Por José Paz Rodrigues – Por sorte, parece estar remetendo nos últimos tempos a negativa conduta escolar dos adolescentes, especialmente nas aulas da nossa ESO. Ao menos pouco se fala, como anos atrás, deste tema.
Certamente um dos maiores problemas dos nossos centros secundários é ter muitos bons docentes que dominam as suas respetivas disciplinas, mas com muito poucos conhecimentos psicodidáticos. Que não é sua culpa, mas da muito deficiente formação inicial dos docentes do ensino secundário durante décadas e décadas. Tema polo qual as administrações educativas diversas nunca se preocuparam de forma séria e decidida, desenhando um plano formativo, com aulas práticas, tanto na formação inicial, como em exercício. Esperemos que o novo modelo formativo que se está a pôr em andamento, emende um bocadinho as eivas do anterior, chamado CAP.
O filme que escolhi para hoje comentar, foi realizado nos anos sessenta e apresenta de forma magistral como um professor intuitivo e reflexivo termina por recuperar todos os seus alunos de uma escola situada num bairro marginal da grande cidade de Londres. Na qual o maior problema é a conduta negativa e violenta da maioria dos estudantes. Surpreende que, sendo um filme realizado há bastantes anos, seja na sua temática tão atual para compreender os dilemas que neste momento lhe aparecem nas aulas aos nossos docentes da ESO. Com estudantes de várias nacionalidades, com problemas familiares e de inadaptação escolar.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: To Sir, with Love (Ao mestre com amor (pt), Ao mestre com carinho (br) )
Título em castelhano: Rebelión en las aulas.
Diretor: James Clavell (Reino Unido, 1967, a cores, 105 minutos).
Atores: Sidney Poitier, Judy Geeson, Ch. Roberts, Lulú e Suzy Kendall.
Argumento: Um jovem professor enfrenta alunos indisciplinados e desordeiros, neste filme clássico que refletiu alguns dos problemas e medos dos adolescentes dos anos 60. Sidney Poitier tem uma de suas melhores actuações como Mark Thackeray, um engenheiro desempregado que resolve dar aulas em Londres, no bairro operário de East End. A turma, liderada por Denhan (Christian Roberts), Pamela (Judy Geeson) e Bárbara (Lulu, que também canta a canção do título), estão determinadas a destruir Thackeray como fizeram com o seu professor anterior, ao quebrar-lhe o espírito. Mas Thackeray, acostumado às hostilidades, enfrenta o desafio tratando os alunos como jovens adultos que em breve estarão nos seus primeiros ofícios por conta própria. Quando recebe um convite para voltar à engenharia, Thackeray deve decidir se pretende continuar como docente.
Análise do Filme:
Mark Thackeray (Sidney Poitier) é um engenheiro desempregado que resolve dar aulas num bairro operário marginal em Londres. Mas a turma, cheia de alunos indisciplinados, fará de tudo para que ele desista da sua missão, como fez com os professores anteriores. Nem todas as armas do professor para motivar seus alunos são encontradas na sala de aula ou nos livros: o protagonista só estabelece uma conexão com os alunos ao provar que há uma relação direta entre os conteúdos ensinados na aula e a progressão do mundo ao redor.
Assistimos assim a um retrato da história de um professor que, ensinando sob condições adversas (alunos desinteressados, agressivos, com pouca orientação familiar e sem perspetivas de enxergar a educação como espaço de aprendizado), consegue obter resultados importantes junto aos estudantes. O filme apresenta as caraterísticas indispensáveis para o perfil de um bom educador: compromisso, seriedade e determinação para resolver os problemas na sala de aula. A iniciativa determinada do professor revoluciona a vida dos alunos. Além de discutir as questões raciais, o filme amostra como a realidade social do aluno interfere no desempenho escolar.
Aspetos básicos para observar:
– O professor começa a ter sucesso na sua docência no momento em que prescinde do currículo oficial e dos livros de texto prescritos. A vida dos alunos passa a ser o autêntico livro e o coração do novo currículo. Amostra-se-nos o importante que é didaticamente utilizar os recursos que oferece o meio que rodeia a escola, tanto social, como natural e humano.
– Resultaram muito motivadoras e interessantes as saídas com os estudantes para visitar os museus da cidade. Esta estratégia não só favoreceu a aquisição de novos conhecimentos, como também o bom relacionamento entre todos e as habilidades sociais.
– Os estabelecimentos de ensino devem ser verdadeiras comunidades educativas, em que se estabeleça uma cultura de cooperação com os colegas docentes, com os alunos e os estudantes entre si.
– A importância de desenvolver aprendizagens apreciativas para ultrapassar estereótipos e preconceitos, como o racismo, pola simples cor diferente da pele.
– Embora para sindicatos e políticos seja politicamente incorreto resenhá-lo: que importante é que os docentes tenham vocação e desenvolvam o seu importante ofício com amor e alegria!
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



