Partilhar

Línguas rendíveis

Xavier Alcalá – O professor Manuel Rodrigues Lapa, ilustre colaborador de La Voz de Galicia, considerava-se “o mais galego de todos os portugueses”. Com esse espírito, em 1978 escrevia que “a Galiza tem a sorte, única na Península Ibérica, de ter uma língua identificada com a de um estado soberano como é Portugal, coisa que não se dá nem com o catalão nem com o basco”.

Daquela, Galiza começava a deixar de ser “el Noroeste”, o Brasil era “o país do futuro” e as ex-colónias portuguesas viviam abocadas à guerra. Faltavam oito anos para os estados ibéricos entrarem na Comunidade Europeia. Só gente com muita visom era capaz de imaginar o que viria ser a Eurorregiom Galiza-Norte de Portugal…

Tradicionalmente as línguas fôrom consideradas património discursivo de linguistas e políticos. Mas os economistas entremetêrom-se nesse eido e logo desenhavam valoraçons objetivas, medíveis em dinheiro, dos fenómenos linguísticos.

Os idiomas som meios de transmissom de informaçom. Velaí logo o comércio como grande impulsor da aprendizagem de falas alheias, primeiro estádio de aproximaçom entre povos. Conhecidos som os casos do suaíli na atualidade e do português nos séculos de expansom europeia polo Oriente. As línguas adotadas para a comunicaçom comercial passárom a ser mesmo as de expansom das religions (sam Francisco Xavier predicava em português no Japom).

As falas, convertidas em idiomas formais, estritamente codificados, passam a ser instrumentos de uso múltiplo: económico, político, científico… Tenhem umha componente fria, a de transferência de dados ordenados, e outra emocional: condicionam pensamento e sentimento. Nom se deve esquecer que nos negócios também se sente.

O ferrolano Xosé María Sáinz Penas, intérprete em Bruxelas (de quatro idiomas latinos, quatro germânicos e um eslavo), di que a língua franca do mundo hoje é o “Globish”, inglês simplificado que mesmo entendem os ingleses; e que a Comissom Europeia usa o “Eurenglish”, um “Globish” expandido, que inclui matizes.

Cumpre reconhecer-lhe ao inglês a sua importância global (forcada polo império norte-americano e a Commonwealth britânica), mas existem outros idiomas de grande valor racional e emocional nos negócios. Hoje já nom se usam as velhas tabelas para valorar idiomas: o número de falantes e a suma de produtos internos brutos das suas comunidades. Tem-se em conta também a emocionalidade…

Trinta e três anos depois da frase famosa de Rodrigues Lapa, os estados ibéricos formam parte da Uniom Europeia, Galiza é umha comunidade autónoma espanhola fundida com o Norte de Portugal numha eurorregiom, Brasil é um dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) emergentes, o PIB de Angola medra de jeito espetacular e Moçambique é um país em paz e com futuro.

Os cálculos da “language usefulness” situam o português por diante do castelám, o italiano e o russo, alcançando o francês e ficando só por trás do alemám, o japonês, o mandarim e o insuperável inglês (língua franca da Índia e da África do Sul).

A importância do português como língua de negócios supera com muito os interesses de relaçom transminhota, a irmandade natural da Portugaliza dos poetas. Daí a rendibilidade económica do galego em termos da sua pertença ao bloco galaico-luso-africano-brasileiro.

Por um momento, linguistas e políticos deveriam escuitar vozes coma as do economista Henrique Sáez Ponte: o galego, além de criaçom indiscutível do povo da Galiza, é um instrumento de aproximaçom a um mundo em explosom económica. Conhecido o galego, o esforço para dominar o português formal é mínimo.

A língua galega é de alta utilidade económica, e mui rendível. Bem conhecida, facilita o acesso à oficial do Brasil, Angola, Portugal e meia dúzia mais de países africanos. Desse ponto de vista, o ensino do português deveria-se introduzir no sistema escolar galego como, por razons económicas, ocorre no da Estremadura.

Polo momento, em Bruxelas deteta-se um fenómeno interessante: os moços galegos que optam a umha carreira na capital da Uniom, assistem aos cursos oficiais de português, entram nos grupos de alunos mais avançados e aginha saem com umha habilitaçom importante no seu curriculum.

Por muita simpatia que lhe tenham a Portugal, nom pensam no país vizinho à hora da escolha. Move-os a rendibilidade mencionada: doadamente acadam diploma dum mais “dos vinte e três oficiais” (com o mesmo valor que o húngaro “impossível”) e preparam-se para penetrarem polos corredores administrativos de Brasília ou de Luanda, cada dia mais conectados com os de capital da Uniom Europeia.

 

(*) Versão em galego-português para o PGL. Original em ILG-RAG publicado no suplemento INNOVA de La Voz de Galicia (1 de maio de 2011).

Efigênio Moura: “O galego é como se tivesse encontrado um parente que ninguém da família tinha me apresentado”

Ângelo Brea: “O amor pela família, o cuidado dos filhos ou as exigências de uma vida com grandes responsabilidades atravessam os milénios”

Burela, romance do escritor brasileiro Efigénio Moura, disponível em pré-venda na loja online da Através Editora

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Efigênio Moura: “O galego é como se tivesse encontrado um parente que ninguém da família tinha me apresentado”

Ângelo Brea: “O amor pela família, o cuidado dos filhos ou as exigências de uma vida com grandes responsabilidades atravessam os milénios”

Burela, romance do escritor brasileiro Efigénio Moura, disponível em pré-venda na loja online da Através Editora

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo