Aproveitando as datas da Semana das Letras Galegas, ao redor do 17 de Maio, convém realizar atividades educativo-didáticas nos estabelecimentos de ensino de todos os níveis educativos, para que crianças e jovens recuperem a nossa memória histórica e cultural. E conheçam o que realizaram e pensavam os nossos grandes vultos, aqueles que o nosso hino denomina como “Galegos bons e generosos”, que levaram sempre a Galiza, a Nossa Terra, no coração. Para este meu depoimento, com os documentários que no seu momento realizou João Leira a eles dedicados, recupero as figuras de Alexandre Bóveda, Ângelo Casal, Isaac Diaz Pardo e Avelino Pousa Antelo. Os dous últimos tive eu a sorte de os conhecer e de contar com a sua amizade desde que pela primeira vez os conheci. Pessoas enormemente dignas que deram a sua vida e seus esforços pela Galiza.
Assinalava Castelão nos seus famosos desenhos, para honrar todos aqueles assassinados pelos fascistas nos anos da guerra, “não enterram cadáveres, enterram semente”. Todos os anos pelo 17 de agosto, celebramos o “Dia da Galiza Mártir”, pois tal dia como este de 1936 foi assassinado na Caeira pontevedresa o ilustre ourensano Alexandre Bóveda. Que simboliza de alguma maneira todos aqueles a que, de forma bárbara e injusta, lhes tiraram a vida. Esse bem tão prezado que ninguém tem direito a atentar contra ele. Gostaria eu que não voltassem jamais ao nosso país factos e guerra como aquela. Na que lutaram irmãos contra irmãos e ainda nestes tempos continuam abertas feridas por ela provocadas. Bóveda foi um ourensano exemplar de grande inteligência e sensibilidade, de grande amor pela Nossa Terra, cristão modelar que, antes de ser fuzilado, pediu comungar. E, como nunca fizera mal, pensou que aquele juízo sumaríssimo não ia decretar a sua morte, pelo que não tentou antes fugir para Portugal. Para conhecer a fundo estes factos, recomendo ler esse emocionante livro Vida, paixão e morte de Alexandre Bóveda. Que, junto com o Sempre em Galiza de Castelão, dedicado precisamente a Bóveda, todos os galegos e galegas deveriam ler alguma vez. Infelizmente, não só foi Bóveda a quem tiraram a vida os que se levantaram contra o governo republicano legítimo. A lista de galegos ilustres assassinados é tristemente longa e a de vítimas da repressão ainda mais.
Por isto, quero lembrar também o editor Ângelo Casal, do qual acertadamente Castelão chegou a dizer que ele só fizera mais pela Galiza que todos os galeguistas juntos. Editor da revista Nós, depois de sair de Ourense, onde fora criada por Risco e seus colaboradores, diretor das editoras Nós e Lar, e membro das Irmandades da Fala, foi “passeado” na paróquia arçuana de Vilantime e uns dias depois apareceu o seu corpo numa fossa da paróquia de Cacheiras. O galeguista Vítor Casas e o desenhador Camilo Diaz Valinho, amigo de Casal e pai de Isaac Diaz Pardo, perderam também a sua vida a mãos dos fascistas. No mesmo dia que Bóveda, junto com catorze republicanos, foi assassinado o médico e alcaide de Ferrol, Jaime Quintanilha.
Diaz Pardo e Pousa Antelo há pouco tempo falecidos, foram também bons e generosos. Que durante toda a sua vida realizaram pela Nossa Terra um labor profundo e não sectário. Na defesa da nossa língua, da nossa cultura e do nosso ser galego, outorgando prioridade ao seu amor pela Galiza ao longo do tempo e o que não foram sectários no labor desenvolvido, com outras pessoas e opiniões. Atitude, infelizmente, hoje pouco habitual neste noroeste peninsular, onde o livre-pensamento não vende e, portanto, não está na moda. Em primeiro lugar, quero eu destacar como galego enormemente digno Isaac Diaz Pardo, falecido à idade de 91 anos em janeiro de 2012. Quanto lhe devemos os galegos a este homem! Que levou para a frente as nossas indústrias culturais mais importantes e mais autênticas: Sargadelos, cerâmicas e edições d’O Castro, museu Carlos Maside e o Instituto Galego de Informação. Foi ele que manteve vivo o vínculo e o relacionamento com a emigração galega na América, e que conservou como um grande tesouro toda a documentação do Seminário de Estudos Galegos (SEG), que, desgraçadamente ainda não temos recuperado. E recuperá-lo seria a melhor homenagem que podíamos fazer a esta pessoa, que nos últimos tempos chegou a viver graves e injustas situações nas sociedades que criou com tanto amor à Terra.
Avelino Pousa Antelo, presidente que foi da Fundação Castelão, foi outro dos nossos homens dignos, bom e generoso que eu muito apreciava. E que conheci desde há muito tempo, pois tinha família em Carvalheda, aldeia próxima à minha de Corna, no concelho de Pinhor. O seu estupendo labor na quinta pedagógica de Barreiros, e a promoção da obra e pensamento de Castelão, merecem o nosso aplauso mais sincero. Uma das cousas que eu, pessoalmente sempre lhe agradeci, é que, graças a ele, por não ser sectário, os reintegracionistas pudemos participar em Compostela, de 24 a 29 de novembro de 1986, no Congresso Castelão, com motivo do centenário do seu nascimento, e as nossas palestras foram publicadas nas atas oficiais do congresso com a norma internacional do nosso idioma, que eu utilizo desde 1982. Ainda hoje há muitos jornais, revistas e editoras que não o consentem. O que não deixa de ser um ataque à liberdade de expressão. Este tema, quando por vezes me encontrava com ele, sempre lho comentava e lho agradecia. Este grande galego deixou-nos fisicamente a 20 de agosto de 2012. Embora a sua bondade, generosidade e galeguidade hão permanecer sempre no nossa mente e no nosso coração. Como também a dos outros três.
FICHAS TÉCNICAS DOS 4 DOCUMENTÁRIOS:
1. T.O.: Alexandre Bóveda, uma crónica da Galiza Mártir.
- Diretor: João C. P. Leira (Galiza, 2004, 57 min., a preto e branco e a cores, inclui livro e DVD).
- Roteiro: João C. P. Leira. Locutor: Luís Iglésia.
- Produtora: Acuarela Comunicación SL. (Moanha). Série: “Memória Viva”.
- Argumento: Documentário biográfico sobre Alexandre Bóveda Iglésias. Na Galiza dos anos 30 nasce o movimento operário organizado, a consolidação dos partidos políticos de esquerda e a constituição do Partido Galeguista (PG). O golpe de estado contra a República trunca esta evolução. Também acaba com a vida de Bóveda, o galeguista que protagonizou a chegada da 2ª República, a constituição do PG, a criação do Estatuto de Autonomia e o triunfo eleitoral da Frente Popular nas eleições de 1936. Sobre a figura de Bóveda, ademais de seu filho, são entrevistadas várias personalidades galegas.
2. T.O.: Ângelo Casal, a luz impressa.
- Diretor: João C. P. Leira (Galiza, 2005, 57 min., a preto e branco e a cores, inclui livro e DVD).
- Roteiro: João C. P. Leira e José Luís Abalo, que colabora na fotografia.
- Produtora: Acuarela Comunicación SL. (Moanha). Série: “Memória Viva”.
- Pessoas entrevistadas: Luís Tobio, Isla Couto, Francisco Comesanha, Arturo Quadrado, Antão Fráguas, Isaac Diaz Pardo e a sobrinha da mulher de Casal Mª Pilar Miramontes.
- Argumento: Ângelo Casal foi um militante galeguista, editor, alcaide de Compostela, assassinado pelos fascistas numa gávia de Cacheiras (Teo) em 19 de agosto de 1936, quando era alcaide na capital da Galiza. Ademais de seu trabalho como político galeguista, Casal levou a cabo um importante labor editorial, fundando a editorial “Lar” e a imprensa “Nós”, depois também editora, que deu ao prelo obras já clássicas da literatura galega (de Otero, Risco, Castelão, Cunqueiro, Manoel António, Vilar Ponte, Cabanilhas, Blanco Amor, Amado Carvalho, Vítor Casas e até Filgueira Valverde), sendo ilustradas muitas por Seoane, Camilo Diaz Valinho e Carlos Maside. O seu labor como normalizador da língua galega esteve também vinculado ao âmbito da educação, e impulsionou as primeiras escolas do ensino em galego. No documentário recuperam-se materiais visuais conservados sobre ele e a sua mulher Maria Miramontes Mato.
3. T.O.: Lembranças e reflexões de Isaac Diaz pardo.
- Diretor: João C. P. Leira (Galiza, 2007, 27 min., a preto e branco e a cores, inclui livro e DVD).
- Roteiro: João C. P. Leira. Colaboração fotográfica: José Luís Abalo.
- Digitalização: Valentim Caamanho Paz e Romina Doce.
- Documentação: Sara Pequenho Salgueiro.
- Produtora: Acuarela Comunicación SL. (Moanha). Série: “Memória Viva”.
- Pessoas entrevistadas: O protagonista Isaac Diaz Pardo, seus filhos José e Camilo Diaz Arias, Mariví Villaverde e até o inefável Alonso Montero.
- Argumento: A vida e a obra de Diaz Pardo, contada por ele e pelos seus colaboradores. Nascido em 1920, em 1936 os fascistas assassinam seu pai, o desenhador galeguista Camilo Diaz Valinho. A sua família sofreu a repressão. Pintor e ceramista, em 1955 viajou pela primeira vez à Argentina, e com Luís Seoane concebeu a criação de empresas recuperadoras da Galiza, convertidas mais tarde em realidade: o Museu Carlos Maside, Edições d’O Castro, o Instituto Galego da Informação e o restaurado complexo de Sargadelos com o seu Seminário de Investigação. O documentário é a primeira aproximação audiovisual sobre a vida e a obra plástica, cultural, produtiva e política de uma das personalidades mais significativas da nossa história.
4. T.O.: Lembranças e reflexões de Pousa Antelo.
- Diretor: João C. P. Leira (Galiza, 2009, 27 min., a preto e branco e a cores, inclui livro e DVD).
- Roteiro: João C. P. Leira.
- Produtora: Acuarela Comunicación SL. (Moanha). Série: “Memória Viva”.
- Pessoas entrevistadas: O protagonista Avelino Pousa Antelo e outras personalidades.
- Argumento: Um percurso audiovisual pela vida e obra deste destacado intelectual, político e educador galego. Um homem que considerou a Galiza como “uma tarefa urgente, para o que fazem falta muitos folgos e muita entrega”. Um mestre com uma longa trajetória vital, a qual abrangeu diversos momentos históricos de grandíssima importância para a Galiza, como são o xurdimento da II República, a Guerra Civil (com a sua posterior repressão), ou a Transição. Realmente estamos perante uma figura a que não deveriam ser alheios os moços e moças que mostrem inquedanças pela educação e pela realidade política e social do nosso país.
QUATRO GALEGOS BONS E GENEROSOS:
1. Alexandre Bóveda :
Nasceu em Ourense em 4 de junho de 1903 e foi fuzilado na Caeira (Poio) no dia 17 de agosto de 1936. Bóveda foi um dos intelectuais galeguistas mais destacado da Segunda República na Galiza, chegando a ser o verdadeiro motor do Partido Galeguista (PG), tal como bem assinalou Castelão. Desde criança dedicou-se ao estudo da contabilidade e do idioma francês. Estudou por livre na Escola de Comércio da Corunha, para fazer-se perito mercantil, ao mesmo tempo de dar aulas num colégio ourensano. Gostava muito da revista “Nós”, que lia assiduamente e escreveu para o jornal “La Zarpa” de Basílio Álvarez, onde demonstrou a sua capacidade para comunicar, que manteve sempre, tanto por oral, como por escrito. Em 1924, em Madrid, concorreu para chefe das finanças do Estado e conseguiu o número um. Calvo Sotelo, que naquela altura era ministro, ofereceu-lhe um lugar no Comité de Intervenção de Câmbios. Bóveda não aceitou e voltou para a sua Galiza para desenvolver o seu labor na delegação das Finanças de Ourense. Ao aprovar outros concursos foi para Ponte Vedra, onde com 23 anos de idade ocupou o lugar de Chefe de Contabilidade. Nesta cidade, participando em debates-papo no Café “Mendes Nunes”, conheceu Castelão e Lousada Diéguez, dos quais se fez muito amigo e colaborou nas suas atividades galeguistas, entrando assim na política do momento. Na Coral Polifónica pontevedresa conheceu a que ia ser a sua esposa Amália Álvarez Gallego, filha de Gerardo Álvarez Limeses, com a qual casou no mosteiro de S. João de Poio a 20 de outubro de 1930. Com ela teve cinco filhos. Nesse mesmo ano vai converter-se no primeiro diretor da Caixa de Aforros Provincial de Ponte Vedra. Já antes, em 1928 e 1929, recebera uma bolsa da Deputação pontevedresa para viajar a Barcelona e Guipúscoa e conhecer melhor o funcionamento das Caixas de Aforros ou Poupanças. Em 1932 participou na Assembleia pré-estatuto da Galiza que se celebrou em Compostela, resultando eleito para formar parte da comissão redatora do mesmo. Teve um papel muito ativo na sua redação e na assembleia de Municípios galegos, que foi criada para debatê-lo. Em 1933 foi eleito membro do Comité da Autonomia presidido por Bibiano Fernández Osório Tafall. Em 20 de outubro de 1934, por um diploma ministerial foi destinado à força para a Delegação das Finanças de Cádis, voltando para Galiza em 1935, ao obter uma nova vaga em Vigo. Em 1936 participou na campanha eleitoral, como candidato do PG dentro da Frente Popular pela província de Ourense. Enquanto, tomava também posse dum novo cargo na delegação pontevedresa das Finanças. Em 20 de julho de 1936, dous dias depois do golpe de estado franquista, foi detido acusado de traição, e depois dum infame processo sumaríssimo celebrado em 13 de agosto, foi condenado a ser fuzilado. A sentença foi executada em 17 de agosto, ficando esta data como o “Dia da Galiza Mártir”, na sua honra e na de muitos outros barbaramente fuzilados e assassinados. Todos os galegos e galegas deveriam ler esse formoso livro intitulado Vida, paixão e morte de Alexandre Bóveda, em que se recolhe a sua vida e o injusto processo a que foi submetido. A sua leitura é muito recomendável para conhecer tudo o que se passou e a grande dignidade de um dos vultos mais importantes da Nossa Terra.
2. Ângelo Casal:
Nasceu em Betanços em 17 de dezembro de 1895 e foi assassinado pelos fascistas em Cacheiras (Teu) no dia 19 de agosto de 1936, dous dias depois de ser fuzilado Bóveda. Casal foi um muito importante editor de obras em galego e um destacado político galeguista. Em 1909 emigrou para a Argentina. Durante dous anos, como empregado na cidade de Buenos Aires, exerceu diversos ofícios. Voltou para a Corunha e trabalhou no consulado da França. Por problemas económicos voltou a emigrar, desta vez para a cidade gala de Bordéus, da qual regressou aos poucos meses. De 1914 a 1917 cumpriu o serviço militar, do qual sempre guardou tristes lembranças. Juntou-se à Irmandade da Fala da Corunha, colaborou no Conservatório da Arte Galega e foi o promotor e primeiro mestre da Escola do Ensino Galego, galeguista e laica, pertencente às Irmandades entre 1926 e 1931, sendo a primeira de todas que utilizou o galego como língua veicular. Em 1920 casou com Maria Miramontes Mato, e para sobreviverem abriram uma loja de tecidos. Em colaboração com Leandro Carré Alvarelhos, em novembro de 1924 fundou a editorial “Lar”, para, em 1927, depois de deixar esta, criar a editorial “Nós”. Do seu prelo saíram as revistas A Nossa Terra e Nós. Em 1930 fundou o jornal republicano El Momento, que, ausente de apoios, só durou 14 números e quase que levou a desaparecer a Nós. Para tratar de recuperar a empresa, em 1931 deslocou-se para Compostela. A sua atividade como livreiro e impressor é fundamental para explicar o desenvolvimento do galeguismo entre os moços compostelanos. Com o seu prelo trabalhou para os sindicatos e os republicanos, ganhando um grande respeito daqueles grupos que constituíram em 1935 a Frente Popular. Continuou ali a imprimir e colaborar em diversas iniciativas republicanas, galeguistas e sindicalistas. Foi também o editor e impressor das revistas vanguardistas “Claridad” (1934) e “Ser” (1935).
No mesmo momento de criar-se o PG entrou como militante. Foi alcaide de Compostela eleito por maioria entre os membros da Comissão gestora de fevereiro a 9 de julho de 1936, dia em que com todos os concelheiros galeguistas demitiram dos seus cargos. Foi também vice-presidente da Deputação corunhesa e do comité executivo para o Estatuto de Autonomia da Galiza, desenvolvendo um grande labor e atividade entusiasta para que fosse aprovado. No seu papel de alcaide vai impulsionar a iniciativa de Álvaro das Casas para criar a Associação de Escritores da Galiza. Em 16 de julho de 1936 faz entrega nas Cortes do texto estatutário aprovado em 28 de junho de 1936. Regressa a Compostela ao conhecer as notícias do golpe franquista, reincorporando-se no dia 19 à alcaidia para impedir o sucesso do golpe e organizar a resistência ao mesmo. Por desgraça na Galiza triunfa a sublevação militar e Casal foge para a paróquia de Vilantime na Arçua. Em 4 de agosto é detido e em 19 de agosto aparece o seu corpo num fojo da estrada de Cacheiras em Teu, vilmente assassinado pelos fascistas, junto também com José Areosa Devesa. Hoje, no mesmo lugar onde lhe tiraram a vida, existe um monólito na sua lembrança. Em 2006 estava proposto na RAG para dedicar-lhe o Dia das Letras Galegas nesse ano, por ser o Ano da Memória Histórica. Uma vez mais a maioria dos académicos não apoiou tal nomeação, demonstrando o que já é habitual na Academia da rua corunhesa das Tabernas. Castelão chegou a dizer: “Fez mais Casal pela Galiza que todos nós juntos”.
3. Isaac Díaz Pardo:
Nasceu em Compostela em 22 de agosto de 1920 e faleceu na Corunha em 5 de janeiro de 2012. Foi um importante intelectual galeguista, pintor, ceramista, desenhador, editor e empresário. Em 2009 recebeu a medalha de ouro ao mérito nas Belas Artes. Filho do pintor e cenógrafo Camilo Diaz Valinho, vilmente assassinado em 1936 pelos fascistas, viveu de rapaz na sua casa interessantes experiências, e, entre elas, as diversas juntanças das Irmandades da Fala, pois seu pai pertencia às mesmas, sendo um membro muito ativo, e nas quais participaram Castelão, Risco, Otero, Cabanilhas, Vilar Ponte, Blanco Amor e o escultor Assorei. Depois de ser assassinado seu pai, Isaac teve que esconder-se num primeiro momento na casa de seu tio Indalécio na Corunha e depois trabalhou como rotulador na mesma cidade.Entre 1939 e 1942, com uma Bolsa da Deputação corunhesa, realizou estudos em Madrid na Academia de Belas Artes de S. Fernando. Já com o título correspondente foi professor em Barcelona na Academia Catalã de Belas Artes de S. Jorge, e expôs a sua obra na Corunha, Madrid e Vigo e também em várias cidades da Europa e América. Por um tempo deixou as artes plásticas para dedicar-se à cerâmica. Com vários sócios amigos fundou no Castro de Samoedo em Sada a fábrica de Cerâmicas do Castro, ensaiando com matéria-primas usadas nas primitivas cerâmicas de Sargadelos em Cervo, criadas no século XIX por António Raimundo Ibáñez Llano e Valdés, conseguindo uma cerâmica de grande qualidade. Em 1963, junto com destacados galeguistas como Luís Seoane, criou na Argentina o Laboratório de Formas, precursor de outras atividades industriais e culturais como o restauro da produção de cerâmica de Sargadelos, em colaboração com Cerâmicas do Castro (1963), Museu de Carlos Maside (1970), Edições do Castro (1973), o restaurado Seminário de Estudos Galegos-SEG (1970) e o Instituto Galego de Informação. Dirigindo e administrando o Grupo Sargadelos, a sua faceta mais conhecida e a que marcaria os seus últimos anos, começou a ter muitos problemas, chegando a ser injustamente apartado da direção e administração do grupo.
Como escritor de ensaio e crítica, destacam os seus livros Gente do meu Rueiro, O ângulo de pedra, Paco Pijinhas (em colaboração com Celso Emílio Ferreiro), O Marquês de Sargadelos, Castelão e, colaborando com Luís Seoane, Galiza hoje, editado em Paris pelo Ruedo Ibérico e durante muitos anos proibido no nosso país. Foi Diaz Pardo também um importante polígrafo, articulista em diversos jornais galegos, importante criador de formosos cartazes e um grande defensor da lusofonia nas últimas décadas da sua vida. Sob o título de Homenagem a Diaz Pardo, a AGAL dedicou-lhe um livro, em que tive a bem colaborar eu também com um depoimento sobre a sua importante figura e a sua dignidade de grande galego. Eu tive a sorte de o conhecer já na década de 80, quando nos seus locais de O Castro-Sada, com a ASPGP, organizávamos escolas de verão para docentes, e quando editamos vários números de O Ensino e Temas de O ensino no seu prelo. Contei sempre com a sua amizade e admirei-o sempre como grande pessoa que era.
4. Avelino Pousa Antelo:
Nasceu em Arçom-Banha no dia 14 de maio de 1914 e faleceu em Teu em 20 de agosto de 2012. Foi um destacado mestre, agrarista, político, escritor de profunda alma galeguista e, durante muitos anos, presidente da Fundação Castelão, que levou sempre com uma grande dignidade e sem sectarismos. A sua mãe era da Banha e seu pai um comerciante itinerante da comarca do Carvalhinho. Estudou durante cinco anos no Seminário de Compostela. Em 10 de maio de 1931 assistiu ao comício de promoção galega que teve lugar no Teatro Principal compostelano, no qual participaram os principais líderes galeguistas do momento. Tal como ele mesmo comentou no seu dia, esse facto e, especialmente, o discurso de Castelão, marcou-o politicamente para toda a sua vida posterior, militando sempre no galeguismo desde então. Depois de sair do seminário, ingressou na Escola Normal de Compostela para fazer-se mestre, ao tempo que militava nas Mocidades Galeguistas e começava a escrever para o jornal A Voz de Barcala. Em 1936 aprovou o concurso para mestres, mas, infelizmente, a guerra civil provocou que não pudesse exercer no lugar que tinha ganho, dado que o regime fascista anulou aqueles concursos. Mais tarde estudou na Missão Biológica da Galiza e desde 1948, com 34 anos, dirigiu a Escola Agrícola da Granja de Barreiros, fundada por António Fernández López, na qual se organizavam cursos de formação agropecuária para mestres do rural. Entre 1955 e 1960 foi mestre e Técnico Agrícola do Laboratório do Cabido Insular na Orotava em Tenerife. Em 1969 trabalhou brevemente na Galiza para uma empresa de semente, até que conseguiu um trabalho em Saragoça como diretor de uma empresa cooperativa pecuária. Em 1970 voltou para a sua Galiza como mestre em Ponte Cesuras. Com o falecimento do ditador Franco, somou-se às iniciativas para recuperar o antigo Partido Galeguista (PG), e em 1978 participou na constituição da nova força galeguista, com o seu antigo nome, de que foi eleito secretário-geral, e pouco depois, em 1983, presidente do mesmo. Em 1963 conseguira o Prémio jornalístico Ramom Mourente de temas agrários. Ao ano seguinte o prémio “Luis Sánchez Harguindei” também de temas agrários. A Associação Galega de Cooperativas Agrárias outorgou-lhe em 1998 a insígnia de ouro e esmalte da União Cooperativa. Em 2000 a USC concedeu-lhe a sua insígnia de ouro, e em 2010 conseguiu o Prémio Galiza Mártir da Fundação Alexandre Bóveda. Escreveu vários e interessantes livros de ensaios, entre os que destacamos os seguintes: Temas de agricultura (Lugo, 1951), Estudo de uma cooperativa de exploração comunitária para uma paróquia rural galega (Galaxia, 1968), Reforma das estruturas agrarias da Galiza (Corunha, 1973), A Escola agrícola da Granja de Barreiros (Ed. de O Castro, 1988), Fiestra (Ed. Compostela, 1992), Galiza, tarefa urgente (Sotelo Blanco, 1992) e O entroido em Perruscalhos (teatro infantil, Silheda, 2002). Participou também em diversas e interessantes obras coletivas. Valentim Árias escreveu uma interessante biografia intitulada Avelino Pousa Antelo. Galeguista, docente, cooperativista, escritor, político e animador cultural, que foi publicada por Ir Indo em 2004. Em 1991, em edições do Castro, J. Amáncio Linhares Giraut publicou um interessante livro sob o título de Conversas com Avelino Pousa Antelo: memórias dum galego inconformista.
Eu tive também a grande sorte de contar com a sua inestimável amizade, e sempre admirei nele que não fosse sectário, como por desgraça são demasiados galegos e galegas.
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Utilizando a técnica de dinâmica de grupos do Cinema-fórum, analisar o fundo e a forma dos 4 documentários acima resenhados realizados por J. Leira e dedicados a Bóveda, Casal, Diaz Pardo e Pousa Antelo.
Organizar nos estabelecimentos de ensino galegos dos diferentes níveis, sob o título de “Memória Viva da Galiza”, amostras dedicadas aos 4 grandes galeguistas bons e generosos antes mencionados. Para organizá-las pode procurar-se informação na internet, em livros e em bibliotecas. Ditas amostras devem enriquecer-se com fotos, textos dos escolares, frases, textos dos 4 autores, cartazes, livros da sua autoria, desenhos, retalhos de imprensa e outros motivos. Podemos elaborar, ao estilo das monografias da Biblioteca do Trabalho de Freinet, cadernos sobre estos autores, que podem ser editados ou policopiados.
Se possível, podem organizar-se com os estudantes roteiros e excursões a aqueles lugares relacionados com as personagens acima citadas: Castro, Sargadelos, Banha, Corunha, Compostela, Ponte Vedra, Ourense, Cacheiras, Caeira, etc.
