José Paz Rodrigues (*) – Desde há bastante tempo, durante o mês novembro, vem-se celebrando em todo o mundo o “Dia mundial dos Direitos das Crianças”. Por este motivo, para a série das Aulas no Cinema escolhi para comentar o filme Na idade da inocência, realizado polo diretor galo François Truffaut em 1976.
Um belo filme, profundamente pedagógico, como muitos deste realizador, em que se amostra que é dever de pais e educadores, e de toda a sociedade, tratar com profundo respeito todas as crianças. Porque nenos e nenas são o mais importante que temos no nosso mundo, ao representarem o futuro do mesmo. Sendo um dever também de todos nós lutar porque, em todos os cantos do nosso planeta azul, se cumpra e se respeite a declaração universal dos direitos das crianças. O que infelizmente não acontece em bastantes nações.
Os grandes pedagogos e educadores, e muito especialmente os das escolas novas, e os nossos da ILE (Giner e Cossio), sentiam reverência polas crianças, respeitando não só o seu ser físico e humano, também o seu ser psíquico, as suas aptidões, atitudes, interesses, gostos e preferências, escapando de todo o tipo de manipulações das mentes dos seus alunos. Como tem e tinha de ser sempre.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: L’argent de poche (A idade da inocência (pt), Na idade da inocência (br) )
Diretor: François Truffaut (França, 1976, 105 min., a cores)
Roteiro: F. Truffaut e Suzanne Schiffman.
Música: Mauriece Jaubert. Fotografia: Pierre-William Glenn.
Intérpretes: Georges Desmouceaux, Jean F. Stévenin, Philippe Goldmann, Chantal Mercier, Virginie Thévenet, Marcel Berbet e outros.
Argumento: As experiências dum grupo de crianças, de diferentes idades e situações familiares, todas elas da pequena cidade gala de Thiers. Patrick mora com seu pai inválido, tão só quer encontrar o amor e logo há de receber o seu primeiro beijo. Julien vive no seu lar desbaratado, sua mãe alcoólica, o maltrata, o diretor do colégio qualifica-o de caso “especial” e termina por converter-se em ladrão, mentiroso e delinquente. É, em definitivo, um sobrevivente. Arredor destas duas personagens gira a vida doutras crianças, das que se irão conhecendo as suas histórias.
É importante refletir sobre como devemos tratar e educar as nossas crianças:
Na sociedade atual, com a crise que nos está invadindo em muitos aspetos, não devemos esquecer que a educação das gerações mais novas, a saúde das pessoas e os aspetos de tipo social, teriam que ter prioridade sobre todo o demais. E se há que fazer cortes económicos, há muito onde os fazer, mas não no que vimos de mencionar. Não em escolas nem em professores, e deveríamos ter escolas de mães e pais, hoje lamentavelmente muito esquecidas.Teríamos de nos empenhar muito mais na melhoria da formação inicial e permanente dos docentes. Para que saibam levar e dinamizar positivamente as suas aulas, tratem bem os seus alunos e aprendam a motivá-los e criar neles sede por aprender e porque tenham alegria e curiosidade.
No filme que comento, o professor que aparece no mesmo pronuncia diante dos seus alunos este formoso discurso:
”[…] Eu também quero dizer que, por causa das lembranças da minha própria infância, eu não estou a favor da maneira de como as crianças estão tratadas. Foi por isso que eu escolhi esta profissão, ser professor. A vida não é fácil, é dura e é importante que vocês aprendam a dar duro para poder enfrentá-la. Atenção, eu não estou dizendo que vocês se tornem agressivos, eu falo de maneira geral. É estranho que aqueles que tiveram uma infância mais difícil estejam mais preparados para serem adultos do que os que foram sobreprotegidos e muitos amados. É a lei da compensação. A vida é dura, mas é maravilhosa. Basta a gente ter que ficar na cama por uma gripe ou uma perna quebrada e você fica louco para sair, respirar um pouco. Muitas vezes esquecemos o quanto amamos a vida. Bom, vocês vão ter as suas férias, vão descobrir novos lugares, fazer novos amigos e depois em setembro passarão de ano. Eu quero dizer vocês que no ano que que vem teremos meninas. O tempo voa, em muito breve vocês terão os seus próprios filhos, espero que amem seus filhos como eles amarão vocês. Aliás, eles amarão vocês se vocês os amarem e se vocês não os amarem eles irão transferir seu amor, sua ternura, sua afeção… para outros, para outras coisas. Porque, porque a vida foi feita assim, não se pode deixar de amar e de ser amado. Boas férias!”.
Quero destacar também que neste lindo filme aparecem dous modelos contrapostos de professores. Richet é agradável e dinâmico, empático com o seu grupo, flexível com o programa do curso e sabe dosificar tanto a formação como a informação nos seus alunos, comporta-se de forma amigável, sem que por isto se lhe escape a ordem das mãos. O diretor, com esta personagem no seu papel de professor, quer fazer uma homenagem a todos aqueles docentes modelares que se preocupam polos seus alunos, que os conhecem, os apreciam e os respeitam, que lhes infundem entusiasmo, que são às vezes pais e às vezes amigos, uns seres humanos cálidos, com alegria, que amam a vida e acompanham os seus alunos nalguns difíceis anos da sua vida.
Polo contrário, a senhorita Petit é apresentada como autoritária e inflexível, preocupada mais polas tarefas e os conteúdos que polos seus alunos. Equivocadamente não é consciente de que as crianças são o mais importante que tem na aula, de que o seu papel e conduta pode influir negativamente nos discentes, como assim acontece nas aulas de professores como ela. Depois da visionação deste filme, podemos concluir sobre o importante que é ter bons professores, que refletem sobre o que levam a cabo no dia-a-dia do seu labor, que sabem tratar os alunos, que amam as crianças e que desfrutam com o seu importantíssimo ofício. Também sobre o importante que é o ofício de pais, sabendo educar os filhos.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

