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Materna Doçura, resenha de Carlos Quiroga

Carlos Quiroga – Alguns livros movem e comovem, e este será sempre um desses livros. Não sendo procedente resenhar obras de amigos, tratarei de circunstanciar e remontar à altura de lê-lo –quando não conhecia o autor. Foi numa das antigas descidas a Lisboa, que sempre deixava espaço para a recolha de aparições, numa tentativa impossível de acompanhar o pulso das letras.

Assim peguei nas 300 páginas de A Materna Doçura, primeiro romance de um tal Possidónio Cachapa, nome que nesse momento achei improvável –tanto como o de Perfecto Cuadrado, e no entanto ambos existem, e no entanto até um dia teria que apresentar ambos por junto em Santiago. Naquela altura, comprei o livro com algo de dever e muito de suspeita. Mas comecei a ler e fascinar-me, ritmo no contar e incongruência no contado. Fascínio no cuidado com que usava a língua e fascínio no assunto de que ela falava, precisamente por onde menos estava à espera –com um nome daqueles na capa. Amores de filhos por mães, de mães por filhos, amores também de pais e de filhos por eles, pais e mães de carne ou de escolha, filhos genéticos ou de fato, amores da carne entre mães e filhos. Cinema de arte pornográfica. E ternura. Uma mistura que comigo não podia dar certo, mas que dava, como deu com milhares de leitores. O livro começou a ser sucesso logo nos primeiros meses e tornou-se leitura obrigatória de “quem pretendesse conhecer a última geração de ficcionistas portugueses”. Ainda é leitura obrigatória.

O romance, dividido em três partes, inicia-se com o protagonista, Sacha, o dos olhos azuis, a entrar na prisão por ter feito em videocassetes filmes considerados pornográficos ou incestuosos sobre a relação mãe-filho. Não havendo cenas explicitamente sexuais, aparecem aí jovens nus abraçando ou passeando ao pé das mães grávidas, também despidas. Um narrador onisciente vai-nos oferecendo toda a vida do protagonista, marcado pela perda da mãe verdadeira, em longas analepses. O relato focaliza na ternura, nos afetos, na «materna doçura», procurada em todas as mulheres que ama Sacha, mesmo naquela com quem casa e descasa, toda a sua intensidade enunciadora.

Uma praia atlântica, a casa de putas, um tribunal, Bordéus, Paris, são cenários minuciosos (portentoso mergulho no submundo da capital francesa) por onde somos hipnoticamente guiados no seguimento da personagem protagonista, que adorava a mãe e um dia, ainda criança, matou o padrasto quando este a espancava. Outro homem, ligado à mãe e chamado ‘o Professor’, salva-o da casa de correção e dá-lhe o afeto e amor de pai. Porque há irredimíveis solteirões que podem amar como ninguém os filhos que não tiveram, assim como há grandes mães pretas que iluminam os bordéis lotados por filhas carentes. Enfim, Sacha perde o norte, vive na França, anda com várias mulheres, ganha dinheiro, gasta dinheiro, conhece orgias. E chega a viver na rua. Só quando Sacha é pai, e tem um filho, e brinca com ele, é que se acalma. E se instala em Sacha e no mundo a serenidade da imagem maternal. A beleza do livro é por vezes violenta. O risco do pornográfico é apenas anedota –porque contornado pela ternura. E pela nobreza da escrita. Transgressão. Ironia. Afetos. Amor. Até tudo valer a pena.

O livro devora-se num crescendo de intensidade, mas é tempo de dar uma amostra:

«Sacha G. não chegou a rei da pornografia aos vinte anos, como se costuma dizer. Pelo contrário: tinha mais de trinta, um casamento arruinado e muitas dívidas, quando teve a ideia de se dedicar à Pornografia Maternal. Nunca se soube ao certo quem inventou esta designação. Mas, fosse lá quem fosse, ele não lhe dava grande importância. Nesses tempos, estava longe de considerar o sexo como verdadeiramente interessante. Daí que a palavra ‘pornografia’ não fizesse parte do seu vocabulário. Sentia, contudo, pela expressão ‘Maternal’, um certo carinho.

Logo, quando lhe apareceu esta ideia de filmar homens, a rodar nus, à volta do corpo lânguido e acolhedor das mães, não viu nisso nada de estranho. Afinal fora o que ele fizera nos trinta anos da sua experiência: girar à volta do seio materno. Pareceu-lhe ser apenas a consagração do mais interdito dos interditos ou, se preferirem, a mais natural das coisas proibidas.

Diz-se que o que mais chocou as pessoas foram as imagens dos rapazes impúberes deitados sobre o ventre de mulheres grávidas e doces. Mas não eram todos rapazes: a maioria já navegava pela idade adulta, havia tempo. O que eles eram, eram todos Filhos.

Consta que os espectadores choravam ao ver os filmes. A curiosidade lúbrica que os levara, às escondidas, ao cinema, transformava-se num pranto antigo e inexplicável. À noite, os homens adormeciam encolhidos, em posição fetal, enquanto as mulheres os amparavam no seu seio, embalados numa música infantil que cada um deles imaginava diferente.»

O escritor português Possidónio Cachapa existe mesmo e como tal, alentejano, Évora, 1965. Foi para os Açores aos 15 anos, onde concluiu o ensino liceal. Regressou ao continente e licenciou-se em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa. Colaborou em projetos jornalísticos e televisivos já nessa altura, mas acabou por partir para a Suíça, onde viveu durante 6 anos. Aí, para além de lecionar Literatura Portuguesa, foi dando forma ao que seriam os seus primeiros relatos: O Nylon da Minha Aldeia e A Voz Terrível. De regresso a Portugal, entra na escrita de argumentos e na realização, sendo-lhe atribuída, em 1996, a bolsa do Ministério da Cultura, que daria lugar, em 1998, ao romance A Materna Doçura. Como assistente de realização, e por conta do documentário Sete Mares, percorreu países como o Egipto, Israel e a Jordânia.

Com um curso da Escola Técnica de Imagem e Comunicação, concretizou o sonhos de olhar o mundo por trás de uma câmara. Exerceu a docência da disciplina de Português no Colégio Moderno, tendo depois enveredado pelas aulas de formação para formadores. Em 2000 publica Viagem ao Coração dos Pássaros, adaptado depois ao cinema. Como dramaturgo, estréia Shalom ao amparo da capitalidade cultural do Porto 2001, e no ano a seguir outro romance, O Mar Por Cima. Autor também do sugestivo Segura-te ao meu peito em chamas, contos, 2004. Argumentista, viageiro empedernido, realizador de diversos programas, documentários e filmes, cronista do Jornal de Letras, colaborador do DNA, entre outros, reuniu crónicas em O meu querido Titanic (2005) e publicou mais dois romances, Rio da Glória (2006) e O Mundo Branco do Rapaz-Coelho (2009).

Possidónio Cachapa é bom escritor –e mesmo um bom tipo.

 

 

Carlos Quiroga,(Escairom -Terra de Lemos-, 1961])

Actualmente é escritor e professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago de Compostela, membro da direcçom da Associaçom de Escritores em Língua Galega, membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e ex-director da revista Agália.

Publicou G.O.N.G. -mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado (1999), Periferias (1999, Prémio Carvalho Calero de narrativa, publicado em Brasil em 2006), A Espera Crepuscular (2002, primeira parte da trilogia Viagem ao Cabo Nom), Il Castello nello Stagno di Antela – O Castelo da Lagoa de Antela (2004, Prémio de Teatro infantil na Mostra de Ferrol-Terra em 1988, publicado na Itália em galego e italiano), O Regresso a Arder (2005, terceira parte de Viagem ao Cabo Nom), Inxalá (2006, Prémio Carvalho Calero de narrativa), Venezianas (2007). Fundou e dirigiu a revista galega O mono da tinta.

Bolseiro de investigaçom da Fundaçom Calouste Gulbenkian (1991-92), do actual Instituo Camões (1992-93), e da Universittà Italiana per Stranieri (1983), foi prémio extraordinário de doutorado, professor de Língua e Literatura Galegas, e o primeiro professor de Português em E.O.I. na Galiza, antes de trabalhar na universidade.

 

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