O país da Xuxa

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Por Diego Bernal

Em Lisboa escrevem tenho mas pronunciam tanhu, bem é baim e caixa é caxa. Na TV portuguesa falam trose onde escrevem trouxe, falam dinhairu onde escrevem dinheiro e falam passajairus onde escrevem passageiros. Com certeza, ninguém fala como escreve.

No Rio de Janeiro di-se viage mas escreve-se viagem, brasilero mas escreve-se brasileiro, tô mas escreve-se estou, rapais mas escreve-se rapaz e arrois mas escreve-se arroz. Nas rádios do Brasil ouve-se libeghdadji onde grafam liberdade, poghta onde grafam porta e a preposiçom de é dji. Decerto, ninguém reclama por falar nois e escrever nós, nem por falar boua e escrever boa.

Curiosamente, na Galiza pronunciamos a maioria destas palavras direitinho, quer dizer, como som escritas em Portugal e no Brasil.

No entanto, na Galiza dizemos xogo, xanela e xeito. Na verdade, é apenas o sotaque o que nos separa de Portugal e do Brasil. Será que desta vez nom podemos fazer nós o que fam brasileiros e portugueses tantas outras vezes, ou seja, escrever diferente a como falamos?

Em São Paulo, dei com um raro caso de brasileiro que conhecia a Galiza.

—Você é do país da Xuxa —afirmou.

Eu estranhado perguntei:

— Como assim? A Xuxa é brasileira!

—Sei, mas vocês escrevem tudo com xis! —sentenciou dando umha gargalhada.

Talvez se escrevêssemos jogo, janela e jeito deixaríamos de ser o país da Xuxa para sermos (re)conhecidos no mundo como o que realmente somos: A Galiza, o berço da única língua romance falada nos cinco continentes.

 

(*) Publicado originariamente no Diário Liberdade.