Raquel Rios / David do Arroio (*) – Se nom fosse polo timbre das suas vozes, quem seria capaz de diferenciar o Míni e o Mero? Conhecêrom-se de pequenos na escola e desde esse momento os seus caminhos convertêrom-se num só para chegar a umha mesma meta. Juntos desenvolvêrom um importante labor de recuperaçom da tradiçom oral galega.
Formáron parte do revolucionário Fuxan os Ventos de 1972 e na actualidade continuam na dianteira cultural luitando na defesa do idioma e do país com o grupo A Quenlla. Ainda que se consideram a eles mesmos como uns avozinhos, a esta parelha de vozes ainda lhes resta muito polo que luitar.
NGZ: Quando dizemos Mini seguidamente repetimos Mero e vice-versa. Poderia dizer-se que sodes unha única pessoa?
Míni: Quem pense que somos algo monolítico, erra. Somos dous amigos com umha direcçom comum com umha grande quantidade de cousas em comum. Por isso caminhamos juntos.
NGZ: Começastes esse caminho juntos já na escola com a recolhida e recuperaçom da tradiçom oral galega. Depois ia vir Fuxan os Ventos, um dos projectos mais importantes em que participastes ambos os dous. Que lembranças guardais de aquela época?
Míni: Temos as mesmas lembranças que da mili. Juventude, força, pujança… As lembranças dessa época som de umha gente que avança e caminha com mui poucos conhecimentos de música, mas com muita vontade de abrir caminhos. Estávamos num momento propicio, a queda do franquismo, onde havia muitas ánsias de liberdade. E unha das maneiras de conseguirmos a liberdade era cantando e transmitindo. Nós subimos nesse carro e por nele avançamos durante um tempo. Havia muita ilusom, mas também chegou um tempo de decepçom porque aquele país que fervia nom chegou a ser o que se via no fumo.
NGZ: E com respeito a Fuxan os Ventos, qual foi a sua evoluçom ao longo dos anos?
Míni: A mensagem que transmitiu o grupo até o ano 82 nom era a que estám a dizer estes agora. Nós transmitíamos umha mensagem de cultura, de luita, de país e de naçom. Era umha mensagem para recuperar a liberdade, a cultura, e combater as mentiras. Isto de agora é um revival da quarta idade. Essa é a razom pola que nós deixamos o grupo.
NGZ: Quais fôrom os logros de Fuxan os Ventos nos começos?
Mero: Fuxan começou a abrir o caminho para podermos cantar em galego no meio das verbenas. Mini: Hoje em dia ainda há algo que nom se analisou de Fuxan, que é o seu carácter revolucionário, nom só na estética, mas também no conteúdo das suas músicas. O facto de utilizar a linguagem musical da aldeia já é um facto revolucionário. E se analisarmos as letras de Fuxan os Ventos naquela altura, repararemos em que era muita mensagem de nosso senhor.
NGZ: Continua a existir o compromisso que tinha Fuxan com o povo nos grupos de música tradicional de hoje ou está todo disfarçado de tópicos?
Mero: Para sair em determinados meios de “pressom social” como a TVG é necessário silenciar certas verdades. Os grupos que se submetem a isso saem nos programas e nos meios, mas os que nom nos submetemos nom temos essa presença. Assim, a gente que canta música tradicional pode optar por dous postulados: o neutro e o comprometido. Se quigerem chegar a ser populares tenhem de utilizar o neutro para nom ofender. Hoje em dia os grupos só podem progredir nesse status de nulo compromisso porque os meios estám ao serviço dos políticos que nos manejam.
NGZ: E qual é a consideraçom social da nossa música dentro do país? Existe desprezo e auto-ódio com respeito a ela?
Mero: O auto-ódio é umha vacina que nos injectárom nas veias a todos os galegos. Transmitiuse-nos a mensagem de que o nosso ser e a nossa cultura eram desprezáveis. Afortunadamente muitos percebêrom que isso era umha grande mentira. A nossa verdadeira revoluçom como povo é reconstituirnos em nós e renascer galegos.
Míni: Só nos enriquecemos uns a outros como país. A salvaçom nom é individual senom que é comunitária, em grupo.
NGZ: Que necessita a Galiza de hoje para conseguir a revoluçom do nosso tempo?
Míni: Galiza precisa sentir quem é, deixar de ter medo, exercer a liberdade e olhar-se a si mesma. Somos um povo com muita potencialidade, somos um povo velho e carregado de paus que nos dérom. Galiza o que necessita é que esses grupos continuem a cantar e a tocar, que continuem a exercer a liberdade e nom calar. E Galiza precisa um posicionamento firme e valente dos cantores, de dizer nom, até aqui chegamos, acabou-se. Que se nos está ferindo no mais profundo de nós.
(*) Reportagem publicada no n.º 95 do Novas da Galiza (15 de outubro-15 de novembro de 2010)
