Quique Melide – Sempre fiquei maravilhado com a capacidade de análise da realidade das crianças, essa que rompe os muros do preconceito e a intoleráncia com que vamos conformando a mentalidade adulta e adulterada; nunca pensei que foram ser duas meninhas quem me ensinassem, precisamente a mim, o licenciado, a liçom fundamental do que o reintegracionismo é.
Como bom devorador de cinema essa tarde da primavera compostelana dirigim-me direito à projecçom do Modern Times do grande Chaplin que o Cineclube de Compostela fazia numha praça pública (nomeadamente na pista de basquetebol que está ao pé da estaçom de bombeiros, junto à estaçom de auto-carros).
A projeçom, como todas as do Cineclube, havia de ser em versom original e legendada. Como esse dia projetárom um DVD original, as legendas, por defeito, estavam em castelhano. Bem é sabido que o Chaplin era o mestre do cinema mudo mas, como as leitoras recordarám, este filme inclui trechos sonoros.
Já que as partes faladas haviam de ser poucas, convidei a rapaziada que organizava a pôr as legendas portuguesas: “total, para o que hai que ler!”.
Asinha começou o filme, éramos umhas quarenta pessoas de todas as idades, sexos e sabores. Na primeira linha situárom-se as personagens principais desta história. Duas meninhas, umha ainda nom sabia ler e a outra já tinha aparência de boa leitora.
Ficárom estranhamente chocadas diante do melhor palhaço cinematográfico de todos os tempos e também rírom a fartar. Chegou entom a cena em que o chefe da fábrica começa a dar ordens num ecram e saírom pola primeira vez as legendas em português.
Foi entom quando umha das nenas começou a ler para a outra, até que a mais pequena a interrompeu:
— Oh! Está en gallego?
(Nom se soubo o que respondeu a mais velha)
NOTA A RODAPÉ
