José Paz Rodrigues (*) – O diretor de Quando Tudo Começa, Bertrand Tavernier (1941), faz parte da leva de cineastas europeus comprometidos em realizar filmes políticos e sociais, que denuncia com sensibilidade e estimula a reflexão sobre os problemas impostos polo sistema capitalista na atualidade.
No filme, o diretor focaliza os efeitos das chamadas políticas neoliberais implantadas na Europa a partir da década de 1980 sobre a população pobre que frequenta a escola de uma localidade francesa com muita crise polo desemprego. O filme foi eleito o melhor na votação do público no Festival de S. Sebastião de 1999. De dentro da escola se move entre documentário e ficção, fazendo o público vivenciar os problemas enfrentados polos professores que a todo o momento se indagam sobre o papel da escola em um contexto de perdas dos direitos sociais, assim como se veem cada vez mais pressionados ao desempenharem a profissão de professor.
O mestre protagonista, que também é diretor da escola infantil, preocupa-se por todas as crianças e, em especial, polas que têm mais problemas nas suas casas e famílias. Ademais põe em prática numerosas estratégias didáticas muito acertadas, criativas e inovadoras. Sendo também um líder dentro da equipa de docentes.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Ça commence aujourd´hui (Quando tudo começa)
Diretor: Bertrand Tavernier (França, 1999, a cores, 105 minutos).
Atores: Philippe Torreton, Dominique Sampiero, Maria Pitarresi, Nadia Kaci, Françoise Bette, Christine Citti, Emmanuelle Bercot e crianças de pré-primária.
Argumento: A trama focaliza a história do professor Daniel Lefebvre (Philippe Torreton), que ensina crianças em Hernaing, uma pequena cidade que sofre com o fechamento das minas de carvão e enfrenta uma taxa alarmante de 34% de desemprego. Daniel e os outros professores são aconselhados a não se envolverem com os problemas crónicos da comunidade, mas é impossível para Daniel permanecer imune à miséria, à falta de assistentes sociais, à indiferença do governo e aos sérios problemas domésticos que as suas crianças enfrentam. Em um dos casos, um motorista de camião com uma enorme família e um bebé recém-nascido não consegue pagar a conta da luz, e a casa fica às escuras e sem aquecimento em pleno início do inverno. Depois de um trágico incidente na escola, Lefebvre decide comandar uma campanha contra o governo local, reivindicando condições mínimas de vida e dignidade para a população. Além de dificuldades pessoais, como a doença do pai, um ex-mineiro que sofre de enfisema, ele irá enfrentar enormes dificuldades burocráticas e a maquinação das autoridades educacionais, que farão de tudo para colocar o professor na linha.
Análise do Filme:
Daniel Lefebvre, professor e diretor de uma escola pública da pequena cidade de Hernaing, na França, em 1998, defronta-se com situações dramáticas vividas polas famílias das crianças que estudam na escola, como no caso de uma mãe que, de tão bêbeda, acha melhor não levar os filhos para casa. Daniel entra em contacto com assistentes sociais e, ao ser ignorado, no fim do dia decide levar as duas crianças para casa. Lá percebe que o chefe da família está fora da cidade, em busca de trabalho na Bélgica, e a casa está às escuras, sem aquecimento no inverno, por falta de pagamento da conta de luz.
Resistindo a todo o tipo de dificuldades da burocracia do sistema de ensino e das tentativas de manipulação das autoridades educacionais, o professor Daniel decide contrapor-se ao governo local, reivindicando condições mínimas de vida e dignidade para a população. Nas aulas, ele e as outras mestras, cuidadoras e colaboradoras, põem em prática um amplo elenco de técnicas e estratégias didáticas muito criativas. Cuidando as diferentes expressões artísticas, teatrais, literárias, musicais, lúdicas e de conhecimento da realidade com saídas didáticas, passeios escolares e utilização de recursos humanos, nos que participam mães e pais, artesãos e artistas e outros membros da comunidade.
Polo seu significado, quero reproduzir o comentário de uma das mestras da escola, que a seguir resenho:
“Há vinte anos eu tinha 45 alunos. Não nos queixávamos. Tinha 45 alunos, heim! Havia disciplina. As crianças eram pontuais e estavam sempre limpas. O que não significa que não houvesse pobreza. Hoje em dia é diferente. Tenho 30 alunos e não dou conta. Eles não só chegam atrasados, como vêm sujos. Os pais estão frequentemente em situação de desespero. São poucos os que trabalham. As crianças nem sabem mais o que é uma profissão. E pode-se dizer que só tem a mim com quem falar. […] Se eu lhes mostrasse às crianças, o estado em que se encontram! Tão pequenas e tão frágeis. As mães não cuidam mais dos seus filhos como antes. É como se elas quisessem se livrar delas. Elas levam as crianças à escola mesmo com 40 graus de febre. Passam o dia diante da TV. À noite fazem o mesmo com eles para ficarem tranquilos. Até durante o jantar. Resultado: temos de lhes ensinar tudo! Até a dar os bons-dias. Tem mais. Alguns nem sabem que podemos conversar com alguém. As palavras servem para dizer: tenho fame, tenho frio, tenho sede. É a sobrevivência.”
Aspetos a observar:
-A variedade de técnicas didáticas de todo o tipo que o mestre-diretor leva à pratica com as crianças.
-A importância da influência dos pais na educação dos filhos, fazendo ver que a primeira escola é a família.
-A responsabilidade que todas as instituições têm no tema educativo para que seja um direito de todos.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



