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‘O Livro de Barro’, de José Alberte Corral

PGL – Entre as novidades de verão na loja Imperdível está O Livro de Barro, a mais recente obra do escritor José Alberte Corral, membro ativo de associações culturais como a AGAL ou O Facho.

O autor corunhês trabalhou a que é a sua sétima obra, editada por Toxosoutos, depois de sair de umha muito delicada situaçom de saúde. O Livro de Barro é um poemário nascido da reflexom e depois de percorrer «a maior parte do meu ciclo vital», em palavras do própio Corral. Um poemário profundamente existencialista, nom só na vertente individual como pessoa, mas também na coletiva como povo.

Nos seus versos, Corral Iglesias fala também da integraçom da mulher, contando com algum poema dedicado a «esses amigos que se foram, combatentes contra a tirania franquista».

 

Reproduzimos a seguir a recensom publicada por Maria Peteira no jornal Galicia Hoxe.

O Livro de Barro: palavra e cicatrizes

Maria Peteira. Escrever sobre poesia é sempre um acto de grande ousadia, introduzir-nos na seara de O livro de barro é mergulhar-se no arrecendo de umha poesia cruzada de cicatrizes e afastada de um mero exercício de linguagem. Toda boa poesia possui o poder de apreixar em si mesma o real-concreto e sem este perder a sua especificidade, mudando-o, prenhando-o de liberdade, assemade que fica engolido no poder da palavra.

Escuitar, espreitar, observar… som ferramentas imprescindíveis para perceber mais além do imediato, e os poetas afinam todos os seus sentidos para ser quem de ouvir nas noites do silêncio.

Porque a poesia nom ocupa os espaços para os fazer seus, da sua propriedade, espoliando; pola contra, nega o saqueio. É palavra transida de tempo, de vontade emancipadora, é percepçom e trabalho, acadar a verba justa, precisa, para construir a voz que medie entre o homem e a vida.

O universo poético de Corral Iglesias é umha aposta aberta e sem condições contra o dizer morno e insulso. Procura as velhas palavras da tribo, limpa-as, para nos as devolver ceivas de amarralhas do falso lirismo. Os seus poemas refractem e mostram um mundo nom só em caos senom as vezes, cruel: “À queima-roupa, diante de ti,/ o disparo da miséria,/ os zombeis acuitelam-se/ polas varreduras de um restaurante”.

Só a ternura, a amizade, o sexo, som os abeiros onde é possível habitar: “Nunca soubem de palavras tristes/ nos beijos de umha mulher,/ no seu queçor sem tempo/ som eterno”. Percorrermos a cidade da palavra da mao de um eu lírico que nos conduz por umha realidade nom sempre percebida, e sempre acochada nos labirintos dos discursos televisivos.

Na sua escolha léxica, o poeta, privilegia substantivos que se tornam bisturis para discernir entre a névoa verborreica do dizer vougo, o que nom significa que abandone o coidado da palavra, empregando-a de um jeito atinado, o que lhe ajuda a criar os âmbitos onde nós, os leitores, assistimos como testemunhas da sua escrita.

Mas este mimo nom nega a sua vontade da utilizar, quando o tem a bem, como estilhaços cheios de raiva para nos mostrar o desamparo dos humildes: “Esta loucura de terror e medos/ que golpeia com silêncio cúmplice,/ renasce em átomos, em moléculas, no sorriso/da rapariga emputecida que já esqueceu o canto./E… o mar lambe areais barbitúricos/ onde sombras chinesas se cravam/ agulhas hipodérmicas para beijar os nenúfares/ da morte. Dos mais indefesos, os nenos: Entre zurros de calejas e choupanas,/ nada aguardam,/ nom há flor nem jogos no seu círculo agónico”.

Todos os poemas, até os mais existenciais, mostra-nos como o indivíduo nom é só a sua particularidade pois a sua concretizaçom nom é possível sem a existência do outro. Para o poeta, um é em tanto que é com e no outro. Somos para poder ser eu, nada é possível sem todo aquilo e sem aqueles com que convive: “Colhamos a velha palavra deste povo esmagado/ escarnecido/ e destruiremos as abóbadas dos céus/ para que este mar, que de sempre nos pertence,/ ateigue as nossas coteiras/ de rechouchios de pássaros”.

Nom há concessões no universo poético de Corral Iglesias, é um ronsel que marca o rumo entre o desacougo e a carragem.

É umha poesia tecida com os vímbios da aventura do existir, em funda cumplicidade do homem com a sua existência concreta, poderíamos afirmar que é umha poética na qual a memória, a experiência, se resgata para saber-nos filhos da História: “Quisemos rebentar a morte…/ as penedias sabiam/ dos nossos petróglifos de sonhos,/ dos risos que abriam portons às estrelas./ Nas horas cruentas do lacrau/ explodíamos as máscaras dos deuses/ que orneavam cruéis bafos de incenso”.

Estamos diante de um poeta que tem umha relaçom amorosa, emotiva, com a poesia, mas também doida, inçada de cicatrizes, de feito que O livro de barro bem poderia-se intitular, O livro das cicatrizes.

 

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