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O estupendo labor de uma mestra vocacional com vontade e constância no filme “Música do coração”

José Paz Rodrigues – Quando a paixão move as ações humanas, as realizações ultrapassam fronteiras e criam raízes sólidas que permitem que os resultados tenham continuidade e sucesso. Todas as histórias em que pessoas conseguem vitórias aparentemente impossíveis, superando infinidade de dificuldades, passando por cima de adversidades e provando o valor dos seus ideais e dos seus projetos só deram certo por que essas pessoas realmente acreditaram naquilo que estavam a fazer e investiram as suas vidas nesses sonhos.

Por isto, muitas das vezes querer é poder. De modo que quando queremos muito e acreditamos verdadeiramente naquilo que fazemos, literalmente, somos capazes de “mover montanhas”. Até mesmo os céticos têm que concordar. E Tagore entendia-o poeticamente dizendo que “não se pode ensinar mais que o que se ama e do que bem se goste”. É este o caso da professora de música, virtuosa do violino, Roberta Guaspari, interpretada magistralmente pola atriz Meryl Steep no filme “Música do coração”. A que, igual que outros profissionais e pessoas de ação, em outros momentos e lugares, sempre confiou no que estava fazendo mudando a história de vida de muitos seres humanos com os quais convivera. Neste caso com crianças dos bairros marginais de Harlem em Nova Iorque.

A protagonista desta formosa história é uma mestra autêntica com grandes qualidades humanas, psicológicas e didáticas. Em primeiro lugar, tem grande vocação pedagógica, do qual hoje mais necessitamos nos nossos docentes. Em segundo lugar, tem força de vontade, tem constância e não se rende nem se derruba polas circunstâncias adversas, embora sejam estas muito duras. Por último, tem valores humanos, ama o seu trabalho, que também domina e conhece, e gosta do que faz, superando mesmo os seus graves problemas familiares. Tudo isto leva-a, com o passar do tempo e com o seu esforço, a conseguir o que pretende, ao ter ademais muito claras as metas educativas que se propôs desde o primeiro momento e início do seu estupendo labor escolar. Ensinando a tocar violino a crianças que num primeiro instante pareceria impossível que chegassem a aprender de tal forma a arte do seu domínio musical.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: “Music of the Heart” (Música do coração)

Diretor: Wes Craven (USA, 1999, 124 min., A cores)

Intérpretes: Meryl Streep (Roberta Guaspari), Aidan Quinn (Brian), Ángela Basset (Janet), Gloria Estefan (Isabel) e outros, entre eles nenos e nenas do Harlem nova-iorquino.

Argumento: Conta a história verdadeira de Roberta Guaspari (Meryl Streep, indicada ao Óscar de Melhor Atriz), uma professora de violino que, após a separação do marido, parte na procura de algo que reconstrua a sua vida. Numa história comovente, esta mãe de dous filhos, abandonada polo companheiro, começa a tocar um projeto de aulas musicais para sustentar os dous filhos pequenos. Ótima violinista, Roberta descobre a solução dos seus problemas (ou o início deles) ao conseguir um emprego para ensinar músicas para crianças carentes do Harlem espanhol, em Nova Iorque. Após 10 anos de trabalho com grupos pertencentes a uma das áreas mais pobres da cidade, o projeto é cortado polo governo, cujo trabalho beneficiou centenas de crianças. É a partir daí que começa a segunda parte da história. Numa busca frenética e esforçada o grupo que apoia o projeto tenta, de todas as formas, mantê-lo mesmo sem as ajudas do governo. Com esforços cheios de ideias e contactos com grupos da imprensa, um concerto é organizado no Carnegie Hall com a participação não apenas das crianças, mas de nomes como Isaac Stern (numa ponta, como ele próprio). Com grande sucesso, o concerto garante o futuro do projeto.

 

 

Análise do Filme:

Num desses fortuitos lances do destino a mestra protagonista acaba reencontrando um ex-colega da escola que se tornou escritor, Brian Sinclair (Aidan Quinn). Ele se dispõe a ajudar a amiga a encontrar um emprego melhor, dentro de suas qualificações, já que ela é uma talentosa professora de violino. A oportunidade em questão surge em Nova Iorque, no bairro do Harlem, numa escola cheia de problemas onde as pessoas não parecem muito dispostas a investir em aulas de música, muito menos em aulas de um instrumento tão diferenciado quanto o violino.

Amparada pola sua grande vontade de abraçar a oportunidade e contando com o apoio de seus dous filhos (que aprenderam a tocar violino com a mãe), Roberta consegue convencer a diretora da escola, Janet Williams (Angela Basset) a lhe dar uma oportunidade. Desse início nada promissor, numa escola pouco propícia e com uma enorme resistência dos pais, surge um projeto verdadeiramente redentor para a comunidade. Os violinos de Roberta se tornam um verdadeiro sucesso e um autêntico furor entre os alunos da escola.

O que, a princípio, era visto como elitista e “cousa de branco”, ganha espaço nos jornais da cidade e passa a ter suas vagas disputadas em sorteios polos alunos. Entretanto, nem tudo são rosas e, apesar do sucesso, Roberta ainda terá algumas decepções e espinhos ao longo do seu caminho antes de fazer com que a sua orquestra de violinistas continue e permita a muitas crianças descobrir a “Música do Coração”... Tudo se resume em que amamos aquilo que fazemos e queremos sempre fazer melhor.

 

 

Aspetos para refletir:

1- As escolas deveriam esforçar-se para que as aulas de arte e música se tornassem uma realidade nas escolas do nosso país. Há muitas crianças que têm um enorme potencial e poderiam ajudar a promover a cultura nacional com os seus talentos se tivessem apoio nas escolas. Como a criação de charangas, concursos de música e a organização de bandas e rondalhas.

2 – Os docentes devem desafiar os problemas e enfrentar o pessimismo, investindo em novos projetos. Têm que acreditar no seu potencial. Pescudar e tornar a escola muito melhor. Jamais desistir se têm nas suas mentes projetos em que realmente acreditem. Criar novos esquemas de aulas, utilizando os recursos que a tecnologia disponibiliza.

3 – Devem criar (com os alunos) uma agenda cultural a colocar no local polo qual passem todos os alunos da escola. Divulgar shows musicais, peças teatrais, os filmes em cartaz nos cinemas ou os novos lançamentos em livros, vídeos, CDs e DVDs. Estimular seus alunos a gostar e praticar a arte. A repercussão de todo esse movimento será favorável a eles, aos próprios mestres, à comunidade e também às suas aulas.

4 – Podem apresentar o filme “Música do Coração” para os seus alunos e fazer um inventário de projetos e sonhos. Perguntar aos estudantes o que eles gostariam de fazer, como isso poderia ser feito, que apoios seriam necessários. Unir forças e tentar sair do papel e realizar alguns desses projetos. Conseguir que dos debates e reflexões surjam estudantes estimulados, sonhadores e realizadores. Sonhar é preciso. Realizar é fundamental.

 

 

(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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