
Instalada na antiga alfândega, num prédio emblemático mesmo ao lado da velha ponte internacional, a Academia de Música Fortaleza de Valença está em contínua atividade, entre aulas, concertos e projetos diversos. No próximo mês de junho canções galegas e portuguesas serão interpretadas pelo alunado do curso livre de canto.
Entrevistamos a diretora da AMFV, Ivone Ribeiro, e o professor de canto, Luís Neiva.
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A Academia de Música Fortaleza de Valença é uma associação de âmbito artístico, pedagógico e cultural, sem fins lucrativos, integrada no ensino particular e cooperativo. Iniciou a sua atividade em 2013 graças ao empenho e dedicação de Ivone Ribeiro, que dirige a academia sem receber remuneração, trabalhando de forma voluntária e altruísta. Hoje a AMFV conta com 120 alunas e alunos, aproximadamente. Foi difícil chegar até aqui?
Ivone Ribeiro: O percurso foi sempre difícil. No inicio tivemos que preparar instalações, porque não havia em Valença, fazer a preparação dos dossiês e pôr tudo em conformidade com a legislação em vigor para ser homologado pela DGEstE (Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares). Desde 2014 a AMFV é uma escola oficial para o ensino da música, igual a qualquer conservatório. Continua a ser difícil porque não tivemos ainda financiamento do ministério de educação. Neste momento estamos à espera, ainda vamos ter no próximo ano dificuldades a nível financeiro, porque a academia vai ser financiada em 2018/2019. A partir daí os alunos do ensino articulado terão música gratuitamente, o que foi o meu grande objetivo, conseguir que em Valença os meninos estudem música gratuitamente. Neste momento não é financiado, e nós temos de pagar aos professores e as despesas são muitas. Os pais pagam dez meses de propina, o município ajuda-nos durante dez meses, só que depois ficamos dois meses sem rede, como eu lhe digo, é por isso que nós estamos sempre a fazer atividades e eventos para angariação de fundos para não encarecer a propina dos alunos, para ser acessível aos pais. Esperemos que isto seja uma situação transitória. Mais um ano com esta situação e depois isto vai ser financiado como outra escola qualquer do país.

Parte do alunado que assiste a aulas na academia e Valença é galego, principalmente de Tui e Tominho. Qual é o número aproximado de alunos e alunas que vêm da Galiza?
Ivone Ribeiro: Talvez oito ou nove. Também temos uma professora de saxofone que é da Crunha, a Miriam, que está a estudar na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo) pelo Erasmus. Está a fazer o ensino superior cá em Portugal. No ensino da música a nível universitário há muitos espanhóis neste momento nas nossas universidades, na Universidade do Minho, Braga, Aveiro e a ESMAE Porto.
O sistema educativo português oferece a possibilidade de integrar as aulas de instrumento, formação musical e coro, no horário letivo das crianças, substituindo as matérias de música e tecnologia do ensino básico, no que se denomina ensino articulado. Como está a resultar esta modalidade de ensino?
Ivone Ribeiro: Acho que foi uma aposta do ministério da educação em criar o curso. Antigamente os alunos iam à escola e depois tinham que vir para a parte musical se quisessem estudar música. Agora não. É retirada a educação musical no ensino regular, que tem outros objetivos, nas escolas de ensino regular o objetivo não é formar músicos, mas sim formar bons ouvintes, motivar para a música, etc., enquanto que no ensino artístico é precisamente formar músicos. Qualquer um dos nossos alunos se trabalhar e tiver talento pode vir mais tarde a ser um futuro músico. E esperemos que sim. Então isso foi uma facilidade porque as crianças acabam por fazer tudo dentro do horário escolar, e é-lhe retirada carga horária, porque mesmo assim eles têm muitas disciplinas.
Eu acho que o ensino articulado é um caso de sucesso, porque os alunos ganham hábitos de trabalho, ganham concentração, ganham foco no trabalho, por tanto a música é uma mais-valia neste caso, mesmo para a escola em geral, e para a formação de cidadãos, especialmente a parte humana, a parte artística.

Atualmente em Valença leciona-se o curso básico de música que dura cinco anos. Depois como podem continuar os estudos de música?
Ivone Ribeiro: Sim, por acaso neste momento nós temos os nossos primeiros alunos a sair, os do 5º grau. Alguns vão ficar cá em curso livre. Eu para o ano vou preparar os dossiês para homologar o secundário, ou seja, mais um ano e temos a homologação do secundário e eles então vão ficar cá até poderem ir para a faculdade, para o ensino superior.
Portanto este será o próximo passo da AMFV, os que quiserem seguir a via vocacional terem cá 6º. 7º e 8º graus, porque o curso básico e secundário de música são oito graus. Vai desde que um menino entra na escola no quinto ano, até o décimo segundo ano. Na música é desde o primeiro grau até o oitavo grau.
O professor de canto Luís Neiva leva um ano e meio a trabalhar na academia. Atualmente está a preparar o alunado do curso livre de canto para interpretar uma seleção de canções galegas e portuguesas na próxima audição, que terá lugar na academia no mês de junho. Como vai desenvolver-se esta audição?
Luís Neiva: Vão participar 4 alunos, dos quais 3 são portugueses e uma aluna é galega. A ideia é que cada aluno cante dois temas na sua língua mãe e um terceiro na outra língua, assim os alunos portugueses cantam duas músicas portuguesas e uma galega e a aluna galega duas canções galegas e uma portuguesa. O acompanhamento será feito pelos próprios alunos com a colaboração de alguns professores. A maioria das canções será acompanhada por guitarra.
Além deste projeto na academia, já teve outras experiências relacionadas com a música galega?
Luís Neiva: Como diretor musical é a minha primeira experiência com música galega. No entanto, como intérprete, trabalho por diversas vezes com músicos galegos, principalmente na área de Música Antiga. Recentemente, comecei a colaborar com um grupo chamado Bando de Surunyo que se dedica à investigação e perfomance de música do século XVII composta em Portugal, e alguma dela é em galego.

O coro Vocalis Contrasta e o coro infantil da academia tiveram a oportunidade de atuar em vários eventos externos à escola, pode citar alguns exemplos?
Ivone Ribeiro: Começámos no inicio do ano por comemorar o dia mundial da música que é o dia 1 de outubro, depois temos tido o concerto de Natal, estivemos nas comemorações do feriado municipal que é 18 de fevereiro e cantamos na Fortaleza, no ciclo Música na praça. Também tivemos a honra de cantar para o presidente da República, cá em Valença, na CILV (Centro de Inovação e Logística de Valença). Para nós foi muito especial.
Recentemente tivemos os concertos de Musica em família, um em Monção, no Cine Teatro João Verde, e o outro aqui em Valença. Estamos a procurar atividades que não sejam sempre as mesmas, que haja diferentes abordagens de espetáculo para espetáculo. Este espetáculo da música em família tinha como objetivo chegar aos mais novos, aproximar a música às famílias.
Ainda não tivemos o privilégio de cantar no auditório de Tui. Mas iremos no final deste mês porque vamos participar, com o coro Vocalis Contrasta, num evento de angariação de fundos para África com o instituto inglês e o conservatório de Tui.
Em 2012 foi assinado um protocolo de cooperação entre Tui e Valença que atualmente formam uma Eurocidade. Vai haver mais colaborações com o conservatório de Tui no futuro?
Ivone Ribeiro: Sim, no início do ano eu e o diretor do conservatório de Tui, o Rubén López, com quem me entendo muito bem, tivemos a ideia de fazer a Orquestra Eurocidade, e temos o projeto feito, só que neste momento parou um bocadinho no tempo porque era muito dispendioso, mas temos intenções de fazer coisas em comum. Temos todos os anos um festival de piano em que os nossos alunos também participam, o IKFEM (International Keyboard Festival & Masterclass) com a Andrea González. O ano passado estiveram a tocar na igreja de São Domingos ali em Tui. Agora, acho que ainda é pouco, acho que ainda vamos ter de fazer mais atividades em conjunto, mesmo no âmbito da Eurocidade, só que tem sido tanta coisa em tão pouco tempo que nós temos essa intenção mas depois as coisas vão ficando e acabam por não se fazer tantas como quanto nós gostaríamos, mas isso está nos planos tanto do conservatório de Tui como da nossa academia.
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