Por Adela Figueroa Panisse
Na flor do início do meu tempo, entraste em mim.
Lá Tu estavas e eu, ainda, não te conhecia.
Por enquanto tu, pelo calada, caladinho
trabalhando-me ias aos pouquinhos.
Devagarzinho construía eu o meu mundo, no entanto
feito de amores e de prantos,
de desejos cumpridos e incumpridos
uns, outros não tanto.
E lá Tu já estavas, mas eu, ainda, não te conhecia.
Anseios que nem eu sabia,
desenhaste para mim e nome lhes deras.
Lá tu estavas e eu ainda não te conhecera.
Sentimentos eu descobria, apenas para que tu
a brincar
etiquetas distintas lhes atribuísses.
Onomásticos e carimbos por ti foram colocados
em alargada parte,
para definirem incansáveis
o magnífico Universo dos meus amores.
Paseninho, paseninha, lá tu andavas
e eu ainda não te sabia.
Tudo, teimosamente, penetrando foste
como entram os fluidos viçosos
como o faz o azeite:
pingando pinga a pinga entre os ocos
da matéria esponjosa que é a mente.
Óleos imateriais escoar-se foram
por todos os poros da minha pessoa
numa aperta biológica, hormonal e neurotransmissora.
Fizemos um pacto tu e mais eu, inevitavelmente:
Foste, com o meu inútil consentimento
o sangue do meu espírito,
inseparável companheira:
Mátria em que me reconheço,
Caminhar havemos unidas
Pedra, Leira, Beira, Veiga, Lar e lareira.
Condenadas a chorar corredoirinhas de penas,
ou cantar cantigas d’água, nas beiras
dos rios mansos da Chairega Terra.
Lareira, Veiga, Touça, Bouça, Branha, Pena.
Lá tu estavas ainda que eu não te reconhecera.
Navegaremos entre o barulho das cachoeiras
que salpicam leiras e veigas.
Minha companheira transparente
A impregnares como óleo, o inconsciente
líquido das minhas veias .
Lutaremos entre balbúrdio da gente
Escutando palavras claras de sons duros
in-transcendentes,
com a nossa canção doce e bela,
como graciosa caravela
a flutuar
nas ondas do mar.
Desde os fundos dos tempos fomos juntas, procurar
o meigo abrigo do lar
e o amor morno das lareiras ardentes.
Por isso temos um pacto
selado a fogo na minha essência,
desde que lá tu estavas,
e eu ainda não te conhecera:
Língua, fala, minha
antiga e nova,
velha
como o é o Mundo,
Galega.
