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No caminho para a escola também se aprende (Filme: ‘A caminho da escola’)

“Não se deve separar a escola da vida”, comentava no seu dia o grande educador galo Celestin Freinet, um dos mais importantes da história da pedagogia mundial. Sob tão interessante frase acrescentava um lindo texto, que não tem desperdício algum e que gosto de reproduzir neste meu depoimento. Freinet diz-nos a todos: “Com muita frequência, no decurso das minhas atividades pedagógicas, a escola que conheci na infância impõe-se à minha lembrança. Percorríamos as ruas e os caminhos, embriagados pelo ar livre, nutridos por um labor que tinha para nós um sentido profundo, ligados à nossa vida presente e futura, com jogos naturais e os cantos das aves. As preocupações? Só raramente nos acompanhavam. A criança em liberdade no meio dos seus camaradas jamais se encontra preocupada, salvo se está doente ou se problemas insuperáveis a dominam. A vida chama-a a si e impele-a para a frente com um otimismo confiante e prometedor. Aproximávamo-nos da escola. As ideias não nos faltavam certamente, e ideias bem originais; as falas surgiam rapidamente, com subtileza e humor; as iniciativas abundavam, boas ou más. E depois, bruscamente, ouvia-se a sineta; produzia-se imediatamente como que um vazio no nosso ser. A vida detinha-se ali, a escola começava: um mundo novo, totalmente diferente daquele em que vivíamos, com outras regras, outras obrigações, outros interesses, ou, o que é mais grave, com uma ausência por vezes dramática de interesse. Contávamos pela última vez os berlindes nos bolsos, escondíamos uma bela amonite descoberta no caminho e que iríamos buscar depois de sairmos; era-nos preciso afastar o cão que nos seguira e que se mostrava surpreendido por ver que nos tornáramos seres anónimos, sem alma, que desapareciam naquele lugar retirado do mundo no qual a vida não contava. A porta fechava-se”. Freinet continua a falar de que a escola vive de costas à realidade, com um currículo que não responde nem aos interesses dos escolares nem aos conteúdos vitais, naturais e sociais do ambiente dos alunos. E que são, infelizmente, muito poucos os docentes conscientes de que no ambiente estão muitos dos temas importantes para ser estudados nas aulas, para ser pesquisados, para escrever sobre eles por meio de textos livres dos estudantes, para os desenhar ou fotografar. Porque a vida é a melhor lição e o ambiente natural e social o melhor livro. Existe uma velha história sobre uma professora chamada Dona Manolita, que regia uma escola numa aldeia do rural galego. Entre os seus alunos tinha um tal Pepinho, que, algo hiperativo, mas com grande curiosidade, a quem sempre estava a rifar pelo que fazia na aula. Um bom dia o escolar chegou à aula e trazia na mão uma rã, que recolhera no caminho para a escola. Isto zangou muito a docente e disse ao aluno “tu és o aluno mais traste que tive nunca, não tens remédio, vai lá fora e deixa a rã onde a colheste, e volta logo que sempre te enredas”. Pepinho sai, e, quando volta, a professora diz a todos os alunos que se encontram na sala de aula: “Abride o livro de ciências e a estudar!” É muito triste ver uma docente assim que não é consciente do motivador que seria utilizar a rã que trazia o escolar para a aula para organizar uma lição ocasional, que podia dar pé a estudar, por exemplo, de forma muito prática e intuitiva, o tema dos anfíbios. Aliás, um tema que figura no currículo oficial da disciplina de ciências no nível de ensino primário. Os grandes educadores, como Freinet, sim que aproveitariam lições ocasionais similares nas suas aulas. E mesmo motivariam para que os seus alunos desenhassem e redigissem textos, poemas, frases alusivas, e elaborassem monografias temáticas sobre temas da vida dos escolares. Neste caso seria uma monografia sobre a rã e os anfíbios.

Para o presente depoimento escolhi desta vez um lindo documentário realizado no ano 2013, com o apoio de organismos como a ONU, a Unesco, a Unicef ou Ajuda em Ação. No mesmo aparecem escolares reais do Quénia, Marrocos (na cordilheira do Atlas), Argentina (zona da Patagónia) e Índia, amostrando as grandes dificuldades que têm para ir à escola, bem pela distância, bem pelas grandes dificuldades do caminho, com numerosos obstáculos, bem pela calor que devem suportar, ou bem pelas deficiências que têm, necessitando de ajuda para levar a cadeira de rodas. Este lindo filme foi realizado pelo diretor francês Pascal Plisson, dando-lhe precisamente o título de A caminho da escola.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • CAMINHO DA ESCOLA CartazTítulo original: Sur le chemin de l´école (A caminho da escola).
  • Diretor: Pascal Plisson (França, 2013, 77 min., cor). Documentário.
  • Roteiro: Marie-Claire Javoy e Pascal Plisson. Produtoras: Winds, Ymagis e Wild Bunch.
  • Prémios: César ao melhor documentário em 2013 e Goya em 2015 ao melhor filme europeu.
  • Atores: Jackson Saikong, Salome Saikong, Samuel J. Esther, Zahira Badi, Micaela Janez, e outros.
  • Argumento: O filme narra a história real e extraordinária de quatro crianças: Jackson, o queniano; Carlito, o argentino; Zahira, a marroquina; Samuel, o indiano… quatro crianças que vivem distantes umas das outras e que nunca se encontraram, mas que têm um ponto em comum: eles precisam percorrer longas distâncias para chegar à sua escola. Todos carregam uma determinação extraordinária. As crianças são: Jackson, 10 anos, Quênia: 15 km em 2h; Samuel, 11 anos, Índia: +1h de cadeira de rodas (4 km); Zahira, 12 anos, Marrocos: 22 km em 4h; Carlos, 11 anos, Argentina: 1h30 em seu cavalo (18 km).

UMA LINDA CRÍTICA SOBRE ESTE FILME:

Fotograma do filme
Fotograma do filme

A brasileira Daniela Guerra escreveu uma formosa crítica sobre este documentário, que pelo seu interesse e acertada análise, tenho a bem recolher a seguir no meu depoimento. Vivemos num mundo dito desenvolvido, onde tudo está facilmente ao alcance de todos, mas esse mesmo mundo caiu numa armadilha, como numa parábola: o filhinho rico deixou de dar importância às cousas fundamentais e, cego pela sua vaidade, trocou a palavra Educação pela Fama. A caminho da escola, de Pascal Plisson, é um documentário que coloca tudo em perspectiva e mostra-nos os desafios que jovens em quatro zonas distintas do globo têm de superar apenas para chegar à escola. A educação representa uma oportunidade, permite muitas vezes quebrar o ciclo de pobreza arranjando um emprego melhor ou tendo acesso a bolsas para estudar no estrangeiro. Aprender significa poder realizar sonhos como “ser médico para curar outras pessoas como eu”, como diz Samuel (Índia), que para chegar à escola necessita da ajuda dos seus dous irmãos para empurrarem a sua cadeira de rodas durante mais de uma hora, por caminhos de terra e de água. Em quatro narrativas paralelas vamos descobrindo também a história de Jackson e a sua irmã (Quénia), que percorrem diariamente 1h30 a pé, Carlitos e a sua irmã (Patagónia), que vão de cavalo ao longo de 18 quilómetros, e Zahira (Marrocos), que faz um percurso de 4h a pé pelos caminhos íngremes da montanha.

Fotograma do filme
Fotograma do filme

A caminho da escola leva-nos a uma realidade também paralela à nossa, onde em vez de minutos falamos de horas de trajeto, em vez de transportes falamos de pés cansados, joelhos com feridas e roupas sujas. A paisagem não é de cimento como prédios e estradas, mas sim vales e montanhas (Marrocos e Patagónia), ou planícies com elefantes e zebras (Quénia). Estes bravos heróis desafiam a sua própria vida para irem aprender, e mesmo depois de um desafio físico extenuante Carlitos mantém um espírito atento e participativo, Jackson vai orgulhoso pela responsabilidade de ser o dia em que vai hastear a bandeira, e Samuel sente-se um privilegiado por poder vir à escola apesar da sua reduzida mobilidade, denunciando outros casos em que os pais desistem de proporcionar uma educação aos seus filhos. O realizador é também hábil ao mostrar o papel preponderante destes pais, que rezam pela segurança dos seus filhos até à escola, que lhes estimulam o gosto por aprender e para que sejam os melhores da sua turma. Ao som de uma banda sonora que adensa (mais do que habitualmente acontece em documentários) ora o perigo ora a aventura de cada caminho, com planos extremamente abertos que enquadram os protagonistas na imensidão geográfica em que se encontram e outros muito fechados, mostrando quanto sofrem os seus pés ao longo do caminho, este filme é uma delícia para os olhos e ouvidos mas ao mesmo tempo um murro no estômago. Documentário inspirador, que mostra a fibra, a coragem e a persistência destes pequenos grandes seres humanos que se desafiam todos os dias pela paixão da educação.

ANÁLISE DO FILME POR ANA MUNIZ:

Fotograma do filme
Fotograma do filme

Pela sua parte, no seu blogue, a também brasileira Ana Muniz realiza uma acertada análise do filme. Os trajetos em A Caminho da Escola são enfrentamentos de perigos, que até um professor agradece a Deus por terem chegado sãos, os alunos, enquanto os familiares na mais profunda fé pede que nada de mal aconteça aos filhos. Conforme o enunciado, é um caminho para guerreiros, cujo mérito é aprender e abrir possibilidades para a realização dos diversos sonhos. É um desafio proposto por uma vida de escassez, em alguns casos da substância mais preciosa, a água. O roteiro traça aspetos a partir de uma breve apresentação familiar e saída de cada criança de suas moradias até a chegada à escola. Os lugares são longínquos, despovoados e o perigo está na caraterística do país em que se passa cada história: Quênia, Marrocos, Argentina e Índia. As quatro histórias concomitantes apontam para o mesmo ideal; o esforço empreendido levará à realização dos anseios de cada envolvido.

As crianças de até 13 anos de idade andam vários quilômetros sozinhas para se instruir e alcançar a promessa de uma vida além da que vivem com seus pais, os quais incentivam, esperançosos. Na conversa que Zahira tem com a avó o motivo está claro, o adulto diz: “Estude e aprenda para não ser como nós”. A avó nunca foi à escola, mas impulsiona: “Você compreenderá melhor a vida se for instruída”.  Poderíamos ouvir tais frases em qualquer lugar de Minas Gerais, São Paulo, Bahia ou outro estado brasileiro…Na Galiza ou em Portugal.

Fotograma do filme
Fotograma do filme

São dous pares de crianças, e dous trios, sendo três meninas e outro de três meninos. Cada um à sua maneira, ligados pela persistência de trilhar um longo trajeto, têm em comum a preocupação de não chegarem atrasados. São horas de caminhada, os pés doem, a garotinha na garupa parece cochilar, o perigo é constante para o menino e a irmã quenianos, tendo que desviar de elefantes… Em compensação, as girafas parecem mais dóceis. Como é possível dois menininhos seguirem um caminho de terra, irregular, empurrando o irmão um pouco maior e cadeirante por 4 quilômetros? O filme mostra que isso é fato. Estes últimos surgem apenas aos 29 minutos decorridos do filme e mesmo tendo o trajeto mais curto, a condição é muito mais delicada. Todavia, o clima entre todos é muito amigável, não há intrigas, há companheirismo, afeto. Embora a situação seja resultado de governos que não criam programas eficazes, que resultem na melhoria da vida de diversas classes, ver tais crianças cumprindo uma etapa escolar em meio ao exercício de obrigações que possibilitem isso, passa um exemplo de crianças que brincam, estudam, trabalham, aprendem e são felizes, bem humorados e compartilham presencialmente a boa vontade.

Fotograma do filme
Fotograma do filme

Os quatro percursos se situam em países distantes entre si e não há compromisso de sincronia entre eles. Zahira, por exemplo, só vai à escola às segundas-feiras, o horário dela é diferente e o tempo de caminhar é muito maior, enquanto os demais vão todas as manhãs. O paralelismo criado no roteiro foca nos esforços que cada um tem que empregar para chegar lá… Embora em parte haja cenas mais rápidas que intercalam momentos de tensão no caminho, sabe-se que em documentário você não precisa necessariamente de conflitos como em ficção. Naquele, há situações que acontecem e em tal tempo o particular vai se revelando até chegar a um certo horizonte…

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo do filme anteriormente citado, realizado em 2013 por Pascal Plisson.

Organizar nos estabelecimentos de ensino uma exposição sobre a problemática da escolarização nos diferentes continentes, os tipos de escolas, as políticas educativas dos governos, as ajudas ao estudo, a formação dos docentes, etc. Tal exposição terá que constar de cartazes, frases, textos, lemas, fotos, desenhos, esquemas, etc. A documentação para organizá-la pode ser recolhida na internet. Depois podemos editar ou policopiar uma monografia sobre as escolas no mundo.

Aproveitando a moradia de diferentes imigrantes na localidade onde se encontre a nossa escola, podemos convidá-los para participarem numa mesa redonda e nos contarem cada um a sua experiência escolar, os tipos de escola do seu país respetivo, os seus professores e os serviços escolares que possam ter (transporte, cantina, recursos didáticos, calendário escolar, etc.). É normal que nas localidades morem pessoas dos países da América Latina e de locais da África, como o Senegal e Marrocos. E até de Cabo Verde, como é o caso da localidade de Burela, na Marinha.

 

 

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