José Paz Rodrigues (*) – Nas últimas décadas um dos maiores problemas dentro das aulas e centros educativos, é o assédio escolar que se produz no relacionamento entre os estudantes dos diferentes níveis educativos. O mestre e pedagogo vianense Plácido Blanco Bembibre é um dos maiores especialistas em tão importante tema, sobre o qual tem pesquisado muito e publicado vários documentos.
No mundo anglo-saxão este facto é conhecido como bullying, que é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.
O bullying ou assédio escolar divide-se em duas categorias: a) bullying direto, que é a forma mais comum entre os agressores masculinos e b) bullying indireto, sendo essa a forma mais comum entre mulheres e crianças, tendo como caraterística o isolamento social da vítima. Em geral, a vítima teme o(a) agressor(a) em razão das ameaças ou mesmo a concretização da violência, física ou sexual, ou a perda dos meios de subsistência. O bullying é um problema mundial, podendo ocorrer em praticamente qualquer contexto no qual as pessoas interajam, tais como escola, faculdade/universidade, família, mas pode ocorrer também no local de trabalho e entre vizinhos. Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas. As pessoas que testemunham o bullying, na grande maioria, alunos, convivem com a violência e se silenciam em razão de temerem tornar-se as “próximas vítimas” do agressor. No espaço escolar, quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado e os alunos, sem exceção, são afetados negativamente, experimentando sentimentos de medo e ansiedade.
As crianças ou adolescentes que sofrem bullying podem tornar-se adultos com sentimentos negativos e baixa autoestima. Tendem a adquirir sérios problemas de relacionamento, podendo, inclusive, contrair comportamento agressivo. Em casos extremos, a vítima poderá tentar ou cometer suicídio. O(s) autor(es) das agressões geralmente são pessoas que têm pouca empatia, pertencentes a famílias desestruturadas, em que o relacionamento afetivo entre os seus membros tende a ser escasso ou precário. Por outro lado, o alvo dos agressores geralmente são pessoas pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação ou de fazer cessar os atos prejudiciais contra si e possuem forte sentimento de insegurança, o que os impede de solicitar ajuda. No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos da 5ª e 6ª séries. As três cidades brasileiras com maior incidência dessa prática são: Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Os atos de bullying ferem princípios constitucionais, relacionados com o respeito à dignidade da pessoa humana, e ferem o Código Civil, que determina que todo ato ilícito que cause dano a outrem gera o dever de indenizar. O responsável pelo ato de bullying pode também ser enquadrado no Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por atos de bullying que ocorram dentro do estabelecimento de ensino/trabalho.
É muito importante para pais e educadores conhecer os indicativos de estar sofrendo Bullying, os seus filhos ou alunos. Sinais e sintomas possíveis de serem observados em alunos alvos de bullying temos os seguintes: enurese noturna (urinar na cama); distúrbios do sono (como insónia); problemas de estômago; dores e marcas de ferimentos; síndrome do intestino irritável; transtornos alimentares; isolamento social/ poucos ou nenhum amigo; tentativas de suicídio; irritabilidade / agressividade; transtornos de ansiedade; depressão maior; relatos de medo regulares; resistência/aversão a ir à escola;
demonstrações constantes de tristeza; mau rendimento escolar; e atos deliberados de autoagressão.
Para comentar um tema tão importante e de tanta repercussão pessoal, familiar, escolar e social, escolhi o filme realizado em 1966 pelo diretor germano Volker Schlondorff sob o título de O Jovem Törless.
Ficha técnica do filme:
Título original: Der Junge Törless (O Jovem Törless).
Diretor: Volker Schlöndorff (Alemanha-França, 1966, 87 min., Preto e Branco).
Roteiro: V. Schlöndorff, segundo o romance de Robert Musil.
Fotografia: Franz Rath. Música: Hans Werner Henze.
Atores: Mathieu Carrière (Thomas Törleß), Marian Seidowsky (Anselm von Basini), Bernd Tischer (Beineberg), Fred Dietz (Reiting), Barbara Steele (Bozena), Lotte Ledl, Hanna Axmann-Rezzori e Jean Launay.
Prémio: Festival de Cannes (1966), Prémio da Crítica Internacional e da FIPRESCI e 3 prémios do cinema germano (filme, Diretor e roteiro).
Argumento: No início do século passado, na Áustria, numa escola-internato, durante o império austro-húngaro, o jovem estudante Törless, tímido e inteligente, observava o comportamento sádico de dous de seus amigos da escola, e não toma nenhuma providência, quando estes escolhem como vítima um colega da sala de aula, um companheiro de origem judaica, chamado Anselmo Basini, ao qual apanharam roubando um pouco de dinheiro de um deles, até que a tortura vai longe demais, sem contar o facto ao seu professor. Preferem tomar-se a justiça por sua mão, torturando, humilhando e degradando com um prazer sádico e crescente Basini. Törless propõe-se compreender cientificamente porque é que Basini aceita os tormentos a que é submetido, sendo testemunha e sem intervir para evitar o infame assédio. Estudo intrigante da natureza humana na sociedade moderna.
Um perigoso problema infelizmente muito estendido:
“O Jovem Törless” centra-se na natureza do que chamamos alma e na ambiguidade das motivações humanas. Claro que tem uma forte carga psicológica e política que reflete de forma crua e incómoda comportamentos que permeiam a história da humanidade. Mas, estranhamente, toma uma posição de aparente indiferença perante o sadismo humano e quase o justifica como um meio, entre tantos, de atingir a lucidez. Tudo se passa num afamado colégio interno para rapazes. Aqueles alunos são, à partida, a futura elite política e cultural dos seus países. Um destes, Basini, é apanhado a roubar outro colega. Dous alunos, Beineberg e Reiting decidem tomar à sua conta o infrator. O primeiro tem o cérebro povoado de filosofias orientais mal-enjorcadas por influência do seu pai, mas tais pensamentos (bem glosados em vários romances de formação, como nos de Herman Hesse) são decididamente insuficientes para Törless, que procura algo de mais claro e percetível. As conceções tomadas de empréstimo de Beineberg e Reiting resultam apenas em sevícias físicas e sexuais que terminam em experiências psicológicas sobre Basini, cuja alma se torna apenas num objeto manipulável para defender teorias. Törless sente em relação a tudo uma confusão que não consegue resolver pelo caminho da reflexão lógica. Procura respostas em Kant, sem as compreender, ou no professor de Matemática, depois de os números imaginários bailarem à sua frente, vindos do nada e do ilógico, mas tão logicamente adaptáveis à realidade.
Insatisfeito com essas respostas que faltam, Törless segue um caminho paralelo ao dos seus colegas Beineberg e Reiting que termina num lampejo de sabedoria indiferente. É discutível se Törless é, no fim de tudo, mais humano que Beineberg e Reiting ou mais digno que estes. Mas nenhum percurso é definitivo, nem um romance tem a presunção de ser o Evangelho. Mas a conclusão última de Törless sobre a Verdade é límpida: “(…) há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O raciocínio que se move na superfície iluminada, que a qualquer instante pode ser conferido pelo fio da causalidade, não é necessariamente o pensamento vivo. (…) Um pensamento, mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo, só viverá no instante em que alguma cousa, que já não é o pensar, que já não é lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada… Uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz na nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja ponta extrema, como uma flor, pousa o pensamento.” Para este comentário segui a citação do brasileiro João Filipe Ferreira.
Existem vários tipos de assédio escolar. Os que assediam usam principalmente uma combinação de intimidação e humilhação para atormentar os outros. Alguns exemplos das técnicas de assédio escolar são as seguintes: insultar a vítima; acusar sistematicamente a vítima de não servir para nada; ataques físicos repetidos contra uma pessoa, seja contra o corpo dela ou propriedade. Também interferir com a propriedade pessoal de uma pessoa, livros ou material escolar, roupas, etc., danificando-os; espalhar rumores negativos sobre a vítima; depreciar a vítima sem qualquer motivo; fazer com que a vítima faça o que ela não quer, ameaçando-a para seguir as ordens; colocar a vítima em situação problemática com alguém (geralmente, uma autoridade), ou conseguir uma ação disciplinar contra a vítima, por algo que ela não cometeu ou que foi exagerado pelo que assedia; fazer comentários depreciativos sobre a família de uma pessoa (particularmente a mãe), sobre o local de moradia de alguém, aparência pessoal, orientação sexual, religião, etnia, nível de rendimentos, nacionalidade ou qualquer outra inferioridade depreendida da qual o assediador tenha tomado ciência; isolamento social da vítima; usar as tecnologias de informação para praticar o “ cyberbullying ” (criar páginas falsas, comunidades ou perfis sobre a vítima em sites de relacionamento com publicação de fotos etc.); chantagem; expressões ameaçadoras; grafitagem depreciativa; usar de sarcasmo evidente para se passar por amigo (para alguém de fora) enquanto assegura o controlo e a posição em relação à vítima (isto ocorre com frequência logo após o assediador avaliar que a pessoa é uma “vítima perfeita”); fazer que a vítima passe vergonha na frente de várias pessoas.
Existem muitos espaços e lugares em que se produz o assédio a outras pessoas, mas o que agora mais nos interessa é o que acontece em escolas e estabelecimentos de ensino. Em escolas, o assédio escolar geralmente ocorre em áreas com supervisão adulta mínima ou inexistente. Ele pode acontecer em praticamente qualquer parte, dentro ou fora do edifício da escola. Segundo pesquisas, os locais nos quais mais ocorrem no ambiente escolar são, nessa ordem: salas, recreios, entradas e saídas. Alguns sinais são comuns como a recusa da criança em ir à escola ao alegar sintomas como dor de barriga ou apresentar irritação, nervosismo ou tristeza anormais. Um caso extremo de assédio escolar no pátio da escola foi o de um aluno do oitavo ano chamado Curtis Taylor, numa escola secundária em Iowa, Estados Unidos, que foi vítima de assédio escolar contínuo por três anos, o que incluía alcunhas jocosas, ser espancado num vestiário, ter a camisa suja com leite achocolatado e os pertences vandalizados. Tudo isso acabou por o levar ao suicídio em 21 de Março de 1993. Alguns especialistas em “bullies” denominaram essa reação extrema de “bullycídio”. Os que sofrem o bullying acabam desenvolvendo problemas psíquicos muitas vezes irreversíveis, que podem até levar a atitudes extremas como a que ocorreu com Jeremy Wade Delle. Jeremy matou-se em 8 de janeiro de 1991, aos 15 anos de idade, numa escola na cidade de Dallas, Texas, EUA, dentro da sala de aula e em frente de 30 colegas e da professora de inglês, como forma de protesto pelos atos de perseguição que sofria constantemente. Esta história inspirou uma música ( Jeremy ) interpretada por Eddie Vedder, vocalista da banda estadounidense Pearl Jam.
Na última década de 90, os Estados Unidos viveram uma epidemia de tiroteios em escolas (dos quais o mais notório foi o massacre de Columbine). Muitas das crianças por trás destes tiroteios afirmavam serem vítimas de assédios e que somente tinham recorrido à violência depois que a administração da escola tivesse falhado repetidamente em intervir. Em muitos destes casos, as vítimas dos atiradores processaram tanto as famílias dos atiradores quanto as escolas. Mas o problema está lamentavelmente estendido por todo tipo de países e continentes do planeta. E todos temos de nos sensibilizar sobre ele para lhe fazer face lá onde e com quem se produza.
Temas para refletir e elaborar:
Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum” , debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada por Schlöndorff, realizador do Jovem Cinema Alemão , os planos, os movimentos de câmara, o uso do tempo e do espaço e outros recursos fílmicos que aparecem nesta interessante obra cinematográfica . Também sobre as interpretações dos diferentes protagonistas, as cenas mais conseguidas e o uso dos recursos fílmicos em cada momento.
Por grupos e equipas, seguindo a técnica da biblioteca do trabalho de Freinet, os estudantes podem elaborar monografias ao redor do tema do assédio escolar e do assédio noutros âmbitos. Nas mesmas, usando a bibliografia que existe editada e a Internet, podem incluir-se os diferentes aspetos do tema, os âmbitos onde se produz e de que maneira, os países do mundo mais afetados por este problema e os casos mais conhecidos e divulgados. Com toda a informação recolhida, também se pode organizar uma exposição nos centros de ensino sobre o assédio escolar.
Dentro da Escola de Pais e Mães que todos os estabelecimentos de ensino deveriam ter criadas, seria muito importante dedicar umas jornadas para a divulgação do assédio escolar e como teria que ser tratado. Nas mesmas seria enormemente importante que ficassem muito claras as estratégias para a descoberta de casos concretos, sabendo quais são os mais destacados sintomas de que uma criança ou um jovem está sendo assediado por algum ou vários companheiros, na aula e no estabelecimento a que assiste. Nas jornadas devem tirar-se conclusões entre todos sobre como se deve encarar o problema e que medidas têm de ser adotadas em cada caso que aconteça este facto.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



