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O mestre comprometido da República no filme “A língua das borboletas”

José Paz Rodrigues – Uma das mais lindas e importantes etapas históricas no nosso país a favor do ensino e da educação da cidadania foi o período republicano de 1931 a 1936. Para o governo da 2ª República a educação do povo era um tema prioritário.

Por isto as primeiras leis promulgadas foram as relacionadas com o ensino. A da criação do Padroado de “Misiones Pedagógicas”, presidido polo grande pedagogo Cossío, para levar a cultura às comarcas rurais e aos povoações mais afastadas e esquecidas. A reforma global de todo o sistema educativo, com a construção urgente de escolas, a dignificação do mestre, aumentando substancialmente os seus honorários e pondo em marcha o famoso Plano Profissional de formação inicial dos docentes, ainda não superado hoje em dia. Do qual saíram os melhores mestres e mestras da história do nosso país. Alguns dos quais, por sorte, ainda temos entre nós, como Isabel Suárez. Entre abril de 1931 e abril de 1935 o quadro de mestres/as passou em Espanha de 37.500 a 50.500. Um aumento nada mais e nada menos que de doze mil docentes.

Seguindo o modelo pedagógico e didático da ILE (Instituição Livre do Ensino) dos grandes pedagogos Giner de los Ríos, Cossío e Biqueira, os docentes levaram às novas aulas republicanas uma didática ativa e participativa e um modelo laico do ensino. Com total respeito polos alunos e pola sua individualidade e a posta em prática de técnicas metodológicas para investigar o meio natural e social. Ourense, com a pioneira associação de mestres chamada ATEO, criada, entre outros, por Albino Nunez, foi a província com maior número de mestres comprometidos com o regime republicano. Por isso foi também o lugar onde maior repressão houve a partir do golpe de estado franquista, tal como bem escreve Neruda nas suas memórias. Ademais do filme que analisamos hoje, dia em que se cumprem os 81 anos da proclamação da República, eu recomendo ver dous estupendos documentários realizados em 2006, como são “A escola fuzilada” de David Escudero Martínez e “Misiones Pedagógicas” de Gonzalo Tapia.

O filme “A língua das borboletas” está ambientado no contexto republicano dos anos trinta. A escola do mestre Don Gregório inspira-se na realidade educativa da escola regida polo mestre lucense Gregório Sanz, que dá hoje nome a um centro educativo de Riba d´Eu. O guião de Azcona baseia-se no formoso conto incluído no livro de Manolo Rivas Quê me queres amor? Este meu artigo de hoje quere servir de homenagem a todos os mestres bons e generosos, dignos e vocacionais do nosso país, de ontem e hoje. E, em especial, a todos aqueles injustamente represaliados e assassinados polos quatro cantos de Espanha.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: La lengua de las mariposas (A língua das borboletas).

Diretor: José Luis Cuerda (Espanha,1999, a cores, 95 minutos)

Atores: Fernando Fernán Gómez (o mestre), Manuel Lozano (Moncho), Ugia Blanco, Gonzalo Uriarte, Alexis de los Santos, Jesús Castejón, Guillermo Toledo, Elena Fernández, Celso Parada e Tucho Lagares.

Argumento: Situado em 1936 o filme foi rodado quase todo em Alhariz. O mestre Don Gregório vai ensinar ao rapaz Moncho com muita paciência e dedicação toda a sua sabedoria sobre literatura, ciências naturais e até sobre a mulher. O ambiente de ameaça política está presente desde o primeiro momento e o mestre vai ser atacado por opor-se ao novo regime fascista. A política e a guerra colocam-se entre as pessoas e a tragédia aparece. Mesmo o rapaz e o seu pai terminam por insultar o mestre, que antes fora seu grande amigo. O mestre comprometido mantém-se leal ao governo republicano legítimo e paga com a morte o seu ideal e comportamento cívico-ético.

 

Aspetos básicos a observar:

– Em primeiro lugar, o modelo de mestre republicano: com valores éticos, que respeita os seus alunos, que sabe calar quando é necessário para que os alunos escutem, que ama o seu ofício, que mantém um diálogo aberto, que é insubornável, que se abre ao contexto social e natural da envolvente escolar e que mantém até o final a dignidade, embora tenha que pagar com a sua vida.

– Em segundo lugar, as técnicas didáticas que põe em prática: a maneira de como se relaciona e comunica com os seus alunos, o acertado uso do método científico de investigação, as saídas ao campo, as estratégias para fomentar nos seus pequenos estudantes a curiosidades, a sua serenidade e paciência e a sua compreensão.

– Em terceiro lugar, o terrível que foi o momento histórico do golpe de estado franquista, com todo o que trouxe de violência e repressão, sequelas que ainda, por desgraça, temos hoje no nosso país. Depois do grande entusiasmo com que se recebeu a proclamação da República no 1931. Os republicanos moderados não souberam ou não puderam manter vivo um sistema político que tanto se empenhara a favor do ensino, da educação e da cultura do povo. Prestigiando e apoiando os mestres, criando infinidade de escolas e muitas bibliotecas. Para conquistar o amor pola leitura e a elevação cultural dos cidadãos.

– Estudar o processo repressor sobre os mestres, os represaliados, os depurados e os assassinados.

– Idem o modelo de educação difusa das “Misiones Pedagógicas” e a realizada em Galiza, dirigida por Dieste, de agosto a dezembro de 1933.

– Analisar o Plano Profissional de 1931. O melhor e mais completo de toda a nossa história educativa.

 

 

(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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