
Como professor de francês língua estrangeira sempre me chamou a atenção que os programas e materiais didáticos para o ensino do galego e do castelhano fossem em geral muito semelhantes e apresentassem numerosas sobreposições. Esta similitude é talvez maior se observamos os recursos pedagógicos para as outras matérias, ministradas em galego ou em castelhano segundo o estipulado no chamado Decreto de Plurilinguísmo. Parece como se as autoridades educativas assumissem que a competência em galego e em castelhano é similar em todo o país. Será então que se pode ensinar do mesmo jeito o galego em Bande e na cidade da Corunha? Será que podemos ensinar do mesmo jeito a geografia em galego no Íncio e em Vigo?
Como bem sabemos, as duas línguas co-oficiais na Galiza não são faladas na mesma proporção em todos os concelhos: o uso do galego é ainda predominante nas regiões rurais enquanto que nas mais urbanas o uso do castelhano já se tornou maioritário. Nestas últimas, o galego já não é a língua nativa da maioria da população. Assim, para 2013, o IGE revelava que praticamente 50% dos habitantes das sete principais cidades do país aprenderam a falar só em castelhano, que 52% dos pais e mães apenas falavam nessa língua com os filhos e que em mais de 25% dos lares ninguém usava já a língua do país. Neste contexto urbano, as escolas e liceus desempenham um papel cada vez mais importante na aprendizagem do galego, constituindo, em não poucos casos, o único local onde as crianças podem ouvir falar nesta língua.
Diante desta realidade diversa, está a garantir o nosso sistema educativo uma boa aprendizagem do galego? Parece que não. Vários estudos desenvolvidos na Universidade de Santiago de Compostela e focados em 4º do ESO mostraram recentemente que o programa de imersão parcial em galego não está a funcionar tão bem como afirma a administração: em geral, o alunado acaba o ensino obrigatório com melhor competência em castelhano do que em galego, nomeadamente em termos de gramática e léxico. Aliás, estes estudos constataram deficiências importantes no ensino do galego, como a falta de atividades comunicativas, a significativa percentagem de docentes de ou em galego não nativos nesta língua ou a necessidade de melhorar a formação pedagógica do professorado no ativo. Estes problemas não envolvem apenas as cidades, mas é nelas onde são mais prementes: o galego é já para muitas crianças urbanas uma língua segunda ambiental que aprendem fundamentalmente na escola junto com o inglês e uma segunda língua estrangeira.
Não deixa de ser notável que o governo galego tome muito mais a sério o ensino do inglês, que também adquiriu com o Decreto de Plurilinguísmo o estatuto de língua segunda ambiental no âmbito escolar: introdução como língua de ensino em matérias onde o galego foi legalmente banido, reforço das competências linguísticas do professorado específico nas escolas plurilíngues, acampamentos de imersão em inglês para as crianças, importante apoio docente com falantes nativos… Ainda que os programas imersivos em inglês também apresentam as suas carências, por que motivo não são adotadas medidas nesta linha para o galego ali onde seriam precisas? Por que se tenta aplicar uma metodologia específica (AICLE) para ensinar matérias em inglês enquanto nas matérias em galego o alunado urbano aprende nesta língua como se fosse a sua nativa?
E acresce aqui um facto que talvez estejamos a subestimar: segundo dados da própria Xunta, a imensa maioria de crianças castelhano-falantes chegam ao ensino primário em galego sem apenas terem trabalhado com esta língua na educação infantil ou no seu âmbito familiar. O conflito que isto tudo acarreta para o alunado, para as suas famílias e para o professorado não é menor. Em muitas escolas supera-se isto reduzindo ou obviando o uso do galego nas matérias que lhe são reservadas e que, aliás, costumam ser ministradas por docentes castelhano-falantes. Aí está, ao meu ver, um dos principais ataques do Decreto de Plurilinguísmo à viabilidade nas escolas urbanas do modelo de ensino do galego e em galego desenvolvido desde finais do século XX. Sim, cumpre modificar o decreto, cumpre reintroduzir o galego nas escolas infantis, cumpre garantir uma boa competência linguística em galego dos docentes, cumpre muita cousa, mas as propostas que podam surgir deveriam superar sobretudo aquela ilusão de uma Galiza onde toda a comunidade escolar -alunado, famílias e professorado- é perfeitamente bilíngue em todos e cada um dos seus concelhos. Não, quer se goste quer não, na Galiza de 2016 já não podemos ensinar do mesmo jeito o galego em Bande e na cidade da Corunha.
