José Paz Rodrigues (*) – Recentes estudos e relatórios incidem no grave problema da marginação das mulheres em muitos locais do Planeta, começando pelas meninas. Meninas e mulheres levam uma vida difícil em muitos países. A frequência de meninas nas escolas é mais rara que a dos meninos, sem contar que elas geralmente são vítimas de violência. Muitas vezes, meninas e mulheres não têm nem a liberdade de tomar decisões em suas próprias vidas.
Por este motivo, é muito importante apoiar objetivamente meninas e mulheres. A igualdade de direitos de meninas e mulheres exerce um papel fundamental no combate à pobreza. As mulheres carregam o pesado fardo da pobreza. Algumas pesquisas revelam que no mundo inteiro 70% dos pobres são mulheres; que mais da metade das horas trabalhadas em todo o mundo é de mulheres e que os géneros alimentícios são produzidos por mulheres nos países do hemisfério sul. Meninas e mulheres trabalham com frequência em setores domésticos ou sem segurança trabalhista na economia informal, os chamados setores informais. Elas não possuem nenhuma forma legal de contratação, trabalhando, desta forma, sem direito a aposentadoria e seguro de saúde.
O ensino escolar fortalece as meninas. No mundo inteiro 76% dos meninos frequentam escolas de ensino fundamental, das meninas apenas 72%. No sul da África, apenas cerca de 20% das meninas são matriculadas na primeira série do ensino básico. Dados estatísticos mostram que dous terços da evasão escolar no mundo inteiro é de meninas. Sem o ensino fundamental elas não têm hipótese de frequentar um curso profissional. Geralmente, elas casam-se cedo e logo têm filhos. Devido à falta de instrução acaba faltando a estas mulheres pressupostos importantes para a tomada de decisões em suas próprias vidas. A mortalidade infantil diminui em famílias onde as mães frequentaram escolas por mais tempo.
Mulheres instruídas e informadas casam mais tarde, têm menos filhos e mais possibilidades de prover o sustento dos mesmos. Meninas e mulheres são vítimas de violência em muitos setores da vida. Mais de 20% das meninas sofrem violência e maus tratos na família. Em atividades sem vínculo empregatício, como por exemplo de empregada doméstica, ocorre o abuso sexual. Mais de dous milhões de meninas menores de idade são exploradas pela prostituição ou pela pornografia. Diariamente, cerca de 6.000 meninas são “circuncidadas” – clitoridectomizadas – de forma cruel; as genitálias são cortadas e mutiladas segundo tradições culturais.
O filme que desta vez escolhi apresenta o direito que as meninas têm a receber educação e poder assistir à escola. Um gravíssimo problema que hoje em dia não está resolvido em muitos países da Ásia, África (nomeadamente os de religião muçulmana) e América Latina. Entre os que destacam o Bangladesh, Paquistão, Irão, Nigéria, Moçambique, Afeganistão, Nepal, Peru e, em menor medida, num dos países emergentes como é a Índia. Muitas das mulheres destes continentes e países terminam por serem analfabetas, com tudo o que isso implica de negativo para a sociedade e para elas mesmas. O filme foi realizado em 2003 pela diretora iraniana Samira Makhmalbaf, com o título de “Às cinco da tarde”, em lembrança do famoso poema de Garcia Lorca. A realizadora reclama desde este interessante filme o direito que toda mulher tem a educar-se.
Ficha técnica do filme:
Título original: Panj é asr (Às Cinco da Tarde).
Diretora: Samira Makhmalbaf (Irão-França, 2003,106 min, Cor).
Roteiro: Samira Makhmalbaf, baseado no romance de Mohsen Makhmalbaf.
Fotografia: Ebrahim Ghafori e Samira Makhmalbaf. Música: Mohammad Reza Darvishi.
Montagem: Mohsen Makhmalbaf. Produção: Bac Films, Makhmalbaf Productions, Wild Bunch.
Atores: Agheleh Rezaie (Nogreh), Abdolgani Yousefrazi (pai), Razi Mohebi (o poeta), Marzieh Amiri (Leylomah, a cunhada).
Prémio: Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2003, e do Júri Ecuménico no mesmo certame.
Argumento: Depois da queda do regime talibã no Afeganistão reabriram-se as escolas para as mulheres. Uma delas, Nogreh, é uma jovem que vive no Cabul pós-bélico. Tem que ocultar-lhe a seu pai que assiste à escola, lugar onde há manifestar o seu sonho de ser presidente do país. O filme inicia-se com a odisseia quotidiana de Nogreh, jovem que alterna a diária busca de água e alimentos com a assistência oculta a uma escola laica, com o transfundo de vários aspetos ligados às problemáticas de Médio Oriente (o machismo, o fundamentalismo, a extrema pobreza, a censura). Filha de um fanático que lamenta a perda de valores na sociedade pós-talibã (desloca a sua precária vivenda para evitar ouvir música), Nogreh deseja uma mudança que não só permita a democracia senão que possibilite a igualdade entre sexos e, inclusive, a oportunidade de que uma mulher alcance a presidência do país. Mas Nogreh, e todas as mulheres do Afeganistão, têm grandes dificuldades.
Antes e depois do parêntese escolar, Nogreh, sonhando acordada num Cabul diretamente emparentado com o Berlim de “Germannia, anno zero”, ajuda os numerosos refugiados que regressam do Paquistão à espera de melhores oportunidades e que chocam novamente com a miserável realidade. Será um deles, o “poeta”, cujos irmãos foram simbolicamente assassinados pelas diversas potências na liça, quem, admirador da sua força e da sua veemência, iniciará amizade com ela e a acompanhará no seu desejo utópico de preparar-se para a presidência. Há ser este mesmo poeta o que fará explícita referência, embora não saiba de que trata, ao “Llanto por la muerte de Sánchez Mejías” e, especificamente, aos versos que citam a nefasta hora das cinco da tarde, momento da morte do toureiro e instante em que Nogreh deve diariamente enfrentar-se à crua realidade da luita pela sobrevivência.
Mas a vida é implacável, especialmente no Afeganistão. Não há espaço para os sonhos nem para as esperanças. Ocultando a morte do filho às mulheres, incapaz de enfrentar-se à nova realidade e às (escassas) mudanças sociais, o pai arrastrará a fraturada família numa fugida para Kandahar, uma fuga cara nenhuma parte. Arrastrando mais atrás de si que junto a eles o cavalo e o carro com as suas últimas possessões, o quarteto avança pelo deserto. As mulheres hão seguir buscando sustento, “sob o sol das cinco da tarde”, numa atmosfera de morte.
A marginação da mulher nas sociedades fundamentalistas:
A protagonista do presente filme luita contra tudo, contra todos, tem uma grande vontade de estudar e melhorar. É o símbolo que dá algum alento, alguma esperança, em meio a tanta miséria, tanta desolação. No miserável, devastado Afeganistão, aquela jovem mulher, quer estudar. Quer estar preparada para ser um dia presidente da República. Aprende com um jovem que se encanta por ela a recitar Federico García Lorca. Uma frase dita numa entrevista por Samira Makhmalbaf, a diretora da fita, deixa mais claro ainda o alento, a esperança: “Depois que viram meu primeiro filme, muitas pessoas me perguntaram sobre o Irão. Elas queriam saber se o Irão é mesmo um país onde moças de 13 anos de idade podem ser presas durante 11 anos, e uma moça de 18 anos de idade podia apresentar o seu primeiro filme em Cannes. Eu acho que as mulheres iranianas são como nascentes de água: quanto maior for a pressão sobre elas, mais força elas vão mostrar quando se libertarem”.
A realidade que se apresenta no filme, neste caso, é a pior possível. O país é uma ruína só. Diariamente chegam a Cabul camiões abarrotados de gente sem lugar para ficar, vinda de outras cidades, e países, onde também já não era possível viver. Famílias despedaçadas pela morte dos seus homens, na guerra, pela morte das suas crianças, de fame. Manadas que buscam apenas sobreviver. É difícil acreditar que aquele cenário poeirento, em que mal se veem as ruas, é a capital do país. O contexto está dado: ruínas. Estruturais e humanas. Aí entra a ficção. A protagonista é Nogreh, jovem que mora com o pai, um fundamentalista praticante dos preceitos (desumanos) do regime talibã, a cunhada (cujo marido, um camionista, desapareceu) e a sobrinha, ainda um bebé. Nogreh é daqueles seres de aura brilhante, que sobressaem ainda mais num ambiente desolador. Ela aproveita-se dos ventos de liberdade que voltam a soprar em Cabul para se matricular numa escola só de mulheres. Elas antes não podiam sequer mostrar o rosto, e muito menos estudar. Agora reúnem-se para falar de política, de projetos profissionais, de direitos da mulher. Nogreh sonha em ser Presidente da República. A sua grande referência é Benazir Bhutto, ex-Primeira Ministra paquistanesa. A discussão entre as jovens afegãs é acalorada: como vão respeitar uma mulher presidente quando ela engravidar? Vão todos rir da sua condição! Até ali, entre as mulheres na escola recém-reaberta, essas ideias são muito novas e enfrentam resistência.
O choque entre duas visões do mundo que não podem harmonizar-se está presente nas ruas de Cabul, nas relações sociais e até mesmo dentro das famílias. Nogreh precisa mentir ao pai, que a leva, coberta pela burca, para ir rezar. Quando ele se vai, ela tira o pesado manto, veste orgulhosa o seu sapato de salto alto, coloca os brincos, abre o seu guarda-chuva azul e caminha até a escola. Nas ruas, está habituada a ouvir sermões dos homens, que (sem olhar para ela) ordenam que coloque a burca, dizem que está em pecado, que mulheres não podem expor-se. O humor com que Nogreh e as suas amigas reagem a essas situações, o sonho de liberdade que ela alimenta, a feminilidade reflorescendo em terra arrasada, a possibilidade do amor, na figura de um poeta que se torna amigo de Nogreh e incentivador da sua “campanha presidencial”. São os elementos líricos do filme, que contrastam com a tragédia humana retratada. Como flores no deserto. Mas o tempo não é de flores, e o caminho do filme não é redentor. Elas murcham, morrem, e só sobra o deserto.
O pai de Nogreh, inconformado com a “devassidão” em que se está transformando a cidade, parte com a família à procura de outro lugar para viver. No caminho, são detidos por oficiais da ONU, agressivos e inseguros; dormem numa carcaça de avião abandonada; ocupam o esqueleto de um suntuoso palácio: não sobrou nem água, só o enorme espaço. Um dia, saindo das ruínas do palácio, Nogreh se depara com um soldado da ONU. Curiosa, puxa assunto em inglês sofrível. Ele é francês. Ela quer saber o nome de seu presidente. “Mr. Chirac”, ele responde. “E o que ele diz, para ser amado pelo povo?”. “Não sei responder”. “Mas por que votaram nele?”, insiste ela, já com a ajuda do amigo poeta, como tradutor. “Sou soldado, não me meto em política”. “Por que você está aqui?”, quer saber ainda Nogreh. Depois de hesitar, ele responde: “Por vocês”. Não. Na verdade, a ONU não sabe o que faz ali. Aviões sobrevoam o país, inutilmente. Sem conseguir comunicar-se com as mulheres que o acompanham, o pai de Nogreh tem como único confidente o seu cavalo. Rumo ao coração do Afeganistão, só o que se encontra é morte. Não são tempos para uma mulher sonhar com a presidência. De salto alto, Nogreh caminha com cuidado, para evitar as minas.
Estamos perante uma sociedade com uma religião que exige que os encantos da mulher sejam escondidos. Os protagonistas moram no que parece ser a periferia de Cabul, a capital. Quando a ação começa, o pai está levando Nogreh, numa pequena carroça, até um lugar mais movimentado, onde ela vai participar de um grupo de rezas. Vemos dezenas de mulheres com o corpo inteiramente coberto recitando cânticos religiosos, como os que Nogreh já vinha recitando no caminho, lendo de um grande livro. As palavras são apavorantes: “Instrua a todos os homens devotos que fechem os seus olhos diante de mulheres, e que controlem a sua luxúria.” “Pois é mais decoroso, e Deus sabe de tudo que fazemos.” “E que as mulheres se abstenham de dançar. Que os seus encantos permaneçam escondidos.”
Uma mulher estudar é um crime, um pecado. Nogreh fica pouco tempo participando dos cânticos desse grupo de mulheres religiosas. Levanta-se, caminha por algumas ruas, entra num prédio, tira o véu que cobria o seu rosto. O espectador vê o rosto da moça pela primeira vez. Ela dá um sorriso, ainda que tímido – e aí a câmara faz um plano de detalhe dos pés. Nogreh tira os mocassins pretos e calça sapatos brancos de salto alto. Não altíssimo, agulhinha, mas alto. Sapatos brancos de salto alto! Vai cometer aquilo que para muitos afegãos é um crime, um pecado: vai juntar-se a um grupo de mulheres numa escola. Nogreh mente para o pai que participa de um grupo religioso, para poder ir à escola. Na escola, a professora está dizendo que é a educação que vai preparar as mulheres afegãs para ter papel importante na sociedade. A professora pergunta quem ali quer ser médica, engenheira. Quem ali quer ser, um dia, presidente do Afeganistão. Nogreh é uma das poucas que se levanta diante dessa pergunta. Junto com ela, levanta-se uma moça de óculos, bem falante, extremamente articulada. Há um debate: alguém fala da necessidade de a mulher ficar em casa, cuidando do marido e dos filhos. A jovem articulada discute, argumenta com brilho.
O pai de Nogreh é um fundamentalista que enxerga blasfémia em tudo. Jamais permitiria que a filha deixasse de usar o véu. Estudar, então, nem pensar. Praticamente não conversa com a filha e com a nora. Para elas, ele dá ordens: pegue nisso, faça aquilo. Conversar, ele conversa com o seu cavalo, o seu bem material mais caro e importante. Ao longo do filme, ele lançará para o seu cavalo a sua indignação diante da realidade que está vendo: “A blasfémia está em toda a parte.” “Veja as mulheres sem véu.” “A blasfémia está em toda a parte.” “A blasfémia reina em Cabul. Como se Deus tivesse morrido, Deus me perdoe!”.
Bem para o fim da narrativa, haverá uma conversa do pai com um desconhecido que eles encontram em uma das suas viagens, pois o pai está sempre querendo mudar-se para outro lugar, para longe de onde a blasfémia impera, em busca de uma cidade que seja genuinamente muçulmana. Nessa conversa, vai-se falar de Osama Bin Laden. O pai pergunta ao velho desconhecido por que ele quer encontrar a estrada para Kandahar, e o velho responde: “Quero ver o mulá Omar. Eles reunirão um conselho de sábios para decidir se entregam ou não Bin Laden para os americanos. Eu não entregaria um muçulmano para os infiéis americanos. Bin Laden é o nosso convidado, e é um muçulmano. Ele não pode ser morto pelos infiéis.”
No Afeganistão, a partir de 2001, um governo interino chefiado por Hamid Karzai, apoiado pelos Estados Unidos, passou a luitar contra os focos de resistência dos talibans, e a tentar desmontar a estrutura fundamentalista que eles haviam implantado no país. É essa a época mostrada no filme. É por isso que, logo no início, a professora diz que o governo está empenhado em dar educação às mulheres, cousa impensável sob o domínio talibã, e impensável também na cabeça dos que, como o pai da protagonista, seguem os preceitos fundamentalistas.
O caso da situação das mulheres na Índia é um bocadinho diferente, mas também sofrem marginação, mais acusada evidentemente em contextos muçulmanos. Um dos maiores problemas da Índia, ao meu entender, igual que acontece em países próximos ao subcontinente indiano, é a profunda marginalidade que sofrem as mulheres indianas. Já para não falar das da coletividade muçulmana, neste grande país a situação em que se encontram as mulheres é, sem dúvida alguma, o problema maior que existe. A discriminação que sofrem as mulheres indianas desde há séculos é de todos os pontos de vista injusta e imoral, em que desgraçadamente são muitas as próprias mulheres culpáveis desta situação, ao continuarem com o modelo educativo a favor da desigualdade feminina.
Na Índia o melhor que há, ademais da alegria, a natureza, os valores pacifistas e o respeito pela vida, pelas pessoas e pelas ideias filosóficas e religiosas variadas, são as crianças – todas alegres, bondosas e educadas – e, por cima de tudo, as mulheres. Que ademais de formosas (inclusive as velhas), são a alma, a vida e o sustento dum país com mais de mil e duzentos milhões de cidadãos. Nas cidades, lentamente, vão mudando um pouco as cousas. Trinta por cento estudam nas universidades, em comparação com os homens. No rural, porém, 30 % dos nenos vão à escola, e das nenas não chega a 10 %. Por isso é prioritário apoiar as escolas, que também há, que escolarizam as meninas, porque a educação da mulher é vital na Índia atual. Nas escolas de Tagore, desde 1901, pratica-se a coeducação e defende-se a igualdade.
Os livros sagrados hindus não falam em nenhum momento de que tenham que ser tratadas assim as mulheres. Que, embora muitas sejam iletradas, educam os seus filhos de maneira magistral, com amor e agarimo. Dedicando-lhes tempo, brincando e cantando com eles. E realizando-lhes as milenárias massagens aiurvédicas. Ver as mães da Índia de todas as castas, e as sem casta, o bem que tratam os filhos é um verdadeiro prazer. Porque, embora estejam injustamente marginadas, as mulheres indianas são a verdadeira vida do país, e sem elas não poderia progredir a república federal indiana. Algo similar ao que acontece na Índia, ocorre em muitos países de cultura muçulmana, como antes comentámos e como tão bem se apresenta neste filme.
A mulher e a educação:
Todas as mulheres têm direito a que se elimine toda forma de segregação social por género, e especialmente no campo educativo. Sem educação, a mulher há ser sempre dependente, da família, o esposo, os trabalhos menos qualificados, sem responsabilidades e influências sociais, privando-a de ser cidadã com voz na sua sociedade. Desde a década dos anos setenta foram-se sucedendo numerosas conferências, congressos e convenções para reivindicar o direito das mulheres à igualdade e à educação. E mesmo a famosa declaração dos objetivos a cumprir no milénio. O próprio ex-secretário da ONU, Kofi Annan, chegou a dizer aquilo tão acertado: “Não existe um instrumento de desenvolvimento mais eficaz que a potenciação da mulher”. Em Beijing, na quarta conferência mundial dedicada à mulher, aprovou-se aquele texto que diz: “A alfabetização das mulheres é um fator chave para melhorar a saúde, a alimentação e a educação na família, assim como para o empoderamento das mulheres para que participem na toma de decisões na sociedade”.
Embora existam muitos pronunciamentos, documentos e depoimentos ao longo dos anos a favor da igualdade da mulher e da sua educação, ainda é hoje o dia, em pleno século XXI, que são infinidade as mulheres e meninas que estão a sofrer uma injusta discriminação em numerosos lugares da Terra. Mesmo em Espanha, agora mesmo, vem de anunciar-se que nos dez últimos anos foram assassinadas às mãos de homens (esposos, ex-esposos, noivos, ex-noivos, etc.) mais de setecentas mulheres. Um dado macabro da violência de género que se está a sofrer desde há tempo neste país. Sobre o estado da educação da mulher no mundo, quero dar a conhecer dados muito significativos que amostram a grande discriminação que estão a sofrer as mulheres no tema da sua educação. De cada 100 nenos sem escolarizar há 115 meninas na mesma situação, e uma de cada cinco meninas não chegam a finalizar o nível de educação primária. 569 milhões de mulheres no mundo não sabem nem ler nem escrever. 86 milhões de mulheres jovens são analfabetas e 87 milhões de meninas não vão à escola. Os países de maior disparidade entre os géneros na educação primária conseguiram aumentar um pouco a percentagem de meninas matriculadas nas escolas. Embora esta disparidade continue a ser motivo de suma preocupação na Ásia meridional, na África subsaariana e na Ásia ocidental. É certo que atualmente existem evidências de progressos a favor do direito à educação das meninas no Bangladesh, Brasil, Camboja, Gâmbia, Sri Lanka e Tunes, mas a situação de desvantagem em quase todo o mundo não variou substancialmente. Na maioria das regiões em desenvolvimento, as meninas têm menos probabilidades que os nenos de terminar a escola. O caso de Serra Leoa é paradigmático: 300 mil crianças em idade escolar não estão matriculadas, das que mais de 60 % são meninas.
Temas para refletir e elaborar:
Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pela realizadora iraniana. Fazer o mesmo sobre a realidade trágica em que vivem as mulheres que aparecem no filme, as possíveis causas da sua triste situação, e a total falta de tolerância do fundamentalismo religioso que estão a sofrer. Refletir também sobre o que a comunidade internacional teria que fazer para ajudar a que no mundo se cumprissem os direitos humanos de meninas e mulheres em todos os campos, nomeadamente no educativo e no das suas liberdades, autonomia e integridade física e moral.
Procurando informação em livros especializados e também na Internet, elaborar uma monografia sobre os territórios no mundo em que as meninas e mulheres estão mais a sofrer, e nos que têm dificuldades para serem escolarizadas. Poderia também organizar-se nos estabelecimentos de ensino uma amostra ao redor do tema, incluindo na mesma fotos, mapas, textos e desenhos dos alunos, poemas, canções, livros, revistas, retalhos de imprensa, murais coletivos, autocolantes, cartazes, selos de correios, etc. Tudo para sensibilizar sobre o importante que é ajudar as meninas e mulheres que sofrem marginação. Poderiam colaborar na mesma ONG que contem com boletins, documentos e materiais sobre o particular.
Levar a cabo nos estabelecimentos de ensino um Plano de Atividades Educativas ao redor do que no filme se denuncia: a) Procurar alternativas e redigi-las, embora só possam ser teóricas, para enfrentar os problemas que aparecem no filme sobre a discriminação de meninas e mulheres em muitos lugares do mundo. b) Aproveitando alguns dos diálogos que aparecem em várias cenas do filme, levar a cabo pelos estudantes um jogo dramático ou dramatização. c) Elaborar um decálogo sobre a importância da educação da mulher em igualdade com o homem, e em todos os lugares da Terra. d) Elaborar um mural em que apareçam aquelas escolas e educadores que mais destacaram pela defesa da coeducação nos seus estabelecimentos de ensino (a Odenwald de Paul Geheeb, a ILE de Giner e Cossío, a Santiniketon de Tagore, as Escolas Novas europeias, etc.).
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.





