Partilhar

Mestra vocacional de voluntária no Nepal, no filme «Katmandu, um espelho no céu»

José Paz Rodrigues (*) – Escolhi hoje para a minha série, às portas da celebração do Dia da Mulher Trabalhadora, um muito interessante filme, sobre a história de uma mestra catalã, Vicki Subirana, de grande vocação pedagógica, que vive como educadora voluntária uma rica experiência na capital do Nepal, Katmandu.

Com o título de Uma mestra em Katmandu escreveu um livro onde conta a sua experiência por ela vivida. Nascida no ano 1959 em Ripoll, decidiu cumprir o seu desejo de criar a melhor escola para as crianças mais pobres e desamparadas do Nepal, país situado ao norte da Índia. Abandonou a sua casa, o seu namorado, a sua família e o seu trabalho, deslocando-se até o país asiático para iniciar uma aventura pessoal e coletiva. Tinha estudado o curso de Magistério na Universidade de Vic, e em 1989, depois de exercer durante dez anos como mestra na sua localidade natal, fundou um infantário para 32 crianças refugiadas tibetanas e de outras etnias. Três anos mais tarde, para poder ter a residência e desenvolver o seu labor docente e social no país, casou com um cidadão nepali.

Esta mestra lembra a impressão que no seu dia lhe causara a frase de Séneca: «Indignamente vive o que não vive para os demais». Que lhe provocou o grande desejo de ajudar os outros, nascendo na sua cabeça a ideia de viajar ao Tibete. Depois de uma viagem acidentada, conheceu um frade budista que a levou ao seu mosteiro, e terminou por ser muito feliz. Em 4 de março de 1991 deu começo à sua escola, escrevendo todos os dias um diário das suas experiências educativas. Como é natural, ao princípio teve que enfrentar-se à falta de muitos recursos, os problemas do idioma, a variedade de etnias e castas, os ritos, as superstições e, em geral, a cultura de um país com costumes muito diferentes e difíceis de entender, mas, com muita paciência, entusiasmo e vontade, esta mestra conseguiu superar todos os obstáculos, até converter a «Escola Daleki» numa realidade.

A diretora basca Icíar Bollaín, gostou muito da história e decidiu realizar um filme contando-a, embora se permitisse introduzir alguns elementos que não aparecem no livro. Deslocou-se com a sua equipa ao Nepal e filmou as imagens, muitas belas de verdade, e, depois da montagem, o seu filme teve a sua estreia em fevereiro de 2012. Um dos mais interessantes temas que nos apresenta esta obra cinematográfica, e que nos pode ajudar a refletir aos docentes ocidentais, é poder ver como o meio pode afetar tanto a educação das crianças, as classes sociais, a cultura ancestral, os rituais religiosos e, muito especialmente, o injusta que é a marginação das mulheres em muitos países, como neste caso no Nepal. Um caso muito estendido por quase toda a Ásia e pelos países muçulmanos.

 

Ficha técnica do filme:

Título original: Katmandú, un espejo en el cielo (Katmandu, um espelho no céu).

Diretora: Icíar Bollaín (Espanha, 2012, 105 min., A cores).

Roteiro: Paul Laverty e I. Bollaín, baseado no livro de Vicki Subirana.

Produtora: Media Films, Es Docu, TVE, Canal Plus e TV3.

Música: Pascal Gaigne. Fotografia: António Riestra. Distribuidora: Alta Classics.

Prémios: Goya 2012 ao roteiro e interpretação de Verónica Echegi. Gaudí 2012 à mesma intérprete.

Argumento: Laia é uma jovem mestra catalã que se desloca a Katmandu, capital do Nepal, nos anos noventa, para trabalhar como voluntária numa escola local e pôr em marcha um sugestivo projeto pedagógico nos bairros mais pobres. Ali descobre uma sociedade dividida em castas e profundamente desigualitária que também se vê refletida no sistema educativo de pagamento, onde as classes sociais mais baixas estão excluídas. Precisamente é Sinamangal, o bairro mais necessitado de Katmandu, onde o anterior se manifesta mais clara e cruamente.

Depois de contrair, contra a sua vontade, um casamento de conveniência para poder legalizar a sua situação, logo se dá conta de que ademais precisa de ajuda, para fazer realidade o seu projeto educativo. Laia decide então criar a sua própria escola, com o apoio da mestra nativa Shormila, e o seu esposo, do que acaba por se apaixonar. Neste contexto, começa a aplicar as suas ideias de pedagogia transformadora. Igualmente, inicia uma viagem ao interior da sociedade nepali e, também, consegue um encontro consigo mesma.

 

 

Uma escola na terra, um espelho no céu:

Uma das grandes diferenças entre as sociedades ocidentais e as orientais, meridianamente expostas no filme de Icíar Bollaín, é que em ocidente temos de tudo e não desfrutamos de nada, e em oriente desfrutam do pouco que têm. E, muito especialmente, quando alguém como a mestra protagonista, lhes oferece mais amor, compreensão e dedicação. Em ocidente valoriza-se o «ter», o acumular riquezas sem sentido; em oriente o «ser», embora com a presença, infelizmente, de muitos preconceitos sociais, culturais, étnicos e religiosos, e com uma injusta marginalização da mulher. Como é o caso, especialmente, do Nepal, da Índia e do Bangladesh. Países em que quase nunca se recebe com alegria o nascimento de uma criança mulher, tudo o contrário que se for homem.

Pouca igualdade existe, nomeadamente no campo educativo, entre ambas as sociedades, muito antagónicas. Numa sobram mestres preparados, docentes e profissionais, recursos educativo-didáticos, estabelecimentos de ensino bem dotados com todo o tipo de serviços, e, em muitos lugares, com uma perda enorme de crianças pela baixa natalidade, por isso têm que fechar-se aulas e/ou escolas. No caso da sociedade oriental, faltam muitos mestres, falta formação inicial dos mesmos, faltam muitíssimos recursos didáticos e quase todos os serviços, e o que sobra é «matéria-prima», pois têm elemento humano, crianças, que é o elemento fundamental de uma aula ou escola.

Por terem crianças de sobra, muitas não estão escolarizadas. As razões são diversas: famílias pobres, não ter casta por serem «intocáveis», serem meninas… Por este motivo precisam de uma escola em boa hora, uma aula, mesmo que seja ao ar livre, com um mestre ou mestra que as ensine e ajude. Precisam de muitos mestres, como as duas mestras do filme, com formação e vocação pedagógicas. Muitos docentes formados que há em ocidente deveriam, como voluntários, ir ensinar às crianças de países como o Nepal e o Bangladesh.

A realizadora do filme comentou uma vez: «O meu desafio era levar para a tela do cinema a magia de dar as «chaves» de que precisam as crianças nepalis, (que podiam ser indianas, bengalis ou tibetanas), a beleza do processo de as ajudar a serem pessoas, porque, como assinala Shormila, a jovem mestra nepali, coprotagonista da história, são crianças que necessitam de «luz»». Por isso, também na carta que deixa para a mestra companheira e protagonista, Laia, lhe diz: «Tu podes ajudar muitas crianças a sair da obscuridade».

Por sorte, Laia, a protagonista, casa com um jovem nepali, para poder residir e continuar no labor, e este ajuda-a para que ela e Shormila possam abrir uma nova escola no bairro de Sinamangal, o mais pobre da cidade, em que há muitas crianças e muitas nenas sem escolarizar, que necessitam de tudo e também educação. O novo esposo diz a Laia, durante a sua viagem à região nepali de Mustang: «Este é um punhado da minha terra, o meu espelho no céu». Laia resposta-lhe: «É como entrar noutro mundo». Dias antes, assistindo a uma boda, diante do monge budista, o que ia ser o seu futuro esposo lhe diz a Laia: «Lama comentou-me que precisas de ajuda e eu quero ajudar-te…,essas crianças a que ensinas são das montanhas como eu…,quero que essas crianças tenham algo melhor que o que eu tive».

Mas, ensinar em contexto semelhante, não é um caminho de rosas, e no filme sucessivamente vão-se apresentando as dificuldades para o labor da mestra Laia. A qual, pelo menos, é ajudada pela sua companheira Shormila, pelo seu esposo e, espiritualmente, pelo monge budista, ademais de pelas suas crianças sempre alegres, entusiastas e agradecidas. Todas as dificuldades vão sendo superadas: nos primeiros momentos seguindo o conselho budista de expulsar, expirando o ar, os pensamentos negativos, e os positivos inspirando, respirando e guardando os mesmos. Sintetizando, exponho as dificuldades que vão aparecendo no desenvolvimento da ação e labor docente:

– A injusta divisão social em castas, mais complexa ainda no Nepal que na Índia, com muitas subcastas. As crianças dos intocáveis (Gandhi chamava-lhes «harijans» ou filhos de Deus), não têm direito a nada, nem a relacionarem-se com os de casta, nem a irem à escola. Laia impõe-se e assinala que todo o mundo tem direito à educação, e que os pobres não podem ser pobres para sempre, que necessitam mais que ninguém aprender a ser livres e escolher. Que hão de ser os primeiros na sua escola.

– Os preconceitos religiosos e as superstições, que atuam como um grande peso: a discriminação das nenas, o não poder tomar banho às segundas-feiras, o ter que passar 12 dias num quarto escuro sem sair, antes da primeira menstruação, as caraterísticas das oferendas nos templos respeitando umas normas impostas desde tempos imemoriais, embora não tenham muito senso e sejam anacrónicas.

– Os preconceitos sociais: as crianças que não podem frequentar as aulas porque têm que trabalhar para as famílias recolhendo areia, a falta de formação das mães, não por sua culpa, a menina adolescente que tem que ser resgatada de um bordel, com todas as dificuldades para conseguir a sua recuperação psicológica, os numerosos abortos provocados quando a criança é mulher, mesmo no caso de Shormila, a mestra nepali.

Perante tantas dificuldades, podemos concluir que «em Ocidente queixamo-nos sem razão». Poderia ser esta a chamada do filme, baseado na história real de Vicki Subirana, depois Vicki Sherpa após casar com um nepali. Com tanto entusiasmo e esforço que em 1990 chegou a criar a Fundação Eduqual, para levar adiante um projeto educativo baseado na pedagogia transformadora. Esta ONG tem como desafio uma educação de qualidade que promove mudanças positivas nas vidas dos marginados.

 

 

Temas para elaborar, debater e refletir:

– Após um intercâmbio de ideias, elaboramos uma proposta alternativa para a educação em países subdesenvolvidos. Tendo presentes os condicionantes variados dos diferentes contextos, o respeito pelos Direitos Humanos e os Direitos das Crianças. Também as estratégias da UNESCO para conseguir a extensão educativa para todas as nenas no mundo.

– Conectamos com a Fundação Eduqual, criada por Vicki Sherpa, para informar-nos das atividades que desenvolve e, especialmente, como participar na sua secção de voluntariado.

– Organizamos uma dramatização sobre alguns dos temas que aparecem no filme, uma espécie de jogo de papéis.

– Valorizamos o filme: recursos fílmicos de todo o tipo que utiliza a diretora, jogo com o espaço e o tempo, a música e a fotografia, aliás muito linda, e os movimentos de câmara. Comentamos também a interpretação dos diversos atores, tanto os profissionais como os amadores, muitos nepalis, como as crianças, que é a sua primeira atuação no cinema.

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume

Lançamento do livro Begonha Caamanho, na Corunha

Henrique Marques Samyn visita Compostela para falar sobre literatura negra brasileira

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume