Se quisermos alcançar uma paz real neste mundo, e se quisermos levar a cabo uma verdadeira guerra contra a guerra, teremos que começar com as crianças; e se elas crescerem na sua inocência natural, não teremos que luitar; não teremos que aprovar resoluções inúteis, senão que iremos de amor em amor, de paz em paz, até que finalmente todos os recantos do mundo estejam cobertos com esta paz e este amor que todo o mundo, consciente ou inconscientemente, anseia. Embora não sejam minhas estas palavras, com grande prazer as faço minhas próprias. O texto anterior é da autoria de um dos maiores pacifistas da história, Gandhi. Que fora assassinado por um hinduísta fanático em 30 de janeiro de 1948. O pedagogo balear Llorenç Vidal teve a feliz ideia de criar em 1964 o DENIP («Dia Escolar da Não Violência e da Paz»), fazendo-o coincidir com data tão significativa. Com o objetivo de promover atividades educativo-didáticas em todos os estabelecimentos de ensino sobre o tema da Paz. A proposta teve um grande sucesso, até tal ponto que, quase não existe centro de ensino na Península e ilhas que não organize alguma atividade. Por sorte, a data comemorativa está totalmente consolidada, e em 2017 celebra-se a 54 edição. O dia comemorativo serve para sensibilizar crianças e jovens sobre um tema tão importante, embora os docentes devam ter muito claro que o fomento do pacifismo, o amor e a não violência (que Gandhi denominava «ahimsa»), deve fomentar-se de contínuo no dia a dia, dentro e fora das aulas.
Se educar, apesar das dificuldades, é desafiador e aliciante, educar para a paz é ainda mais motivador. As questões que usualmente se colocam — o que é a Paz; como integrá-la na comunidade escolar — são pertinentes mas de resposta difícil de construir, para crianças em idade pré-escolar, particularmente aquelas que viveram situações de conflito. A Paz não é apenas a ausência de conflito, é muito mais do que isso; é sentirmo-nos bem connosco e com os outros. Saber de onde vimos e para onde vamos; perceber que a vida tem sentido; saber que o nosso lugar no mundo é único. A educação em valores e para os valores desempenha um papel fundamental na Formação Pessoal e Social, devendo ser preponderante no processo educativo, pois tem a ver com a forma como a criança se relaciona consigo própria, com os outros e com o mundo, num processo que implica o desenvolvimento de atitudes e valores.
Os educadores, ao trabalhar esta área, necessitam ter objetivos claros, utilizar métodos ativos assentes nas situações do dia a dia de modo a manter as seguintes atitudes: o estar atento; o estabelecer diálogos com as crianças sobre conflitos que possam surgir; o manifestar compreensão e respeito pelas crianças; o saber ouvir; o ter paciência; o ter bom humor; o criar um clima de segurança, afetividade, empatia, alegria, harmonia e Paz.
Gandhi chegou a dizer-nos também palavras tão formosas como estas: «Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida dos seres humanos. A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo a fora. Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem. A capacidade de escolher novos rumos. Deixaria para você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: Além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a ação. E, quando tudo mais faltasse, um segredo: O de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída». Que se pode completar com este seu outro lindo poema em prosa: «Pegue um sorriso e doe-o a quem jamais o teve…Pegue um raio de sol e faça-o voar lá onde reina a noite…Pegue uma lágrima e ponha no rosto de quem jamais chorou…Pegue a coragem e ponha-a no ânimo de quem não sabe luitar… Descubra a vida e narre-a a quem não sabe entendê-la…Pegue a esperança e viva na sua luz…Pegue a bondade e doe-a a quem não sabe doar…Descubra o amor e faça-o conhecer o mundo…».
Na minha série de «As Aulas no Cinema» já dediquei vários depoimentos ao tema da Paz, apresentando diversos filmes adequados por serem profundamente pacifistas, de realizadores magníficos (que, naturalmente, sempre estiveram nas suas vidas a favor da paz no mundo): Ichikawa, Renoir, Kurosawa, Chaplin, Ray, Kubrick, etc. Para o presente escolhi dous filmes que ainda ficavam na listagem de filmes pacifistas que no seu dia elaborei. Um de Dalton Trumbo (realização e roteiro), e o outro de Oliver Stone, um diretor que admiro porque tem o grande valor de criticar sempre o seu país, como o «grande império» que é, organizando durante séculos e décadas, pelo seu próprio interesse, numerosas guerras em diferentes países e continentes. Como é lógico, estou a referir-me aos EUA.
FICHAS TÉCNICAS DOS 2 FILMES:
Diretor: Dalton Trumbo (EUA, 1971, 111 min., cor e preto e branco).
Roteiro: Dalton Trumbo, segundo o seu próprio romance.
Fotografia: Jules Brennan. Música: Jerry Fielding. Produtora: World Entertainment.
Prémios: Grande Prémio do Júri em Cannes (1971) e prémio da FIPRESCI.
Atores: Timothy Bottoms, Jason Robards, Donald Sutherland, Marsha Hunt, Diane Varsi,Kathy Fields e Charles McGraw.
Argumento: Um soldado americano é atingindo no último dia da I Guerra Mundial. Joe está deitado em uma cama de hospital e se dá conta que perdeu seus braços, pernas, olhos, nariz e boca. Ele relembra momentos de sua vida, mas não pode distinguir se está em um sonho ou se está acordado. Um dia ele encontra uma alternativa para se comunicar com as pessoas que cuidam dele.
O romance, publicado em 1939, sob o título de Johnny Got His Gun é de Dalton Trumbo. Diz o conto de Joe, um jovem soldado americano cujo corpo é severamente danificado depois que ele é atingido por um morteiro da artilharia alemã durante a Primeira Guerra Mundial. Seus braços, pernas, olhos, boca, nariz e orelhas se foram e ele não pode ver, falar, cheirar ou ouvir. Apesar de tudo, ele continua consciente, mas não consegue parar de sonhar e rever suas memórias, sem conseguir identificar se está dormindo ou está acordado. Frustrado com sua situação, ele tenta exaustivamente se comunicar com a equipe do hospital. O livro foi suspenso de impressão por muitos anos durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Primeiro e único filme dirigido pelo escritor e roteirista Dalton Trumbo, uma das grandes vítimas do macarthismo, Johnny Vai à Guerra é um monumento cinematográfico erigido contra todas a guerras: do passado, do presente e do futuro. Trumbo dirigiu a adaptação para o cinema em 1971.Trechos do filme foram usados no videoclip “One”, da banda Metallica. Foi ideia do baterista Lars Ulrich e do cantor James Hetfield, que gostavam muito do livro. Vencedor do Prêmio Especial do Júri e do Prêmio da Crítica (FIPRESCI) no Festival de Cannes, em 1971, Johnny vai à Guerra é um filme tão aterrador quanto necessário. Sobre esta fita se chegou a dizer, acertadamente: “Nenhum filme jamais mostrou de uma maneira tão atroz e perturbadora o horror da guerra e o desespero de um ser humano em defesa, à mercê da tirania médica”.
- Nascido em 4 de julho (Born on the Fourth of July).
Diretor: Oliver Stone (EUA, 1989, 145 min., cor).
Roteiro: Oliver Stone e Ron Kovic, segundo a autobiografia de este.
Fotografia: Robert Richardson. Música: John Williams. Produtora: Universal Pictures.
Prémios: Óscar 1989 ao melhor diretor e à montagem. Ao melhor ator, pela Associação de Críticos de Chicago no mesmo ano.
Nota: Pode ver-se dobrado entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=IQ0EbWbg84I
Atores: Tom Cruise, Willem Dafoe, Raymond J. Barry, Caroline Kava, Kyra Sedgwick, Bryan Larkin, Stephen Baldwin, Bruce McVittie, Tom Sizemore, Vivica A. Fox, Frank Whaley, Jerry Levine, Lili Taylor, Tom Berenger, James LeGros, William Baldwin e Holly Marie Combs.
Argumento: Ron Kovic (Tom Cruise) é um rapaz idealista e cheio de sonhos, que deixa a namorada (Kyra Sedgwick) e a família para ir luitar no Vietnã. Já na guerra, ele é ferido e fica paraplégico. Ao voltar aos Estados Unidos é recebido como herói, mas logo se vê confrontando com a realidade do preconceito aos deficientes físicos, mesmo aqueles considerados heróis de guerra. Ron decide então se juntar a outros para luitar pelos seus direitos, agora negados pelo país que os enviara para a guerra.
Crítica do filme por Leonardo Ferreira Sampaio:
“Sabe, às vezes eu percebo que as pessoas agem diferente ao saber que estive no Vietnã. A cara, os olhos, a voz, a forma como te olham.”
Oliver Stone foi e é um diretor e roteirista muito criticado por vários de seus trabalhos, como Alexandre, W e Torres Gêmeas. E é elogiado por outros, como o roteiro de Scarface e O expresso da meia-noite e a direção de Assassinos por natureza e, principalmente, pela sua trilogia do Vietnã: Platoon, Entre o céu e a terra e Nascido em 4 de julho, os dous Oscars que ganhou provam isso. Neste último, que considero seu melhor trabalho, Stone mostra toda sua competência e habilidade.

Ron Kovic é um rapaz, competitivo, idealista e cheio de sonhos. Desde criança queria servir o exército e defender o país que tanto ama, ele mora numa pacata cidade e tem uma família típica americana, patriota, também idealista e cristã. Desde criança ele é apaixonado por Donna, que também o ama. Ron se alista no exército e é mandado ao Vietnã, onde acaba sem querer matando inocentes e um colega de campo. Então em batalha Ron leva um tiro no pé e depois no peito, tiro que atravessa seu corpo e acerta a sua coluna deixando-o paralítico. Ao retornar para sua cidade natal, ele terá que lidar com a sua condição física.
“Quando fui atingido no pé poderia ter ficado deitado. Quem liga se fui um herói de guerra? Nesse dia fiquei paralisado e castrado. Por quê? Eu acho que daria tudo que tenho todos os meus valores para ter o meu corpo, estar inteiro.”
O que não falta em Nascido em 4 de julho são críticas, algumas muito sutis, como a cena em que a mãe de Ron troca do canal de notícias sobre a guerra para um programa cômico. Outras são mais claras, a cena em que os amigos zoam um colega por não querem ir à guerra “Deixe que os homens vão para guerra lutar”. E claro a critica sobre os males da guerra, males físicos e psíquicos e sobre como as pessoas lidam com isso. Ron perde praticamente tudo por causa de uma guerra que ele acreditava, até o grande amor de sua vida. Isso fica bem óbvio no primeiro encontro de Ron com Donna após seu retorno do Vietnã, ela o olha com uma afeição de carinho e pena, algo muito diferente do que vimos no baile, ao som de Moon river (do clássico Bonequinha de Luxo), aonde o amor dos dous se mostra completo e percebemos que o amor, pelo menos o amor que Donna queria, não é mais possível.
O mais interessante do filme, a meu ver, é que ninguém está totalmente certo, Ron está errado de tentar defender uma guerra sem propósito só porque lutou nela, as pessoas estão erradas em ignorar os problemas que os cercam, o irmão de Ron está errado ao criticar as pessoas que lutaram no Vietnam sem nunca ter ido, feito e visto o que lá ocorrera, a mãe está errada em querer que seus filhos hajam da maneira que ela quer e acreditar no que ela acredita. É um filme de incertezas e arrependimentos, que como o próprio Ron fala, não podem ser desfeitos.
O filme emociona em varias cenas, Ron confessando-se para a família do soldado que ele matou é realmente de dar nó na garganta, assim como a discussão de Ron e sua mãe (minha cena predileta do filme), onde ele mostra que a guerra matou até a sua fé, não querendo dizer que a fé é importante para todos nós mais era algo que era muito importante para ele.
Tom Cruise está realmente maravilhoso, seu personagem é muito complexo e Tom consegue fazer fluir todos os sentimentos. O resto do elenco também trabalha muito bem, em especial Willen Dafoe que faz uma participação pequena mais bem aproveitada. Oliver Stone se mostra realmente competente, com uma câmera que quase nunca para e com o seu roteiro, que foi adaptado do livro do verdadeiro Ron Kovic, que é ao mesmo tempo devastador e esperançoso.
REFLETIR COM AS PALAVRAS DE GANDHI:
Acho que é muito bom seguir escuitando a voz de Gandhi, o grande pacifista na teoria e na prática. Resenho a seguir vários textos por ele escritos, que eu traduzi de uma antologia publicada em castelhano dos seus pensamentos sobre a paz e a não violência, e outros temas. Deixemos que ele fale e o nosso trabalho há ser refletir sobre o que ele nos diz.
- Pode passar muito tempo antes de que a lei do amor se reconheça nos assuntos internacionais. A maquinaria dos governos interpõe-se entre os corações dum povo e os do outro e os oculta.
- A guerra é má, é um mal absoluto… a liberdade obtida através do derramamento de sangue ou a fraude não é liberdade.
O seguinte texto é de grande atualidade e esperemos que não seja premonitório:
- Se a louca corrida armamentística continua, vai acabar resultando necessariamente uma matança como não houve nenhuma outra na história. Se ficar um vencedor, a mesma vitória há ser um morto-vivo para o país que sai vitorioso.
- Acho que toda a guerra é completamente má. Embora, se examinarmos os motivos respetivos dos dous bandos em guerra, possamos encontrar que um tem razão e o outro não… Não acredito na guerra violenta, ainda que de todos os modos o bando cuja causa é justa mereça a minha ajuda moral e as minhas benções.
- Que diferença há para os mortos, os órfãos e os sem teito em que a louca destruição se produza no nome do totalitarismo ou no santo nome da liberdade ou da democracia?
- Se a sociedade não há ser destruída por guerras insensatas de nações contra nações, e por guerras ainda mais insensatas sobre os seus fundamentos morais, a mulher terá que desempenhar o seu papel, não à maneira masculina, como algumas tratam de fazê-lo, mas à maneira feminina. Não vai melhorar a humanidade se rivaliza com o homem na sua capacidade para destruir a vida, geralmente sem objeto. Que o seu privilégio seja apartar o homem equivocado do seu erro, que na sua ruína há envolver também a sua mulher.
- Um soldado de paz, à diferença do da espada, tem que dedicar todo o seu tempo de lazer à promoção da paz, tanto no tempo de guerra como em tempo de paz.
- A resistência passiva é a educação melhor e mais nobre… Não se vai negar que uma criança, antes de começar a escrever o seu alfabeto e a obter conhecimentos do mundo, deveria conhecer o que é a alma, o que é a verdade, o que é o amor, quais poderes estão latentes na alma. Deveria ser um elemento essencial da verdadeira educação que a criança aprendesse que, na luita da vida, pode vencer facilmente o ódio com o amor, a falsidade com a verdade, a violência com o sofrimento livremente aceite.
- As crianças são inocentes, carinhosas e benévolas por natureza. O mal só chega quando se tornam adultos.
- A educação do coração não se pode lecionar por meio dos livros. Só se pode levar a cabo através do contacto vivo com o mestre/a.
- O labor dum mestre está mais fora que dentro da aula.
E este último texto de Gandhi tem hoje uma grande atualidade, embora tenha sido escrito nos anos trinta:
- As nações ocidentais hoje gemem sob a roda do deus monstruoso do materialismo. O seu crescimento moral atrofiou-se. Medem o seu progresso em libras, xelins e peniques (hoje diria em dólares e euros). A riqueza da América do Norte converteu-se no «modelo». É a inveja de todas as nações. Ouvi dizer a muitos dos meus compatriotas que devemos conseguir a riqueza da América do Norte, embora evitando seus métodos. Atrevo-me a sugerir que tal tentativa, se se levasse a cabo, está condenada ao fracasso. Não podemos ser «sensatos, moderados e furiosos» ao mesmo tempo.
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos dous filmes antes resenhados.
Com colaborações dos estudantes (desenhos, poemas, aforismos, textos livres, lendas, contos, etc.) organizamos nos estabelecimentos de ensino uma amostra sobre a paz e a não-violência. Na mesma podemos incluir fotos e resenhas da imprensa, e textos tirados da internet, podendo incluir informações sobre a desgraçada guerra atual na Síria. E podemos também elaborar uma monografia segundo a técnica Freinet da Biblioteca do Trabalho, para depois policopiá-la.
Escolhemos um livro para ler entre todos e, depois de o ter lido, organizamos um Livro-fórum sobre ele. Qualquer livro de Gandhi publicado no nosso idioma pode ser ótimo para a sua leitura. Por exemplo, Gandhi – Autobiografia, Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade, editado por Palas Athena. Também O caminho da paz. Respostas sobre amor, fé e vida, publicado pela editora Gente

