O AVE e as linhas de proximidade

Partilhar

Por Adela Figueroa Panisse

 

Perante as dicussons recentes acerca da duvidosa rentabilidade do AVE Madrid-Galiza: A polémica colocou-se na rivalidade entre as nacionalidades, nomeadamente entre a Catalunha e a Galiza, polas queixas que determinados políticos cataláns põem acerca da rentabilidade do investimento grandíssimo que vai representar esta linha.

Eu, da minha ótica de utente de transportes públicos, prefiro colocar o discurso noutros parâmetros.

O principal para mim, como habitante desta perdida Naçom de Breogám, é que nom podo fazer deslocamentos em comboio entre as cidades da minha Terra e que, todavia, som as que mais movimento demandam. Por exemplo:

Corunha-Lugo (apenas dois serviços, pouco “servíveis”, pois o primeiro é às 8:50 e o outro às 6:30 da tarde). O resultado é que, dada a oferta maior de autocarros, o público acaba por apanhar estes em lugar do comboio ou vai no seu automóvel privado.

Lugo-Ourense. Existe a linha, mas resulta totalmente impossível utilizá-la. Haveria que fazer transbordo em Monforte, mas o comboio sai de Lugo às 10:22 e o primeiro comboio de Monforte a Ourense é pola tarde às 7:30. A nom ser que se queira fazer turismo por Monforte com refeiçom incluída, é totalmente inoperante.

Lugo-Santiago, Nom existe. Seria de fácil arranjo, pois se poderia fazer uma ligação de Cúrtis até Lavacolha duns 30 km, aproveitando a linha Lugo-Corunha. Este dispêndio seria muito menor que a autoestrada que está a ser construída ou que o AVE de tam duvidosa rentabilidade.

Lugo-A Marinha: Nom existe nem sequer na mente dos mais iluminados. Seria bastante mais económico que a autoestrada do Cantábrico, de grandíssimo impacto ambiental e económico. Poria a capital em contacto com a sua costa, cousa muito vantajosa.

Corunha-Vigo, Um dos mais rendíveis de todo o estado Espanhol. Muitos serviços e muito utilizado pola populaçom, em geral.

Mas, neste caso encontramos o paradoxo de que, sendo a única via boa de todo o serviço ferroviário da Galiza, está a ser desmantelada e aproveitado o seu traçado para um AVE que vai ter que parar em Compostela, Vila Garcia e Ponte Vedra antes de chegar a Vigo. Com semelhante percurso pode-se adivinhar que a velocidade que vai poder tomar nunca será a dum AVE (300K/h), dado a frequência de paragens.

E para isso desfaz-se o único trem que funcionava!!.

No passado dia 27 os vizinhos de Vigo, Redondela e a Asociación Salva o Tren, realizaram umha jornada de protesto perante o Ministro José Blanco de visita em Vigo e, ainda, despediram a derradeira paragem do comboio em Chapela. Esta vai ser eliminada como tantas outras desta linha, por causa dum AVE tam mal projetado.

Colocar o problema dos transportes da Galiza na rivalidade entre as diferentes Nacionalidades compre-lhe bem aos nacionalistas espanhóis. Mas a polémica nom está nesse ponto. Está em cobrir as necessidades das populaçons da maneira mais económica e prática possível.

Administrar seria dar bons serviços de comboio aos habitantes da Galiza. Pontuais, frequentes e baratos. A velocidade nom precisa de ser 300 km/h. Basta 200 km/h ou 150… O importante é recuperar o uso do comboio para o comum da gente.

A opiniom pública despreza o caminho-de-ferro. Para a maioria das pessoas da minha cidade ( Lugo) o comboio nom existe.

A razom porque a empresa foi deixando cair os serviços escapa-se-me. O caso é que os utentes de Lugo deixaram de contar com este transporte pola sua ineficácia e pola propaganda nefasta que dele se tem feito.

O facto de que Corunha–Vigo fosse umha das melhores linhas e que agora se deixe estragar, também resulta surpreendente e inexplicável para mim.

Que a Galiza seja a única autonomia da Espanha que nom tem as linhas eletrificadas é outra questom inexplicável, nomeadamente se produzimos eletricidade a feito para o resto da Espanha à custa do nosso património natural.

Em resumo, a polémica nom é se a Catalunha está em contra da Galiza. O assunto é que a Galiza está deixada da mão de Deus e este nom deve estar a nosso favor. O Estatuto de Autonomia da Galiza prevê ter o controlo dos transportes públicos. Mas isto nunca foi reclamado polos diferentes Governos da Junta da Galiza. Portanto é ainda competência do Estado Espanhol.

Porquê temos os comboios mais antigos, porquê nom temos linhas funcionais, porquê nom se renovaram as linhas desde o século XIX nestas que foram inauguradas na Galiza, som questons que têm a ver com o desgoverno tanto da Galiza como do Estado Central. Também com a passividade dos diferentes governantes de Lugo, por ser esta a pior tratada e a que mais se beneficiaria dum bom traçado de caminho-de-ferro galego. Baste pensar as vantagens que seria termos comunicaçom com a costa ligando Lugo à linha Ferrol-Bilbau, e as melhorias derivadas de transformar o FEVE atual num caminho-de-ferro eletrificado e de velocidade média.

Tudo isso teria uns custos muito menores que as autoestradas e que o AVE, tanto do ponto de vista económico como ambiental.

Eu nom estou a favor do AVE. Creio que é um exemplo de esbanjamento económico e ambiental. Estou a favor dum caminho-de-ferro funcional, eletrificado, e de média velocidade que me deixe ir comodamente de Lugo à fronteira Portuguesa ou à fronteira Francesa. Que ponha em comunicaçom a Corunha e Vigo com estes dous países e com a meseta. Cuido que isso sim que seria rentável. E nom tenho interesse nenhum em dar-me mal com os cataláns nem com nenhum outro habitante do resto da Espanha nem da Europa. Nom sementem cizânia que logo cresce.

27 de agosto de 2011.

(*) Adela Figueroa Panisse é vogal de transportes de ADEGA.