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Nee Barros: “Se somos uma mesma língua, porquê nom temos uma grafia convergente?”

1609071116336Nee Barros é um criador que foge das clasificaçons, utilizando diversos formatos, como o audiovisual que difunde através da sua conta de youtube, e também a música ou a escrita. Recentemente lançou “19 poemas para um virus-19”, umha proposta autoeditada que aposta pola linguagem inclusiva e a ortografia reintegracionista.

 Tu utilizas a comunicaçom através de diferentes canais e formatos, do audiovisual à música ou à escrita em diferentes géneros, tés algumha preferência?
Penso que o importante para mim é o facto de expressar-me e o que quero expressar, nom tanto o jeito em que o faga. Porém, o audiovisual requer mais atençom à imagem, à música, ao som e a escrita à palavra; e é a palavra a que sempre acaba por ganhar-me. Ainda que polo geral gosto muito de fazer misturas: videopoemas, cançons com recitado, textos que nom podes enquadrar mui bem num género… Assim reivindico que as fronteiras som só limites fictícios a romper, que os conceitos som creaçons humanas questionáveis.

Como consegues desenvolver projetos com técnicas tam diferentes?
Deixo que cada projeto que fago tome a sua própria forma, e gosto de aprender das formas que vam tomando; bem sejam audiovisuais, escritas, musicadas… Assim vam fluindo, e nom gosto demasiado de encaixá-los. Deixo-nos (a mim como criador e a eles como projetos) liberdade.
Também é certo que nalguns casos, quando me presento a algum certame, devo adaptar-me ao que se pede. Mas sempre acabo por sair um pouco do estabelecido, é inevitável. Muitos dos meus “poemas” som também “monólogos de umha peça de teatro”, ou algumha “peça de teatro breve” é um “poema escenificado”.

No teu youtube tés vídeos didáticos e outros mais criativos e performativos, escolherias algum em particular do que estejas mais orgulhoso?
No meu canal de YouTube dedicado à literatura galega, o do “#LeGalegoChallenge”, um reto que criei quando rematou o confinamento. Consistia em tirar uma foto com um livro comprado após o confinamento à saída de umha livraria, e quase 50 pessoas participarom. Com esta iniciativa pequena, dinamizei algo a literatura no nosso idioma, que por pouco que for, qualquer pulo é bom: resta muito por fazer para que esteja presente nas redes.
Dos vídeos mais criativos estou particularmente orgulhoso do booktrailer de presentaçom do meu livro 19 poemas para um VÍRUS-19 (elaborei-no em tempo recorde e nom ficou tam mal!). Ou da curta-metragem O pelouro, feita em 24 horas para o Avoa Galega Festival.

Agora vés de lançar 19 poemas para um VIRUS-19; um poemário. Porquê a poesia? Que é para ti?
Nom gosto de classificar isto como um “poemário”, ainda que esteja composto por poemas. No prólogo já digo: “Isto nom é um poemário, por isso está escrito no jeito duma obra de teatro. Isto nom é uma obra de teatro, por isso está escrito no jeito dum poemário.”.
Os textos que há dentro, na sua maioria, tomam a forma de poemas porque foi o que eles me pedirom. Nom os pensei como poemas. Forom ideias que no seu momento tivem que vomitar (muitas influídas polo confinamento) e sairom com essa forma. Assim que, para mim, a poesia é um meio polo que vomitar, queixar-me… Em verdade tudo isto som queixas, porque eu sou um queixicas. Também é um meio polo que conhecer gente, sentir-me perto delis, fazer autocrítica, reflexionar e ver como o que eu penso, sinto, fago… já o pensou, sentiu e fijo alguém antes.

Assim que, para mim, a poesia é um meio polo que vomitar, queixar-me… Em verdade tudo isto som queixas, porque eu sou um queixicas. Também é um meio polo que conhecer gente, sentir-me perto delis, fazer autocrítica, reflexionar e ver como o que eu penso, sinto, fago… já o pensou, sentiu e fijo alguém antes.

Este é um projeto autoeditado, nom? Quais forom os motivos e quais som as expectativas sobre ele?
Foi. Pode parecer mui parvo, porque o tempo é outra classificaçom, outro construto social; mas o certo é que me autoeditei porque desde Arte Calavera ofrecerom-me a possibilidade de publicar sendo menor de idade. Com a COVID, o livro que ia sacar com Galaxia nom pudo ser publicado este ano, e o Nee pequeno olhava-me fixamente mostrando-me a sua listagem de cousas por fazer antes dos dezoito. Nom pudem dizer-me que nom, e aproveitei para sacar (dias antes do meu aniversário) um projeto que nom muitas editoriais estariam dispostas a sacar: um livro-poemário-nom poemário-com forma de obra de teatro em reintegrado e linguagem nom-binária.
Como todo o projeto foi levado a cabo por mim, tivem que assumir os custos. Comecei com uma tirada de 100 exemplares, mas quase nom resta nenhum e já vamos sacar a segunda! Nom queria ir com demasiadas expectativas, porque o risco era elevado, mas está a ter mui boa acolhida.

19 poemas para um VIRUS-19 está escrito em reintegrado, porquê te animaste a esta escolha?
neeumatiko-youtubeirasJá que é um projeto autoeditado, todas as decisons eram minhas e nom tinha que dar explicaçons a ninguém. Assim que decidim ser coerente com o meu jeito de pensar, e escolhim a norma com a que escrevo no meu dia a dia. Som binormativista, e defendo o reintegrado porque penso que é a escolha mais lógica. A grafia castelhana aplicou-se ao galego quando nom havia referentes do que se figera na literatura anterior, e por motivos de diglossia. Ademais, nom acaba de adaptar-se à nossa língua, e com o reintegrado temos em conta a lusofonia. Se somos uma mesma língua, porquê nom temos uma grafia convergente?
Porém, tenho ainda muito que aprender. Nom escrevo de tudo bem em reintegrado (levo um ano a isto), e por isso o Jon Amil encarregou-se da correçom linguística com toda a paciência do mundo (muitas graças).

A grafia castelhana aplicou-se ao galego quando nom havia referentes do que se figera na literatura anterior, e por motivos de diglossia. Ademais, nom acaba de adaptar-se à nossa língua, e com o reintegrado temos em conta a lusofonia. Se somos uma mesma língua, porquê nom temos uma grafia convergente?

Ademais, apresenta-se como um livro com linguagem nom-binária? Como defines esta proposta?
Para mim o género é uma classificaçom fictícia em que nom acabo de entrar. Dous moldes inventados pola sociedade com os seus correspondentes roles, expectativas, posiçons de poder… Que pretendem estabelecer uma classificaçom falsa e tóxica, que nom para de causar-nos problemas aes que vivemos nas margens, aes que nos reivindicamos como dissidentes. Penso que é necessário rompermos com tudo isto, e a linguagem nom-binária é uma ferramenta maravilhosa para fazê-lo.
Ademais, dentro desta toxicidade que é o género, muita gente que se reivindica fora do binário emprega pronomes neutros (em galego normalmente a forma “eli”, já que, ainda que o neutro acostume a fazer-se com o “-e”, “ele” é a forma masculina em algumas zonas). Toda esta gente nom encontra representaçom na literatura galega atual, e isso que é mui necessário normalizarmos os seus pronomes.

Tens algum projeto para o futuro do que queiras dar-nos algumha primícia?
Como dixem já antes, estou a piques de publicar um livro com Galaxia. Este será muito mais tradicional, em galego isolacionista… Foi um projeto que escrevim em 2017, e o meu jeito de pensar mudou muito, mas isso nom quere dizer que nom continue orgulhoso do que figem. Chamará-se “Identidade”, e será uma obra de teatro juvenil para visibilizar a realidade trans. Está escrita desde uma perspectiva um pouco mais normativa como jeito de levar a um público novo umha informaçom que eu, no seu momento, desejaria ter recebido.
Também continuarei com a difusom dos 19 poemas para um VÍRUS-19, sacando as tiradas que for necessário, e com o meu canal de YouTube. O resto, iremos vendo.

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