PGL – Dous dos últimos livros em formarem parte do Imperdível da AGAL som Os esquemas de Fradique, de Fernando Venâncio, e A Floresta em Bremerhaven, de Olga Gonçalves.
Os esquemas de Fradique
O livro de Fernando Venâncio é umha paródia aos romances intertextuais e, por isso mesmo, umha paródia de si próprio, acarretando relações dialógicas que fazem, afinal de contas, com que haja uma história para contar: a história dos últimos sobreviventes da hipotética família (ou famílias) de Fradique Mendes.
O romance dá-nos a conhecer a existência de dous descendentes do mítico Carlos Fradique Mendes, um velhote e uma velhota, ambos residentes em Lisboa. Eles desconhecem a existência um do outro e vêm a encontrar-se graças às investigaçõ
es de um jornalista desempregado contratado para investigar as vidas paralelas da estranha personagem do século XIX.
Aproveita-se para falar de Eça de Queirós e de Jaime Batalha Reis, afinal os pretensos pais de Fradique Mendes, provando-se, afinal, que eles nom eram pais, quando muito padrinhos de um homem que existiu nom só na cabeça deles como na cabeça das personagens deste rocambolesco livro. Fala-se ainda da Nação Crioula do Agualusa, onde o mesmo Fradique é fornicador de indefesas negrinhas com pretenso sangue real.
Martinho Telha, jovem jornalista desempregado, natural de Braga e a viver em Lisboa, é contratado polo velho Cristiano Fradique para investigar os últimos momentos de vida de seu avô, Carlos Fradique Mendes. Embora de uma forma pouco ortodoxa do ponto de vista metodológico, a investigaçom vai avançando, vendo-se o jornalista, sujeito da enunciaçom ou, mais tradicionalmente chamado, narrador da história, envolvido num roubo de documentos de que é acusado. A história enreda-se em mil e um pormenores, próprios dos livros de mistério, nom sem uma forte carga de ironia.
Este romance é mais um contributo –obviamente literário– para melhor compreender a tam controversa figura de Carlos Fradique Mendes, um herói que os literatos nacionais portugueses do século XIX bem desejariam que Portugal desse ao mundo: um homem emancipado, moderno, rico, aventureiro, culto, mulherengo e quase mágico. É, além de umha saborosa história, uma reflexom sobre quase duzentos anos de escrita romanesca em Portugal.
A floresta em Bremerhaven
O livro de Olga Gonçalves é um dos primeiros textos a explorar de modo sistemático como as construções ideológicas do passado sobrevivem e actuam sobre o presente pós-revolucionário. O livro evoca o regresso de uma família de emigrantes que residiram na Alemanha e, ainda que se recordem da experiência alemã, dialogam com a realidade portuguesa.
O romance investiga até que ponto a recém-adquirida liberdade de expressão se pode considerar em si estandarte das mudanças sociais, culturais ou políticas supostamente inauguradas com a chamada «Revolução dos Cravos». Uma variedade de tempos, com as suas respectivas experiências individuais e colectivas, entram em cena mediante a transcriçom aparentemente directa das falas de um reduzido número de personagens.
Comentários ao aqui e ao agora som interceptados por lembranças do passado como respostas dirigidas a uma interlocutura implícita. Organizadas como o diário de um sujeito sem voz própria, essas vozes constituem um texto que postula a natureza problemática da palavra escrita; a sua impossibilidade de representar a História e de dar a conhecer o «eu».
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