias de experimentos didáticos, o professor de história Ron Jones teve que interromper o projeto “A Terceira Onda”, com o qual pretendia demonstrar aos seus estudantes a dimensão real e os perigos da autocracia. Obteve o resultado contrário.
Em 1981, o escritor americano Todd Strasser contou no seu livro The Wave (A Onda), sob o pseudónimo de Morton Rhue, os factos que agora recupera o diretor Dennis Gansel, desenvolvendo a ação dos factos na Alemanha atual. O filme teve um grande sucesso no festival de Sundance e, no país germânico, após a sua estreia, foi visto por milhares de pessoas.
No sistema educativo alemão contempla-se dentro do currículo oficial, que, durante uma semana do ano, os alunos coordenados por um professor, realizem um projeto educativo-didático de forma prática e cooperativa sobre um tema. Os alunos escolhem participar no grupo e no tema de que mais gostem. Esta inovação curricular é similar ao que desde há anos, com grande sucesso, está instaurado no sistema educativo de Portugal, com a denominação de “Área-Escola”. Modelo que é muito mais rico que o alemão, pois é durante mais tempo e nele envolvem-se equipas de professores com turmas de estudantes. Ademais desenvolve-se em todos os níveis do ensino: infantil, primário e secundário.
O filme que comentamos, realizado em 2008, apresenta um entusiasta professor do Ensino Secundário que realiza com os seus alunos uma técnica didática de dinâmica de grupos, similar a um jogo de role-play ou papel, que no mundo anglo-saxão se chama “Role Playing”. O docente toma com tanto entusiasmo o projeto sobre como se pode chegar a criar num país uma ditadura, que no final tanto ele, como grande parte dos estudantes, se identificam de tal forma com os seus “papéis”, que terminam por perder o controlo e, por um tempo, a “ditadura” surge entre eles, com final trágico. Com a tragédia que já são as ditaduras, que houve e que há ainda hoje.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Die Welle (Castelhano: La Ola; Galego: A Onda).
Atores: Jürgen Vogel (Rainer Wenger), Frederick Lau (Tim), Max Riemelt (Marco), Jennifer Ulrich (Karo), Christiane Paul (Anke Wenger), Elyas M´Barek (Sinan), Cristina Do Rego (Lisa), Jacob Matschenz (Dennis), Maximilian Mauff (Kevin) e Ferdinand Schmidt-Modrow (Ferdi).
Argumento: Alemanha hoje: como organizar uma dura tirania numa semana. A trama gira arredor de Rainer Wenger, um professor de secundário carismático, que queria dirigir um projeto educativo arredor da anarquia. Outro companheiro docente adiantou-se e tem que conformar-se com levar para a frente o projeto sobre a autocracia ou ditadura. Relacionando-o com o surgimento das ditaduras, o fascismo e o nazismo, Wenger desenha umas sessões muito práticas, em que apresenta os elementos que explicam o seu atrativo: espírito de grupo, ideais comuns, ajuda mútua, uniformes, símbolos e toda a parafernália exterior.
Análise do Filme:
Um dos fundamentos da Didática é que os docentes devem tentar que os seus alunos se iniciem no pensamento e comportamento dos processos de resolução de problemas e, ao resolvê-los, consigam entender os esquemas da ação, as operações e os conceitos básicos a adquirir. Para isso é importante proporcionar aos estudantes um instrumental de ferramentas preparadas para serem aplicadas, e colocá-los em situação de que façam um bom uso das mesmas. É isto o que se entende por “Aprender a aprender”. Que Tagore explicou muito bem e de forma poética, recolhendo um antigo aforismo chinês: “Não lhe entregues ao estudante o peixe, melhor é que o ensines a pescar”.
Existem várias estratégias didáticas para pôr em prática nas aulas, que respeitam este princípio. Como por exemplo, várias técnicas de dinâmica de grupos, em que se envolve toda a turma, as dramatizações e jogos dramáticos, os jogos cooperativos, as experiências diretas e as experiências simuladas. Tomando como base o critério de Dale no seu famoso cone didático. Mas é muito importante que os docentes conheçam bem o desenvolvimento dos processos de aprendizagem, teórica e praticamente. Também o momento psicofísico evolutivo em que se encontram os estudantes das suas aulas, pois não é o mesmo ensinar a crianças de infantil, a crianças de primário, nomeadamente em idades de 7 a 10 anos, ou a adolescentes. O docente do filme que comentamos tinha na sua aula adolescentes precisamente, com a sua peculiar psicologia e a sua juvenil rebeldia, com desejos de mudar o mundo de imediato.
Aspetos a observar:
– A dedicação que o docente põe na programação das suas aulas, desenvolvendo uma técnica didática com grande poder de sugestão nos seus jovens alunos. Mas o importante que é refletir sobre a atuação responsável como docentes e os resultados finais das experiências didáticas.
– O importante que é que os pais dediquem tempo e carinho aos seus filhos, mais importante que dar-lhes muitas cousas materiais.
– O perigo que em diferentes âmbitos tem a manipulação política ou religiosa de grupos e coletividades.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



