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O Cristianismo e o Judaísmo

Alexandre Anhel Cuquejo – Há uns dous mil anos, uma pessoa chamada Jesus, andava lá por terras de Judá, da Samaria, da Galileia e algumas outras dos arredores. Era uma pessoa de religião judaica, nascida numa família religiosa judaica, e que sempre na sua vida cumpriu os preceitos da lei mosaica.

Ele pegou no judaísmo, e predicou o judaísmo. Quem ler, por exemplo, os quatro evangelhos canónicos, e também se passa isso com a leitura dos evangelhos e livros apócrifos, não achará nada neles que se poda entender que é contrário a Lei de Moisés, nem nada que em algum momento lhe tire a sua plena condição de ser a religião certa, entendendo o de certa, do ponto de vista dum judaico.

Ele foi predicando um jeito de se ser e viver a lei mosaica, sempre bem alicerçado na lei de Moisés, mais abrangente que a prática comum do que era comum para os judeus, embora isso tivesse e teve muita variação em distintos momentos históricos.

A história do judaísmo, está cheia de propostas de se fazer leituras diferentes e variadas da tradição mosaica – que está na Bíblia (antigo testamento), e de jeito mais restrito nos livros bíblicos que constituem a Torá com o conseguinte nascimento de “igrejas” diversas judaicas. A diversidade sempre foi uma marca clara de vitalidade. Inclusive houve muitas igrejas judaicas de prática judaica em diversas alturas históricas, a integrarem e converterem a essa religião pessoas gentis, quer dizer, não filhos de mãe judaica.

Assassinado Jesus, os seus discípulos – todos judeus –, deduziram da sua prédica muito além do que ele próprio manifestara, pois poderiam com base na sua doutrina conceberem o judaísmo anovado que predicava Jesus, restrito aos judeus de nação. De facto, isso não estava nada claro entre eles, pois deram-se acirradas discussões, para determinar o seu agir nesse e noutros campos, e para determinar qual era o caminho mais certinho para esse anovado judaísmo.

Essa renovado judaísmo, desde logo foi denominada popularmente como o de Cristo, e os discípulos, cristãos.

A palavra cristo é uma adaptação grega da palavra hebreia que significa messias, e Jesus era messias na medida em que nele se afirmavam os discípulos e ele próprio, em posicionamentos que pertenciam à tradição judaica, e de modo especial, das pessoas que nessa cultura religiosa alcançaram a categoria de proféticos.

Naquela altura o território palestino fazia parte dum poder político gigantesco conhecido por império romano. Esse território era um espaço tranquilo e pacífico – pax romana – em que as pessoas tinham absoluta liberdade de deslocação no seu imenso território, e em segurança; e no qual não houve nunca por parte dos romanos perseguição contra nenhuma religião. Depois passar-se-iam cousas com os cristãos, mas essa é uma história muito peculiar e nada simples, que deveria dar lugar quiçá a outras reflexões. Não esqueçamos que o cristianismo se converteu na primeira religião radicalmente expansiva do império, e que negava direitos a qualquer outra visão religiosa. Os romanos eram absolutamente tolerantes com todas e não tinham preconceitos ligados a nenhuma, pode-se dizer daquela altura, e tal como se passa agora, que a maioria das elites eram agnósticas, mas sem darem a isso particular importância prática.

Palestina é uma zona pobre, e já naquela altura andava muito povoada (ainda continua nessas), e claro, o império romano foi mão de santo para os seus habitantes, de jeito fácil podiam emigrar e irem-se instalando por todos os recantos do império. Começaram fazendo isso, com o Egito, com a Síria e com o império Sassânida, já antes de chegarem os romanos. Mas o império romano garantiu-lhes o acesso a territórios muito mais longínquos e diversos.

Os impulsionadores dessa nova versão do judaísmo mais abrangente e total – que vinha para todos, não só para o povo escolhido –, logo se aproveitaram disso, e deslocaram-se pelo império, e nas sinagogas de cada localidade iam apresentando o seu novo judaísmo. Muitos judeus aceitaram essa nova versão do judaísmo. O cristianismo dos primeiros tempos (séculos) é de forma fundamental cousa de judeus.

Esses cristãos sendo tais, eram mais uns judeus, e a sua relação com os judeus que não aceitaram a nova versão era de respeito e proximidade.

O cristianismo, esse judaísmo mais abrangente, teve um sucesso muito considerável no mundo da lei mosaica. Mas já desde cedo por o seu caráter abrangente, foi aberto aos gentis, quer dizer, àquelas pessoas cujos pais e sobretudo mães não seguiam os mandatos de Moisés.

Nessa nova variante do judaísmo começaram a estar mais e mais pessoas, e que além disso se integravam com todas as esquisitas particularidades da sua tradição cultural, que ainda que eram uma fração pequena dos novos seguidores, nada tinham a ver com a tradição judaica, a que pertenciam os predicadores desse judaísmo novo e abrangente em que era até fácil se integrarem gentis, sem racharem completamente com a sua tradição cultural alicerçada noutras bases.

Naquela sociedade onde o não acreditar era bastante geral, essa religião total e que dava garantias de uma vida futura no além com segurança, teve um considerável sucesso. A agressividade que mostravam para as outras religiões, salvo que fosse a judaica, fazia que não fizessem muitos amigos. Uns queriam aos novos convertidos e os mais odiavam-nos pela sua intolerância religiosa, cousa que antes de eles agirem assim, era desconhecida. As religiões todas eram particulares de povos, cada povo tinha a sua, e os romanos todas aceitavam e integravam no seu panteão sem problemas, também a judaica.

O novo judaísmo teve um considerável sucesso, especialmente entre setores das classes altas romanas, essas que não acreditavam com certeza em nada, o sucesso foi tal que pouco a pouco vieram a converter-se na religião oficial do império. A partir daí começam a agir como um poder imperial mais, os cargos da igreja passam a desfrutar de todas as regalias que correspondiam ao mundo senatorial e a alta burocracia do estado, além de ficarem livres de impostos e coimas.

O Concílio de Niceia é muito importante por várias cousas:

A primeira, por a igreja institucional e a sua doutrina, ser fixada de forma clara.

A segunda por se dar aí o início do uso da violência – com a força coativa do império – contra a dissidência doutrinal de todo o tipo e contra toda leitura eclesial que não seguisse a linha marcada pola igreja triunfante do estado romano; começam aí as matanças de cristãos às mãos de cristãos, usando o poder imperial, e essas mortes provavelmente superem em muito as causadas polas perseguições romanas do cristianismo. Na Galiza podemos trazer um bom exemplo, o do galaico Prisciliano, bispo de Cauca, a atual Samorai. Prisciliano chega no ano 385 a Tréveris (a atual Trier na Alemanha, a cidade berço de Carlos Marx), e lá foi decapitado pelo poder civil, por condena eclesiástica. Os que o acompanhavam, numa verdadeira primeira e completa peregrinagem, trouxeram os seus restos à Galiza; é muito provável que lhe dessem terra no cemitério priscilianista, que está sob a catedral de Compostela, pois todo faz pensar que desse lugar era a sua origem, além de ser esse lugar, um importante centro priscilianista.

A terceira cousa importante do concílio de Niceia, foi o enfrentamento de setores da nova igreja estatal, contra o grande peso dos judeus na igreja. É aí onde começam os problemas ainda muito apagados, entre a linha judia desse novo judaísmo chamado cristão, e a linha da igreja poder do estado que os antes gentis pensavam já eles serem os donos, ou que deviam terem mais peso, frente à relevância que tinham os judeus (como se agacha na história eclesial ad hoc este facto, e até o de serem muitos dos padres e figuras daquela igreja judeus).

Estas divergências, desde aquela, não deixaram de crescer entre os judeus e os incorporados sem serem da cultura judia. A nova igreja estatal logo vai querer acrescentar as diferenças, o sábado que honrara Jesus, e todos os novos cristãos, não tardará muito a ser suprimido como a festa principal religiosa, convertendo a primeira feira da semana no dominus dei.

No seu interessante livro “A Invenção do Povo Judeu” de Shlomo Sand, aponta o autor o alto grau de adoção do novo judaísmo, chamado cristão, que se produziu na Palestina entre os seus moradores autóctones. Porém, a crescente agressividade cristã sob o poder romano-bizantino contra os judeus, e o nascimento e depois a extensão da acusação de os judeus serem o povo deicida, levará nos séculos VI e VII, a muitos deles a não se sentirem à vontade nesse novo judaísmo e começarem a reclamar com força crescente o tornarem ao velho judaísmo sinagógico frente ao eclesial, o que se manifesta no esforço para construírem sinagogas.

O do povo deicida, vai ser ferrete perdurável para as pessoas de pais judeus. Aos judeus proíbe-se multitude de ofícios e a posse de terras, são isolados nas cidades em bairros específicos, e vai-se cimentando uma lenda que está na base de muitas atrocidades e crimes. Lembro eu, quando dos meus tempos de seminário, com doze anos, como um velho professor nos contava de judeus que roubavam nenés cristãos para fazerem com eles sacrifícios humanos sacrílegos e outras muitas tropelias. A Santa irmandade a Inquisição, era poder eclesial – sob o amparo do poder civil cristão –, perseguindo a dissidência, torturando e queimando vivas as pessoas. A barbaridade dos autos de féii (pogrons noutras latitudes) eram a máxima expressão disso, perseguindo e assassinando cristãos novos e marranos (alcunha para judeus); olhando quem não comer carne de porco como um dos símbolos mais claros da dissidência, e esquecendo que Jesus nunca comera carne de porco como bom judeu.

Quando a bestialidade toma toda a sua força no irracionalismo nazista, e se prepara a solução final Hitleriana (Hitler, Himmler e não pousos dirigentes nazis criaram-se como católicos embebidos no mau que é o judeu, somado a teorias raciais), nunca houve um verdadeiro arrependimento cristão, de que isso estava na base de conceções que foram alimentadas pelo cristianismo.

É bem certo que as cousas mudaram recentemente no catolicismo, ainda que talvez só na sua cabeça, pois tanto o papa João Paulo II, como agora Francisco, parecem ter uma relação de respeito e entendimento com os judeus. Porém, o cristianismo, especialmente as suas linhas católicas e ortodoxas, continuam sem se arrependerem a sério dos seus crimes, de estarem na base ideológica de terríveis atrocidades. Poder-se-ia dizer que a sua relação com o judaísmo é uma espécie de pecado original, de rebelião ante o novo judaísmo abrangente que nasceu na Palestina, banindo o ADN original.

A crise das igrejas, com o laicismo de origem liberal alimentado por raízes protestantes (uma grande conquista da humanidade), está levando a uma profunda crise e perda de anuência social. Não é causa menor disso a existência de um paradigma do agir e do sucesso eclesial que é baseado na violência do poder dirigido por eles – ou submetido não pouco a eles – sobre todo o tipo de pensamento diferenteiii.

 

Notas:

iTal como desvenda no magnífico livro as Tribos Calaicas Higínio Martins, e que nada tinha a ver essa vila com a Coca segoviana, o qual está na origem de muitos erros, pois nunca a província da Galiza, alargada por Diocleciano para o leste incorporando-lhe o convento de Clúnia, desceu por baixo do rio Douro.

ii Sabiam vocês que os primeiros de religião judaica a instalarem-se na Inglaterra modernamente, foram pessoas chegadas algumas da Galiza e sobretudo do norte de Portugal e eles foram os construtores da primeira sinagoga londrina, bragançanos muitos deles dedicados nessa velha vila, à seda e à confeção, que o Santo Ofício e a caridade cristã se encarregaram a ferro e lume de destruir, a eles, à indústria e ao comércio, Ad maiorem Dei gloriam et romanae ecclesiae. Lá também se instalaram homens das finanças como os Rothschild. O Nathan que no século XVIII encabeçou a saga anglo-saxónica desse apelido tão ligado ao império, ele tão-pouco era inglês, viera do gueto superpovoado de pessoas e percevejos de Francoforte na Alemanha, e arranjara-se para trazer com ele a fortuna do Príncipe regente de Hesse na Alemanha. Estes seguidores da torá, sempre aproveitando-se dos dinheiros acumulados pelos gentis com a exploração do povo cristão e trabalhador, que eram seus súbditos, he, he.

iiiHoje há uma igreja muito expansiva e totalitária que é a muçulmana, que além disso, nasceu ligada ao poder e para a qual a posse do poder político e da violência legal é dogma de fé. E tão coativa na sua expansão que em zonas muito cristianizadas o cristianismo foi banido como areia levada pelo vento. É digno de estudo o caso das chamadas forças muçulmanas laicas. O laicismo de Ataturk, reduziu os cristãos na Turquia de quase 20 % da população a 0,3 %. O Sultanato tolerava-os, na medida que pagavam impostos dos que estavam excluídos o povo muçulmano, a Umma, porém o laicismo não.

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