José Paz Rodrigues (*) – Na década de setenta, a TVE passara em vários episódios um filme formosíssimo de tipo pedagógico, em que saiam as vivências reais dum mestre com os seus alunos em escolas de bairro romanas. Naquela altura eu ficara encantado de poder ver este filme, pois a minha vocação sempre foi a pedagogia e o ensino. Mas, sempre me foi impossível encontrar uma cópia do mesmo, apesar de muitas tentativas.
Felizmente vem de ser editada cópia restaurada recentemente em DVD, e em italiano. Mais tarde comprovei que as experiências didáticas do mestre do filme correspondiam às dos mestres do muito importante MCE italiano (Movimento di Cooperazione Educativa). Que tantos e tantos extraordinários pedagogos teve, e muito em especial Mário Lodi e Gianni Rodari.
Na atualidade pertencem a este movimento, entre outros, Francesco Tonucci de Roma, que esteve várias vezes em Ourense, e é um grande amigo meu, e Fiorenzo Alfieri de Florência, também meu amigo, que trouxe uma vez a Compostela às Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal do ano 1983. Ademais do diretor da revista do grupo, que também conheço, Rinaldo Rizzi. Tomando como base a pedagogia de Freinet, mas dando-lhe um selo próprio e peculiar, este movimento tem uma grande diversidade e muita criatividade, com grupos muito ativos em Roma, Florença, Torino, Pescara e Rimini. Considero que seria muito importante para a melhoria da qualidade do nosso ensino que os mestres e mestras galegas visionassem este filme e lessem os livros, todos modelares e práticos, de Lodi (os seus diários escolares são uma verdadeira maravilha), de Alfieri sobre o ofício de mestre e de Bruno Ciari, sobre as técnicas e práticas didáticas. Para não falarmos dos de Rodari, sobre a gramática da fantasia, o teatro e os conta-contos. Deixando para o final toda a série de livros de desenhos educativos de Tonucci. Aos meus alunos e alunas, das diversas promoções de magistério, recomendava-lhes a leitura destes livros, que considero verdadeiras joias pedagógicas.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Diario di un maestro (Diário dum mestre)
Diretor: Vittorio de Seta (Itália, 1972, 290 min. para a TV e 135 para os cinemas, a cores)
Roteiro: Baseado no livro História dum mestre, de Albino Bernardini.
Fotografia: Luciano Tovoli. Música: Fiorenzo Carpi.
Produtoras: RAI, Bavaria Film e Miro Cinematográfica (Filmado em 16 mm.)
Intérpretes: Bruno Cirino, Marisa Fabbri, Mico Cundari, Tullio Altamura e escolares de Tiburtino-Roma.
Argumento: Numa escola de Tiburtino a maior parte dos escolares desertam da escola. Um mestre decide um novo caminho didático com estes rapazes, e experimenta outro modo de fazer escola. Está tão bem realizado e os atores soam tão naturais, que todo se faz crível. Pois é este um filme honesto e apaixonado. Destaca especialmente o empenho do mestre protagonista, a sua lucidez, a sua paciência e constância, a sua inteligência amorosa e como se relaciona com os estudantes e os seus pais. Mesmo visitando a casa dos rapazes. Estamos à frente de um mestre com grande vocação e entusiasmo, que gosta dos seus alunos. E estes terminam por responder positivamente, pois dão-se conta de que este docente mostra um vivo interesse por eles, os escuta e os compreende. Ao qual não estavam antes acostumados.
Ver este Filme para pôr em Prática os métodos do MCE:
Estamos na presença dum filme tão interessante e tão atrativo, polo seu senso prático, que o melhor que podemos fazer é vê-lo e depois refletir por todo o que nele podemos observar, do ponto de vista didático e de aplicação de técnicas motivadoras e criativas. Depois do seu visionado, seria bom ler também os livros de Mário Lodi O país errado, Começar polo neno, Insieme e Crônica pedagógica, dos quais existe edição em castelhano. Também os de Gianni Rodari, especialmente Gramâtica da fantasia, e Aos três anos investiga-se e os de desenhos de Tonucci, muitos editados em Portugal polo Instituto Piaget. É esclarecedor o livro sobre este movimento pedagógico, escrito por Francisco Imbernón, e editado em 1987 pola editora catalã Laia, com o título de Uma alternativa pedagógica.
De maneira sintética resenho a seguir os princípios educativo-didáticos do MCE, criado em 1951, tendo presente que os grupos das cidades italianas onde esteve e está presente, têm a sua autonomia para desenhar projetos concretos de pesquisa e atuação:
1.- Importância suprema da criatividade em todos os campos, do teatro e do jogo, organizando atividades adequadas para desenvolver as capacidades expressivas das crianças.
2.- Fomento da leitura e da escrita criativa e da animação teatral. Alfabetização cultural e social através da cooperação, dentro de uma escola ativa.
3.- Pesquisa sobre a cultura popular, a história oral, a cultura material, o imaginário social e a etnografia.
4.- Importância da integração das crianças com necessidades educativas especiais.
5.- Investigação pedagógica para conseguir boas práticas escolares e técnicas didáticas inovadoras.
6.- Conseguir cidades verdadeiramente educadoras para as crianças. Tema em que vem trabalhando desde há tempo Francesco Tonucci.
7.- Formação e autoformação permanente dos ensinantes, única alternativa válida para a melhoria do ensino.
Tudo isto sem perder de vista os seguintes aspetos:
– A importância da escola na sociedade e o decisivo papel dos mestres e mestras.
– A incorporação às aulas de crianças de outros países e culturas, e a dimensão intercultural.
– O uso adequado das novas tecnologias e a ideia de unidade do conhecimento.
– O valor da cooperação entre os estudantes e os adultos.
– E, muito especialmente, a formação permanente dos docentes.
Proposta aos Nossos Ensinantes:
Refletir sobre as propostas e práticas didáticas dos pedagogos deste movimento educativo italiano, depois de ver o filme acima citado e de ler as obras de Lodi (os seus diários), Rodari e Tonucci.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.


