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O ensino globalizado e os centros de interesse, no filme “O método Decroly”

José Paz Rodrigues (*) – Dediquei vários artigos da série a grandes pedagogos do mundo, e ainda ficam mais. Não podia esquecer-me do belga Ovídio Decroly (1871-1932). Quem, em 1907, na cidade de Bruxelas, criou a escola nova chamada “École de l´Ermitage”. A que lhe pôs a interessante legenda de “escola para a vida e pela vida”.

Além de pedagogo, Decroly foi médico e psicólogo, especializado em neurologia e em psicologia genética. Em tanto que psicólogo, cultivou a observação meticulosa e, para fazer mais científico o método observacional, recorreu à plasmação fílmica das condutas das crianças. As suas observações estão plasmadas numa série cinematográfica de documentários, dos quais se conservam os intitulados: “Etapas do desenvolvimento mental da criança”, “Reações dos meninos prematuros”, “Reações dos meninos subnormais”, “Evolução da coordenação dos movimentos corporais na posição de pé e de traslado”, “Evolução da imitação na criança desde 0 a 6 anos”, “Evolução da reação espacial do menino” e “Reações sociais das crianças”.

Entre os muitos dos seus trabalhos pedagógicos e das suas facetas didáticas, quero destacar a sua conceção de variados e importantes jogos didáticos para as crianças e, especialmente, a posta em prática na sua escola nova do que denominou “Centros de Interesse”, baseados no princípio psicológico da globalização, caraterístico das crianças até os seus onze anos de idade.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título: “O método Decroly”, filme sob o qual se acolhem 2 documentários intitulados “Pour la vie, par la vie” (Para a vida e pela vida) e “Enfants hereux enfants” (Crianças alegres).

Diretor: René Van de Weerdt (Bélgica, 1946, 50 min., a preto e branco).

Intérpretes: Nenas, nenos e mestres da escola de Decroly, criada em Bruxelas em 1907.

Argumento: Magistral filme que recolhe de forma direta nas aulas da escola de Decroly, pedagogo da Escola Nova, os métodos e técnicas didáticas de ensino utilizados, as atividades das crianças, a forma de levar a escola à vida e a vida à escola, as atividades criativas e lúdicas, as saídas ao campo e à cidade, a educação física, artística e musical, os trabalhos manuais, etc. O maior tempo fílmico refere-se à escola infantil, mas também se podem ver as atividades nas aulas de primária e dos alunos/as de maior idade e a sua maneira de colaborar com os mestres na educação das crianças mais pequenas. O filme é um documento histórico único que nos ensina, de maneira intuitiva, a didática utilizada na escola do pedagogo belga, um dos mais importantes do movimento pedagógico europeu da Escola Nova.

Nota: Existem outros dous interessantes documentários belgas sobre a pedagogia de Decroly: “École Decroly – L´Ermitage” (1937, 25 min.) e “Le jardim d´enfants à l´école Decroly” (1940, 21 min.), este último realizado por Valérie Decordes e Suzanne Decroly.

 

A Alternativa Didática dos Centros de Interesse Decrolyanos :

A psicologia globalista de Decroly, confirmada por mais de um século de investigações, permite partir dos temas propostos pelos mesmos escolares, com a condição de que o mestre ou mestra saiba quais técnicas, noções e referências é conveniente introduzir em cada momento favorável.

Nas turmas de primária os estudantes trabalham uns centros de interesse ocasionais através das chamadas “surpresas”, quer dizer, objetos diversos que atraíram a sua curiosidade no seu ambiente familiar e social. Uma fruta, um animal doméstico, podem ser objetos de observação que por meio de um exame sensorial vão proporcionar dados concretos. Na escola estes objetos são examinados sensorialmente. Em primeiro lugar trabalha-se a observação. Com os olhos fechados ou vendados aprofunda-se nas suas qualidades: apalpam-se, pesam-se, cheiram-se e, se for possível, saboreiam-se. A seguir olham-se. Às vezes parte-se de objetos embrulhados para passar depois a um exame atento dos mesmos ao descoberto.

Tem-se sempre presente que as melhores observações são aquelas que partem de uma intervenção plurissensorial, daí a estratégia de não centrar-se unicamente na vista, que é o órgão mais utilizado diariamente. Com a observação baseada na perceção e a sensação, os estudantes adquirem o reconhecimento das qualidades sensoriais dos objetos e introduzem-se progressivamente, com o cálculo e a medida, nas noções de peso, comprimento, capacidade e volume, o que é a avaliação quantitativa. As unidades de superfície utilizadas pelos mais pequenos podem ser, segundo eles queiram, a mão, o braço, a envergadura do corpo, o comprimento duma carteira, etc.

A representação das medidas sobre um papel há dar passo a outro tipo de medida mais simbólica e, pouco a pouco, passará-se a usar outras abstratas e universais. Por meio da associação realizam-se depois exercícios de comparação, segundo uns critérios previamente estabelecidos, diferenças, semelhanças, o tempo, o espaço, etc. Isto há levar a desenvolver múltiplas operações: ordenar, seriar, comparar, tipificar, abstrair ou generalizar. A observação e a associação estão intimamente ligadas com a expressão concreta e a abstrata. Na verbal enriquece-se o vocabulário dos estudantes e aprendem a utilizar a terminologia científica.

O desenho de observação do objeto estudado, apoia a análise que, pouco a pouco, conjuga-se com o trabalho manual e a linguagem escrita. A expressão oral e escrita vinculada à observação e à associação induzem o aluno ao rigor, precisão e exatidão. Mas, há que cultivar todas as expressões: verbal, plástica, corporal, teatral, icônica, numérica, musical, dinâmica e complexa. Decroly, tendo em conta o interesse dos escolares, formulava os seguintes temas centrais para trabalhar na aula: alimentação, proteção, defesa e produção. Daí devem sair o que mais adiante no tempo foram as denominadas Unidades Didáticas Globalizadas. Que Decroly chamava “Centros de Interesse”.

 

Escola Decroly antiga

 

Temas para Refletir e Trabalhar:

– Da muita literatura que existe sobre o método Decroly, incluída a da Internet, analisar e sintetizar a mesma.

– Visionar e comentar o filme, com a técnica do foro.

– Elaborar uma lista de centros de interesse ou unidades didáticas globalizadas, e procurar trabalhar com elas nas aulas dos nossos estabelecimentos de ensino. Os temas que mais se adaptam são os das festas populares: maios, entrudo, magustos, Natal, etc.

 

Escola Decroly atual

 

(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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