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O fundador da primeira escola popular gratuita do mundo no filme “S. José de Calasanz”

José Paz Rodrigues (*) – Desde há muitas décadas vêm-se celebrando no nosso país a festividade do padroeiro dos mestres, coincidindo com o dia 27 de novembro de cada ano. Nos últimos tempos, porque, de forma absurda e por falta de conhecimento, alguns consideram S. José de Calasanz excessivamente próximo ao catolicismo, a data está muito esquecida.

Com este meu artigo de hoje da série sobre as aulas no cinema, quero reivindicar a grande figura de Calasanz, que foi um pedagogo excecional. Infelizmente, por diversas razões, pouco conhecido o seu labor educativo e os seus postulados pedagógico-didáticos inovadores e pioneiros, com mais de quatro séculos de antecedência à pedagogia moderna. Ao qual é preciso acrescentar que sempre esteve a favor do direito ao ensino das classes populares menos favorecidas.

Guardo muita nostalgia da figura de Calasanz porque no Instituto de investigação pedagógica de Madrid, que leva o seu nome, ocupei muitas horas durante os meus estudos na Complutense para ler e pesquisar sobre os temas das diferentes matérias do curso, e foi ali onde pola primeira vez pude ler o Boletim da ILE de Giner e Cossío. Os meus professores Ruiz Bérrio, Allué, Garcia Hoz, Yela, Navarro e Moreno, entre outros, recomendavam-nos que fossemos trabalhar à sua estupenda biblioteca, situada nas proximidades da rua Serrano, perto da Residência de Estudantes da ILE. Também lembro com agrado que durante tempo, estudando na Normal ourensana, e depois já como mestre a partir de 1969, celebrávamos a festividade reivindicando o importante ofício dos docentes.

José de Calasanz, que foi em 1597 o fundador da primeira escola pública popular gratuita do mundo, tinha nascido, de família nobre, em Peralta de la Sal (Huesca) a 31 de julho de 1557, morrendo em Roma em 25 de agosto de 1648, com 91 anos de idade. Estudou vários cursos nas universidades de Valência, Alcalá e na de Lleida, onde se doutorou. Em 1592 partiu para Roma e ali comprovou em direto a grande quantidade de crianças órfãs e pobres que viviam nas ruas. Para as atender decidiu criar uma pequena escola gratuita na paróquia da Sta. Dorotea do Trastévere, considerada como a primeira escola pública e gratuita da história. Teve tanto sucesso que foi necessário ampliá-la, passando a ter a sede na paróquia da S. Pantaleão, que depois se converteu na casa matriz das Escolas Pias.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: S. José de Calasanz (em castelhano e português, e dobrado a outros dez idiomas)

Documentário produzido por Goya Producciones e a Ordem das Escolas Pias de Espanha e Itália (2009, 50 min., a cores)

Argumento: Na filmagem intervieram mais de 30 atores. Trata-se de uma biografia de Calasanz. O guião, carregado de força dramática, amostra a luta do jovem pedagogo protagonista e a sua extraordinária personalidade, amigo de Galileu, que rompeu os moldes do seu tempo e foi vítima de perseguições, calúnias e traições. Foi denunciado pola Inquisição e, inclusive, chegou a ser expulso como Geral da Ordem que fundou. Manteve com decoro e força uma pugna com a mentalidade elitista de fins do século XVI, para oferecer acesso ao ensino gratuito das crianças pobres de Roma. Também foi um estupendo formador de mestres, sendo um precursor da pedagogia moderna e um excelente organizador escolar. Semelhante, e inclusive superior, ao pedagogo coetâneo protestante Coménio, que teve mais sorte na divulgação do seu pensamento.

 

Análise da figura do Pedagogo Calasanz:

A preocupação de Calasanz polos pobres e desfavorecidos manifestou-se já nos seus anos de juventude, quando fundou em Claverol uma instituição para distribuir alimentos aos mais necessitados da localidade. Esta fundação benéfica durou até 1883. Ao ver em Roma a grave situação em que viviam muitas crianças, descobriu a extraordinária importância da educação como meio de melhoria moral, de promoção social, de reforma dos costumes e de aquisição de valores.

Na sua obra pedagógica é preciso destacar vários aspetos muito importantes. Primeiro, foi o criador de uma escola popular gratuita e pública com quatro séculos de antecedência, inovação altamente revolucionária que rompia de forma radical com os privilégios da classe que mantinha na marginação e a pobreza a grandes massas de população. Por isto considera-se como o pedagogo da gratuidade e generalização do ensino a todas as classes sociais sem discriminação, por razão de tipo social, racial ou religiosa. E isto o manteve durante toda a sua vida, de tal modo que, sem ter que pagar dinheiro algum, admitia na sua escola rapazes protestantes, muçulmanos ou judeus.

Em segundo lugar, foi o organizador, criador e sistematizador da graduação escolar por níveis e ciclos no ensino primário, assim como dum nível de formação profissional e dum sistema de ensino secundário popular. As suas escolas chegaram a ter até uns 1500 estudantes num mesmo estabelecimento, o que obrigava a uma organização escolar complexa e minuciosa, para poder funcionar.

Em terceiro lugar, os seus alunos aprendiam a ler indistintamente em latim e na língua materna. Calasanz, ainda mais que Coménio, foi o grande defensor da língua materna, na qual estavam escritos todos os livros escolares, mesmo os utilizados para aprender latim. Neste tema foi, sem dúvida, o pedagogo mais avançado da época. Dava muita importância à leitura e à matemática, pensando na futura aquisição de um ofício. Para os que queriam continuar estudos de letras ou literários, profundava na gramática. Convém recalcar o seu interesse polo ensino da matemática, no qual foi um grande inovador, ao utilizar recursos didáticos lúdicos e intuitivos, e ter uma grande visão de futuro.

Continuamente nos seus escritos manifesta o interesse polo ensino das ciências, a física, a química e a história natural. O que contrasta com o desinteresse geral que existia naquela altura na Europa por estas matérias curriculares. Por isso não deve admirar que os estabelecimentos de ensino dos Esculápios fossem sempre os mais avançados de todos neste tema. E que Calasanz fosse um dos poucos que ajudou e apoiou Galileu e Campanella no seu momento, na grave repressão que sofreram por parte dos involucionistas. Como grande cristão que era também se preocupou nas suas aulas de formar eticamente e em valores humanos aos seus alunos.

Por último, no aspeto disciplinar, foi o iniciador do método preventivo, segundo o qual é muito mais importante prevenir do que reprimir. Este método foi desenvolvido muito mais tarde de forma magistral por Dom Bosco. Em matéria de disciplina, e em contra do que era habitual na sua época e em épocas posteriores, sempre defendeu a máxima moderação na aplicação de castigos. Preferia antes a moderação, o amor e a benignidade, como base da disciplina. Se afinal era necessário aplicar algum castigo para corrigir condutas negativas, solicitava ser mais benignos que severos e buscar a emenda certa da conduta desviada. Pedagogo bastante desconhecido pola maioria de docentes (a sua projeção religiosa obscureceu bastante o seu fantástico legado pedagógico), temos que recuperar a sua grande obra educativa. Por ser um pioneiro e um adiantado à didática e pedagogia modernas. Colocando-o ao lado dos Coménio, Pestalozzi, Froebel, Dom Bosco, Tagore, La Salle, Manjón, Milani, Flanagan, Américo e Geheeb.

 

Temas para Refletir:

Analisar o importante que é recuperar a figura pedagógica de Calasanz, tão desconhecida como valiosa, polo inovadora que foi no ensino e por defender abertamente a escolarização gratuita de todos os rapazes sem discriminação alguma e o ensino através da língua materna. Tema este tão polémico na Galiza, e que já ele tinha muito claro.

Debater os diferentes métodos didáticos utilizados na sua escola, os recursos empregados e os temas curriculares ensinados, nos quais era um grande adiantado. O ensino da matemática de forma lúdica, o ensino prático de todas as ciências, a importância da leitura e o uso do método preventivo na correção de condutas. Usando sempre de forma prioritária o ânimo positivo, a bondade e o amor, no lugar do castigo.

 

(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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