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Manuí: «Desde seu início, o povo soube narrar histórias»

José Carlos da Silva – O Espaço Brasil conversou com os integrantes do grupo Manuí, Leandro Pfeifer (32 anos, músico e produtor cultural) e Tatiana Vilela Zalla (34 anos, atriz e produtora cultural), em razão do lançamento de dois importantes discos para a cultura tradicional brasileira: Nhemonguatá e Ecos da Paulistânia.

O CD Ecos da Paulistânia é uma viagem literário-musical pela formação da população do Estado de São Paulo e de sua rica cultura, partindo do Brasil colônia. Este disco teve apoio do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e patrocínio da Usiminas.

Os artistas que começaram como Cia Duberrô, hoje são Manuí. Nesta entrevista, eles explicam as razões desta mudança, as parcerias com importantes nomes da música brasileira entre outros assuntos.

– Em 2012 vocês completam 10 anos de estrada e lançam o primeiro CD, Nhemonguatá. Peço que expliquem um pouco essa trajetória e falem do significado do CD?

Em algumas tradições indígenas quando acontece algo muito especial na vida de alguém esta pessoa ganha um novo nome que tem a ver com este acontecimento, o mesmo aconteceu conosco, após completar 10 anos como Cia. Duberrô, a partir do CD Nhemonguatá, do encontro com escritor Kaká Werá há alguns anos e com o diretor deste trabalho Toninho Carrasqueira, estamos renascendo em: Manuí!
Manuí é o beija-flor que na tradição tupi faz a ponte entre os mundos visível e invisível, o que, aliás, nos parece muito apropriado para a arte de contar histórias. Qualquer história? Não, as histórias que vêm de dentro.
Aliás, Nhemonguatá significa “tirar histórias que vêm de dentro”. Através desses encontros e desse renascimento descobrimos que nosso trabalho principal é revelar as histórias dos povos da nossa terra, do Brasil, aquelas que nos encantam, que nos tocam, que nos narram!

– O projeto e CD Ecos da Paulistânia são verdadeiras viagens pela história de São Paulo e, ao mesmo tempo, muito moderno (podendo ser classificado como “Word Music”).  Como foi a elaboração desse trabalho? Inclusive com as contribuições de Fernando Brant, Tiso, Braz da Viola, Ivan Vivela e outros.

O projeto do CD Ecos da Paulistânia nasce do desejo de divulgar histórias, estilos musicais e sonoridades que revelam aspectos fundamentais da formação dessa área cultural, da qual pertencemos, denominada pelos escritores Antônio Candido e Darcy Ribeiro como Paulistânia. Segundo Ivan Vilela que nos honrou com o texto inicial do encarte desse trabalho:

“À revelia das imposições culturais feitas, outrora pela elite e hoje pela mídia, o povo do Brasil, desde seu início, soube narrar sua história através do canto, do bater e do tocar seus instrumentos. E a música popular se fez cronista dos acontecimentos que não foram registrados por outras vias, ou por descuido ou mesmo porque a história que aprendemos é sempre a história dos que detinham o controle dos meios administrativos e de difusão de sua própria cultura.”

As palavras do Ivan refletem a vivência de inúmeros artistas, pesquisadores e interessados na temática como nós que “garimpamos” bibliografias, trabalhos fonográficos que realmente contem e cantem histórias relevantes ocorridas no chão que pisamos, dos nossos heróis e anti-heróis, dos encontros e desencontros que nos revelam como pertencentes à um fio histórico, para que possamos continuar desenrolando esse carretel conscientes de onde viemos.

Para concretizar e destacar algumas dessas músicas e histórias com a profundidade desejada e merecida transitamos entre algumas sonoridades tradicionais como a Folia de Reis, o Jongo, o Moçambique, Musicas Guarani através do contato com mestres da cultura popular e também revelamos como esse universo cultural dialoga com nossa criação artística contemporânea através dos trabalhos autorais e interpretações, nossas e dos outros integrantes do grupo (Domingos de Salvi – viola caipira, Rosângela Macedo –voz, Felipe soares – acordeom e Melina Cabral – percussão e voz). Interpretamos também, obras de grandes compositores e poetas como Wagner Tiso e Fernando Brant, Geraldo Filme, Juraildes da Cruz, Lourival dos Santos, entre outros.

A direção musical do mestre Toninho Carrasqueira, arranjos de Adail Fernandes e participações de inúmeros músicos desde rabeca e violoncelo, timbres de bandas de coreto, batuques do sudeste, coros de crianças, etc. foram o toque fundamental de experiência e sensibilidade e o colorido de timbres necessários para unir todos esses objetivos e contemplar toda essa diversidade.

 

– Vocês fizeram uma temporada de lançamento dos dois CDs no litoral paulista, como foi a receptividade do público e crítica?

A receptividade foi bem acima das nossas expectativas, podemos afirmar que as pessoas querem saber mais sobre a cosmovisão e as histórias indígenas no caso do CD Nhemonguatá e também se apropriar de histórias, ritmos, sonoridades que revelam aspectos relevantes da formação dessa área cultural denominada Paulistânia no caso do CD Ecos da Paulistânia.

– Em relação à carreira internacional, principalmente nos países da Lusofonia, vocês já têm alguma agenda montada? Se não tiverem: o que está faltando para isto?

Acabamos de lançar os dois trabalho e almejamos revelar para os países da Lusofonia. Porém, ainda não recebemos ainda o convite para eventos em outros países.

– Na opinião de vocês, qual é a contribuição que este trabalho de “contação” (e cantação) de história pode dar, principalmente ao público mais jovem e mais “tecnológico”?

Acreditamos que devemos nos apropriar cada vez mais das tecnologias disponíveis para divulgar e dar opções aos jovens que transitam por esses meios tão fascinantes, oferecendo opções culturais diversas. Sem dúvida, um dos focos do nosso trabalho é reinventar as maneiras tradicionais de contar e cantar histórias através dos inúmeros recursos disponíveis em uma produção fonográfica contemporânea. Mas é claro, inspirados na essência presente nos momentos em que ouvimos ao pé de uma fogueira, existe tecnologia que tenha essa capacidade de silenciar nossas mentes para ouvir uma história? Seria essa uma tecnologia ancestral?

 

 

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