José Paz Rodrigues (*) – No dia 20 de novembro é o dia internacional dos “Direitos das Crianças”. Entre os quais se encontram os artigos 28 e 29 da declaração, que explicitam o direito que todas as crianças do mundo têm a receber educação. E que a escola deve ser obrigatória e gratuita para todos.
Tal educação deve estar focada em conseguir o desenvolvimento das capacidades dos rapazes e a sua formação para a paz, a amizade, a igualdade e o respeito polo meio natural. Infelizmente ainda existem muitos países em que hoje em dia não se têm alcançado estes direitos tão importantes para as suas crianças. Para pôr alguns exemplos, temos os casos das crianças da África subsaariana, de Bangladesh, das meninas indianas (neste caso é muito recente a lei pola qual se faz obrigatória a escolarização de todas), ou o que acontece em países atualmente em guerra como o Afeganistão, o Iraque e a marginação do povo curdo desde há décadas. Problema que se manifesta no filme que a propósito escolhi para o comentário de hoje da série “As Aulas no Cinema”. E para celebrar o dia e a declaração universal acima citada. Este filme foi projetado não há muito no Festival Internacional de Cinema de Ourense.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Takhté Siah (O Quadro Negro / La Pizarra)
Diretora: Samira Makhmalbaf (Irão, 2000, 85 min., a cores)
Fotografia: Ebrahim Ghafouri. Música: Mohammad Reza Darvishi.
Intérpretes: Saeid Mohammadi, Bahman Ghobadi, Behnaz Jaffari, Mohammad Karim Rahmati, Rafat Morad, Mayas rostami e Saman Akbari.
Prémio do Júri do Festival de Cinema de Cannes (2000)
Argumento: O filme conta o périplo dum grupo de mestres que, depois do bombardeio no Curdistão iraniano, vagueiam de uma aldeia para outra polas montanhas curdas com um grande quadro negro aos ombros, à procura de estudantes a que ensinar. No seu caminho encontram gentes de idades e formas de vida variadas num esforço para ajudar a partilhar os seus conhecimentos com qualquer pessoa que esteja disposta a aprender.
Análise do Filme:
Neste filme observa-se uma situação a partir de dous pontos de vista diferentes. Por uma parte, a alfabetização, pola que os mestres se ganham a vida ensinando a quem queira aprender e, pola outra, os quadros negros que servem para escrever neles palavras e frases em escolas itinerantes de mestres ambulantes ou itinerantes, em aulas ao ar livre e a pleno sol, e também servem para fazer muletas e mesmo para se resguardar da chuva das balas disparadas polas metralhadoras.
O quadro negro é, portanto, um grande símbolo e também uma metáfora da situação limite dum país assolado, onde uma das poucas esperanças é que as cousas mudem através da educação, com um transfundo de guerra e violência, um retrato de gentes cultural e economicamente deserdadas, vítimas da ignomínia representada por ditadores que exterminam qualquer vestígio de humanidade e manipulam consciências e crenças.
Os mestres vão à procura de alunos, ou isso esperam encontrar. Com o tabuleiro ou quadro às suas costas, caminham por despenhadeiros à procura dos seus alunos em pequenas casas e casinholas. Um mestre berra: quem quer aprender? Ninguém responde, ninguém parece encontrar-se ali. A alfabetização vai depois da fome. As crianças desse lado do mundo não vão à escola, porque não há escolas. E as meninas… onde estão as meninas? Com o quadro ou grande lousa às costas outro mestre repete o abecedário aos rapazes contrabandistas destas fronteiras de rochas inférteis.
Os rapazes são as cargas, as mulas efetivas da fronteira; carregam nas costas o sustento das suas famílias. E estão expostos a tudo, mesmo a perderem a vida. “Com os meus filmes – assinala a diretora – quero apanhar a realidade do momento, sublimando sempre o que é um mero retrato documental com o lirismo e a interiorização do sentimento. O quadro negro é algo mais que o seguimento pontual duns mestres numa situação concreta: são pinceladas de histórias de amor, de momentos oníricos, cómicos”.
O filme desenvolve-se no Curdistão iraniano, perto da fronteira com o Iraque, com belas imagens da sua paisagem agreste. A guerra mantém-se sempre num segundo plano, mas está omnipresente no ruído constante das metralhadoras. Em tal contexto mesmo há alguma história de amor e percebe-se o grave problema das pessoas que têm de escapar dos bombardeios e as relações humanas que entre eles se estabelecem.
Temas para refletir:
Em Ocidente queixamo-nos sem razão. Temos de tudo e não valorizamos nada. Não sabemos desfrutar do que temos, como verdadeiros seres privilegiados. Ao mesmo tempo esquecemo-nos facilmente do que sofrem outros noutros lugares da Terra.
Debater o importante que é a educação. O importante que é que todas as crianças – meninos e, sobretudo, meninas – tenham um posto escolar de qualidade. Que além disso é um direito contemplado na Declaração aprovada pola ONU no ano 1989.
Comentar o papel docente que desenvolvem os mestres do filme carregando inclusive com os quadros (lousas) às suas costas. A vocação deles é tanta que vão à procura de alunos em lugares inóspitos. Entre rochas e montanhas. Comparar estos docentes com os das nossas atuais escolas.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

