C.C.V. (*) – Santiago de Compostela é uma cidade de 94.339 habitantes segundo o recenseamento de 2008 do INE. Durante o curso académico correspondente (2007-2008) 27.795 estudantes estavam matriculados na Universidade de Santiago de Compostela (USC), dos quais 1.195 vinham ao nosso país com algum tipo de convénio ou programa de mobilidade (690 Erasmus, 86 Sicues, etc.).
Além destas, outras 1.659 pessoas oriundas doutras partes do estado estavam inscritas na USC fora de qualquer convénio. Dados estes números, é de estranhar que não se tenha feito qualquer análise do impacto sócio-cultural do fenómeno numa cidade de poucos habitantes.
Nesta maré de números há que distinguir diversas tipologias, e a análise por um patrão único é impossível. Imos, porém, apresentar alguns dados para compreender os efeitos deste fenómeno social.
Os estudantes na invenção do turismo
A história do fenómeno da mobilidade estudantil remete-nos para o Grand Tour. Até começos do século XX os jovens aristocratas ingleses faziam uma longa viagem, ao finalizar os estudos, pola Europa fora. É o nascimento do turismo. O alvo desses três ou quatro anos de viagem era acumular capital social que no futuro lhes ajudariam a governar o Império. Para a formação desses jovens o Grand Tour era, aliás, uma espécie de “carnaval da vida”, um período de tempo em que lhes era permitdo um género de vida que posteriormente não poderão manter para projectar o “negativo” da imagem da atitude social ideal, com uma função semelhante à famosa rumspringa dos amish.
Formar pessoas ou atrair turistas?
A percentagem média de mobilidade nas instituições da educação superior no estado espanhol (estudantes recebidos e enviados ao estrangeiro) é de 2%. A USC triplica esta quantidade. Entre 2004 e 2008 chegárom a Compostela 4.317 estudantes, enquanto fôrom para o estrangeiro 2.439. Na fase de doutoramento, porém, som muitíssimos mais os que partem dos que vêm.
Os destinos principais do Erasmus europeu são exatamente os mesmos que turismo: Espanha, Itália e em geral o sul da Europa (metade dos galegos que nos últimos 4 anos fôrom de Erasmus tiveram como destino a Itália), daí que não se trate de um fenómeno regido apenas por questões académicas.
Nas fases superiores, porém, mantêm-se para a mobilidade os critérios escolares, e os fluxos do estudantado continuam a dirigir-se para as grandes universidades. Com a adatação das universidades galegas ao Espaço Europeu de Educação Superior o financiamento dos estabelecimentos passará a depender dos dados de mobilidade a pola sua capacidade de atrair alunos.
A situação é tal que o anterior vice-reitor de Relações Internacionais, Lorenzo Fernández Prieto, advertiu no passado curso que o objetivo das universidades é passar de formar cérebros fugados a contribuir para formação de estudantes de outros países, mediante a internacionalização da docência. A lógica que regerá a política universitária será então mui semelhante a lógica que visa “atrair investimentos externos”: os países menos desenvolvidos terão de “venderse” como melhor puderem.
O conflito linguístico
O programa Erasmus diz promover o conhecimento de línguas minoritárias. Isso é na teoria. Na realidade, está a impor o inglês como língua franca por toda a Europa, tal como refere um meio tão pouco “suspeito” como El País. É significativo que a página oficial do Programa Erasmus, alojada no domínio da European Commission, só possa ler-se em inglês, francês ou alemão.
Destinos como Polónia, Noruega, Grécia, etc… são possíveis para estudantes galegos desde que saibam inglês, embora sejam incapazes de dizer nem “olá” em polaco, norueguês ou grego. A ditadura do inglês domina de tal jeito que M.U.A., galega do Návia e estudante de Medicina, nos diz que “para fazer o estagio em São Paulo, onde tenho família, exigem-me passar uma prova de inglês, sem se importarem de que eu já fale galego/português”. Do mesmo modo um estudante estrangeiro pode vir à Galiza sem saber a nossa língua. De facto, não é estranho que fiquem a saber pola primeira vez que a Galiza tem uma língua própria quando chegam ao País.
Nos Países Catalães setores minoritários de estudantes Erasmus chegaram a promover uma associação que exigia aulas em espanhol. O deputado catalão Ignasi Guardans Cambó perguntou no Parlamento Europeu porque razão a iniciativa Cursos Intensivos de Línguas Erasmus (EILC), concebido em teoria pola Comissão Europeia para promover as línguas menos ensinadas na Europa, não prevê o ensino do catalão, galego e euskera. A resposta do Sr. Figel, no nome da Comissão, é bem significativa: “os idiomas regionais (sic) menos utilizados e menos ensinados que são essenciais para estudar noutro país não estão excluídos dos EILC […]. Não obstante, nestes momentos não há nenhum cursos nestes idiomas.
(*) Reportagem publicada originalmente no n.º 84 do Novas da Galiza.
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