José Paz Rodrigues (*)
O levantamento fascista de 1936 no nosso país, iniciado em 18 de julho desse ano, foi terrível especialmente para dous coletivos profissionais: para o de médicos e, sem dúvida muito mais, para o de mestres e docentes. A maioria dos que se identificavam com os valores humanos e democráticos republicanos.
Porque também foi a República, com aquele grande e digno mestre, Marcelino Domingo, como ministro de educação, a que prestigiou, apoiou e dignificou a figura do mestre e o seu importante ofício na sociedade. Como nunca se fizera antes. Este ano completam-se os 76 anos da maior repressão levada a cabo contra o corpo de mestres. Muitos dos que pagaram com a sua vida, de forma imoral e injusta, assassinados sem julgamento algum, ou fuzilados depois de processos sumaríssimos com júris militares. Os que tiveram mais sorte perderam os seus direitos, sem poder exercer mais no ensino público.
A represália foi muito maior na Nossa Terra, e em especial em Ourense, onde existia uma muito dinâmica associação de docentes chamada “ATEO” (Associação de Trabalhadores do Ensino de Ourense), criada por Albino Nunez, e seus colaboradores, que publicavam uma interessante revista com o título de “Escuela del Trabajo”. Maribel Outeirinho no passado ano, na sua página hemerográfica “História em 4 tempos” do jornal local, teve o acerto de publicar desde os primeiros dias de agosto, em vários números do diário, as listas de todos os nossos mestres represaliados naquelas infames datas do ano 36.
Igualmente eu quero lembrar aqueles mestres que sofreram tanto, sumando-me à homenagem às suas pessoas e ao seu grande labor social. Tão bem recolhida naquele desenho de Castelão muito famoso onde aparece um docente morto no chão, depois de fuzilado e duas crianças ao seu carão. O pé do desenho é significativo e profundo: “A derradeira lição do mestre”.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: La escuela fusilada (A escola fuzilada). Documentário.
Diretores e guionistas: Iñaki Pinedo e Daniel Álvarez (Espanha, 2006, 52 min, a cores)
Música: Tonho Caminero. Fotografia: Óscar de la Huerga.
Produtora: Imagem Industrial. Filme premiado em vários festivais.
Argumento: O documentário recolhe a história dos mestres e mestras que foram apartados da docência polo franquismo sob a acusação de “desafetos ao regime”. No mesmo aparecem testemunhas de familiares diretos de mestres fuzilados e de docentes que foram depurados ou que tiveram que exilar-se como consequência da guerra. Casos como os das Astúrias, Cantábria, Castela e Leão, Catalunha e Madrid, onde foram rodadas as imagens.
Homenagem aos melhores mestres que tivemos em Espanha:
Ninguém pode discutir o importante labor que no campo da educação e da cultura levou a cabo a nossa Segunda República. Com a sua chegada no ano de 1931, a educação espanhola experimentou uma profunda renovação: criação de infinidade de escolas primárias, seguindo o famoso e formoso princípio de que “o primeiro é o primário”, obrigatoriedade e gratuidade do ensino básico, laicismo escolar, democratização das instituições escolares e, o que eu considero o mais importante, um novo modelo de formação inicial do professorado, conhecido como Plano Profissional de formação dos mestres, promulgado já no primeiro ano, em 1931.
Este plano de estudos nunca foi superado e mesmo hoje, se se pusesse em prática, seria muito inovador e avançado. O único plano que se lhe aproximou algo foi o de 1967, promovido polo ourensano Eugénio López. Fora também muito importante o labor que se desenvolveu com as chamadas Missões Pedagógicas, desenhadas por esse grande pedagogo que fora Cossío, entre as quais quero destacar a que se desenvolveu por toda a Galiza de agosto a dezembro de 1933, dirigida por Rafael Dieste, entrando pola Mesquita e saindo polo Barco de Val d’Eorras.
O modelo educativo básico na formação inicial e em exercício dos docentes republicanos fora tomado em grande parte do que já em 1876 iniciaram Giner e os seus colaboradores criando a importante escola nova denominada Instituição Livre do Ensino (ILE), que à morte do seu pedagogo mais importante continuou o seu discípulo Cossío. Os que, com grande acerto, defendiam que a verdadeira alma da escola é o mestre da mesma, que deve ter uma grande formação universitária superior, que se deve remunerar bem (é célebre a frase de Cossío “gastade, gastade nos mestres”), e que se deve dignificar o seu labor.
Postos a destacar de maneira sintética os valores educativo-didáticos dos mestres formados no período republicano, e logo selvagemente represaliados, eu quero resenhar os seguintes:
– Profunda vocação pedagógica, amor polo ensino, pola escola, polos alunos e polo melhoramento da sociedade.
– Elevada formação científico-cultural e, pola sua estupenda formação inicial (Plano 1931), grande capacidade de tipo prático para saber levar com estratégias didáticas inovadoras as suas aulas.
– Profundo respeito pola pessoa do aluno, pola sua psicologia e a sua motivação.
– Possessão de profundos valores éticos e cívicos, a favor sempre do melhoramento da sociedade.
– Apoio de todo o tipo de atividades circum-escolares: artísticas, saídas ao meio social e natural, literárias, jogos populares e desportos, jornal escolar, trabalhos manuais e fomento da leitura.
A minha proposta, que no momento atual não deixa de ser uma grande utopia, é pôr a andar um novo modelo de formação (espécie de MIR), mirando para o do Plano Profissional de 1931, que foi excelente.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.


