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O Dia da “Hispanidade”: o Descobrimento da sua Riqueza

Jorge M. de la Calle – No passado Dia da Festa Nacional, das Forças Armadas, do Pilar e da Hispanidade, da Unidade de Espanha, do Espírito Nacional e Hispano e tantas cousas que os políticos, Rajoy e companhia, pretendiam invocar com chamadas à Pátria e à identidade nacional.

Nom viria mal lembrar as palavras do sábio escritor e inteletual uruguaio Eduardo Galeano sobre como se ganhou esse território que disque descobrimos os hispanos e se dá em chamar América Latina. “A divisom internacional do trabalho consiste em que uns países se especializam em ganhar e outros em perder. A nossa comarca do mundo, que hoje chamamos América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançárom através do mar e lhe afundírom os dentes na gorja (…). Este já nom é o reino das maravilhas onde a realidade derrotava a fábula e a imaginaçom era humilhada polos troféus da conquista, os jazigos de ouro e as montanhas de prata. Mas a regiom continua a trabalhar de criada. Continua a existir ao serviço das necessidades alheias, como fonte e reserva do petróleo e o ferro, o cobre e a carne, as fruitas e o café, as matérias-primas e os alimentos com destino aos países ricos que ganham consumindo-os, muito mais do que América Latina ganha produzindo-os. Som muito mais altos os impostos que cobram os compradores que os preços que recebem os vendedores”.

Efetivamente, o que agora celebramos, ou celebram alguns, como um descobrimento próprio e a conformaçom dumha identidade ultramarina, nom é mais que a conquista a sangue e lume do alheio, do estranho, do que nom é nosso e, no entanto, nos apropriamos; e a deturpaçom, ocultamento e devastaçom das identidades indígenas, até a invençom dumha falácia histórica com que dar de comer à mente alienada das geraçons posteriores. A tam cacarejada imposiçom dumha língua nom é mais que a do castelhano, transfigurado em espanhol com o nascimento dos Estados nacionais, de umha ponta à outra do continente americano, e mais além.

E a causa desta imposiçom nom é mais que económica, político-militar e imperialista. Enriquecer-se com as matérias-primas e a mao de obra dos povos dominados a todo o custo e a expensas do empobrecimento material, social e moral destes, a todos os níveis. Algo mui parecido a dessangrar um corpo e aproveitar-se do cadáver saecula saeculorum, mesmo quando já nom se lhe tem que sacar, todos os seus azos já baldeirados. “É a América Latina, a regiom das veias abertas. Desde o descobrimento até os nossos dias, todo se transmutou sempre em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos longínquos centros de poder.”

A nossa riqueza baseia-se na sua pobreza; se nós somos tam ricos agora (como civilizaçom, já nom falo do reparto extremamente desigual e injusto desses benefícios entre cidadáns e classes sociais intramuros) é porque antes e agora os saqueamos, e eles, como os seus irmaos de África e Ásia, sustenhem, com o seu subdesenvolvimento imposto por nós, o super-desenvolvimento da Europa, América do Norte e as demais regions denominadas “desenvolvidas” (Israel, Japom…). Como di Mafalda na sua célebre vinheta, interrogando um impassível globo terráqueo: “Que figérom alguns Sules para aturar certos Nortes???”

Di Galeano em As veias abertas da América Latina: “Para quem concebe a história como umha competência, o atraso e a miséria de América Latina nom som outra cousa que o resultado do seu fracasso. Perdemos; outros ganhárom. Mas acontece que quem ganhou, ganhou graças a que nós perdemos: a história do subdesenvolvimento de América Latina integra, como se dixo, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. A nossa derrota estivo sempre implícita na vitória alheia; a nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade doutros: os impérios e os seus capatazes nativos”.

Por isso, o que se festeja hoje em dia nom é umha história de uniom, mas de desagregaçom; nem de paz e concórdia, mas de guerra e incompreensom, assovalhamento e uniformizaçom, com um móbil económico em primeiro termo. A “rojigualda” semelha umha bandeira de sangue e lume, ou pior, bílis, com que se exaltam os milhons de mortos desde aquele trágico 12 de outubro de 1492 em que a Europa alviscou pola primeira vez a Terra virgem das infâmias do Home ocidental, porque dizer Ser Humano seria muito: com toda a sua carga de patriarcalismo, imperialismo e fundamentalismo religioso, étnico e cultural, todo pola causa do Império Cristao. A sua pobreza serve à nossa grandeza, a da Pátria Hispana que, ainda hoje, nos tentam insuflar via mass media todos os dias os guardiáns ideológicos do Império. E por isso, este dia nos povos latino-americanos celebra-se como o Dia da Resistência Indígena, algo muito mais acaído à Realidade e à História. E eu engadiria que haveria de chamar-se o Dia do Saqueio, ou do Descobrimento. Mas da sua Riqueza. E da nossa Miséria.

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