Por Adela Figueroa Panisse
Hoje senti, pela primeira vez neste ano, o suave cheirinho das flores das tílias. Hoje começa o verão para mim, na minha vila. Os meus sentidos acordam banhados em sol de luz e imensas cores. Voltam então as saudades em lembranças doces como o recendo das tílias, adubadas com um petisco de amargo como o perfume das amêndoas, a alagar a minha alma ainda sonhadora.
Bandos de moças e moços passeiam, já em férias, fazendo barulho sob as copas talhadas das tílias da avenida que vai ao Parque. Semelham aves de passagem com o seu pio-pio-pio, blá-blá-blá. Todas e todos a falarem ao uníssono, empurradas pelo inconsciente conhecimento de que o tempo e o espaço lhes pertencem. Nada existe fora de si, caminham cheios da razão que proporciona não conhecer mais razão que a do próprio bando que faz parte da tribo das e dos “teen-agers”.
Com despejo e desenvoltura andam pelas ruas de todas as cidades, neste tempo de estreia do verão, fabricando rotundos comentários acerca de não importa que transcendente causa ou cousa. Entretanto as tílias deitam seu aroma doce e macio que alcança as minhas narinas sensibilizadas de tantos anos a desejar senti-lo. Por sinal o recendo a verão que as árvores me produzem. Como esses jovens que crêem que o tempo está parado para eles, também eu outrora, em meio de alguma banda de contemporâneas, passeei sob as tílias caminho do parque, nas longas tardes dos meses de julho ou agosto de Lugo. A rir e falar alto, de temas tremendamente transcendentes. Tanto como as que hoje constituem as conversas das bandas destas crias de humanos que andam dum lado para o outro nas vilas do mundo. Pode ser que, nem todas, tivessem o privilégio de sentir o recendo das flores da tília no abrir do verão. Pode ser que muitas o pudessem ter se abrissem os seus sentidos ao mundo que as envolve, sem temor ao ridículo que a mostra de debilidade poderia ter perante o resto da tribo.
As tílias continuam a expelir o seu aroma, as adolescentes a passear entre o seu próprio barulho, enquanto o IVA cresce afogando as famílias em suas economias, a borbulha imobiliária estoura numa imparável reação em cadeia que atinge toda a sociedade, ou entanto continuam a explodir bombas no Afeganistão. E a corrente cálida do Golfo do México começa o seu inevitável afastamento das costas europeias como consequência da irresponsável gestão dos recursos ambientais do Planeta a caminho duma mudança climática imprevisível que alaga cidades que nunca antes tinham sido alagadas. E a natureza ri às gargalhadas, dos seres humanos que a pretendem ignorar.
O recendo das tílias continuará verão após verão e os adolescentes voltarão a caminhar sob as árvores ainda mais outro ano. E eu, na minha vila, espero também continuar a sentir o perfume das plantas e os sons do verão por mais algum tempo.
