José Paz Rodrigues (*) – Um dos experimentos pedagógicos mais interessantes foi o que desenvolveu durante vinte anos da sua vida, de 1947 a 1967, o sacerdote italiano Lorenzo Milani. Criando uma escola inovadora a tempo realmente completo em Calenzano primeiro, durante menos tempo, e logo já na sua paróquia de Barbiana, perto de Florença.
É esta uma escola diferente, vinculada a rapazes que foram expulsos ou humilhados polo sistema educativo vigente na Itália daquela altura. Milani estava convencido de que a principal causa da desigualdade social era o desnível cultural, o manejo ou não da palavra, a abertura ou fechadura da mente, a possessão ou não de capacidade crítica e a falta de recursos. Partindo desta ideia, elaborou um plano didático muito original a desenvolver na sua escola, com um horário de 10 horas diárias de aulas, durante os 365 dias do ano. Para os rapazes filhos de labregos e operários da zona.
A metodologia que empregava era muito ativa, lúdica, atrativa, não aborrecida, favorecendo a participação dos escolares em todas as atividades. Dava muita importância à leitura reflexiva e crítica. Por isso todos os dias na aula, os estudantes e o mestre, liam os jornais e comentavam em debate-papo (tertúlia) as notícias, artigos e reportagens. Para aprender idiomas, Milani organizava nas férias viagens e estadas no estrangeiro para os seus alunos. Escrito por vários dos seus discípulos, em maio de 1967 foi publicado o famoso livro, logo traduzido para muitos idiomas, e com grande repercussão, Carta a uma mestra, em que se denuncia o insucesso da escola e os métodos educativos usados nas aulas, assim como a discriminação dos estudantes das classes sociais desfavorecidas.
Em 1994 e 1997 foram realizados dous interessantes documentários, dedicados a Milani e a sua escola, que hoje comentamos neste artigo. À morte do pedagogo, polo seu expresso desejo, a escola que criara deixou de funcionar. No local tão só se conserva a biblioteca e a casa das aulas. Milani estava convencido de que ao faltar ele a sua pedagogia não podia continuar com o seu modelo educativo e exclusivo. Graças ao labor de um dos seus admiradores, José Luis Corzo, em Salamanca existe um grupo pedagógico milaniano muito ativo, que publica periodicamente uma revista titulada Educar-nos, da qual eu sou assinante.
Fichas Técnicas dos dous Documentários:
1.- Título original: Adieu, Barbiana (Adeus Barbiana/Adiós, Barbiana)
Diretor: Bernard Kleindienst (França, 1994, 60 min., a cores e a preto e branco)
Argumento: Antigos alunos da Escola de Barbiana, na Toscana italiana, são entrevistados para que comentem a sua experiência como estudantes da escola de Milani, e os trabalhos que depois chegaram a desempenhar. No filme aparecem também entrevistadas outras pessoas, como o cineasta Pasolini. E antigas cenas da escola, em que aparecem Milani com os seus alunos realizando diversas atividades educativas.
2.-Título original: Don Milani, Il Priore de Barbiana (O Mestre de Barbiana/El profesor de Barbiana)
Diretores: Andrea e Antonio Frazzi (Itália, 1997, 150 min., a cores). Produtora: RAI.
Argumento: Vida e obra do sacerdote e educador Lorenzo Milani (1923-1967), interpretado polo ator Sergio Castellito. Desde os seus anos de padre e mestre na escola de Barbiana, até a sua morte em 1967, por leucemia, no hospital de Florença. O filme mostra a vertente mais humana do sacerdote-pedagogo. Está baseado em factos reais.
A amorosidade pedagógica posta ao serviço dos mais pobres :
Milani situa-se frente ao insucesso escolar dos pobres e funda a escola de Barbiana, para suprir as deficiências da escolaridade pública e as carências familiares dos rapazes do campo. No livro acima citado denuncia-se o classismo do sistema escolar e fazem-se propostas para solucionar os problemas da expressão da cultura dos humildes, exigindo responsabilidade à tarefa educativa, em que aluno e mestre devem procurar juntos o saber. Na sua escola inovadora fomentam-se as atitudes comunitárias, dando importância à língua, leitura e escrita. Os recursos didáticos, como o uso de jornais, completam-se com obradoiros e atividades de observação da natureza e o céu e o firmamento.
Em contra do autoritarismo e o classismo, Milani pretende aceder desde o esforço da escola a uma maior liberdade e autonomia dos oprimidos, sem identificar-se com qualquer partido político. Nas aulas há uma ocupação permanente, para recuperar o tempo perdido. Segundo ele, a criança pobre aumenta o seu desnível frente ao burguês, já que a sua família está desprovista de apoios culturais. O permanente contacto com as necessidades reais do povo influi nos métodos e conteúdos da escola milaniana. A tarefa educativa do mestre exige responsabilidade e compromisso. A educação era individualizada e adequada às caraterísticas de cada aluno, dando prioridade aos mais lentos e deficientes, que necessitam de mais apoio. O mestre e o aluno procuram juntos a alegria do saber.
A escola fomentava as atitudes comunitárias e de solidariedade no uso dos materiais escolares. E também o relacionamento positivo e motivador dos mestres com as crianças mais pequenas. O ensino de línguas e da escrita, utilizando a técnica criativa da escrita coletiva, eram habituais nas suas aulas. Também o uso de técnicas audiovisuais variadas e palestras e conferências, dadas todas as sextas-feiras por pessoas vindas de fora. Na procura sempre de conseguir uma autêntica expressão da cultura. O jornal era usado como recurso educativo para o conhecimento humanístico e científico. Os obradoiros de trabalhos manuais e artísticos, assim como a observação da natureza e o céu, eram atividades muito importantes. O objetivo fundamental de Milani, com a sua escola, era dar a palavra aos pobres.
Proposta educativa:
Dado o grande interesse pedagógico da escola de Barbiana, criada por Lorenzo Milani, com técnicas didáticas muito variadas, originais e criativas, proponho aos docentes amigos meus das nossas atuais escolas, primeiro o visionado dos dous documentários antes resenhados, e, mais tarde, a posta em prática nas aulas de primária e secundária, das suas técnicas didáticas, experimentando sobre os resultados posteriores na aprendizagem dos alunos. E refletindo sobre o labor educativo que desenvolveu Milani, também com certos problemas de incompreensão por parte das autoridades civis e eclesiásticas. Existem ademais interessantes livros de Milani e sobre a sua pedagogia, que devem ser lidos. Porque é o seu um modelo pedagógico-didático muito atrativo e, adaptando-o aos tempos atuais, pode ser posto em prática nas nossas aulas. Ânimo!
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.
