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Lembranças do amigo Casares

 

Isaac Alonso Estraviz / Foto: Miguel Villar (LVG)
Isaac Alonso Estraviz / Foto: Miguel Villar (LVG)

 

Em setembro de 1960 subi ao Castromil em Cea. Ainda não terminara de me acomodar no assento quando vejo um rapaz que se ergue do seu e vem ao meu encontro e sorrinte me pergunta:

– Es tu o padre Santos?

– Sou eu.

Sentou a meu lado e fomos juntos até Santiago falando de muitas cousas. Unia-nos era a língua que falávamos e que estávamos empenhados em defender de por vida. Ele ouvira falar de mim a Ramom Pinheiro. Tenho que confessar que o meu primeiro contacto com galeguistas foi com Jesus Ferro Couselo nos baixos do prédio da Delegação das Finanças, onde estava naquela altura o Arquivo Histórico e foi ali onde decidi ser rato de arquivos e leitor de pergaminhos para escudrinhar o nosso passado monacal. Empenho que o destino me frustrou.

Carlos e eu éramos da mesma comarca. Ele de Ginzo, das Casas baratas. Eu de Vila Seca. Nunca ouvira seu nome. Surpreendeu-me a sua intuição e a sua atitude aberta, extrovertida. Coincidíamos.

As nossas vidas continuaram roteiros diferentes. Ao pouco tempo, no mês de novembro desse mesmo ano, numa manhãzinha saía de Usseira e no pôr-do-sol deixava Galiza e entrava nas Astúrias. Melancolicamente olhei para aquele pôr-do-sol esplendoroso, fechei os olhos e deixei que me levassem para a frente. Às duas da noite andávamos polos Picos de Europa e às três da manhã chegávamos ao mosteiro cisterciense de Viaceli (Cóbreces, Santander).

Algo da sua vida sabia-a pola minha correspondência com Ramom Pinheiro. Um dia apareci por Ginzo e lá me encontrei com o Carlos. Estive na sua casa. Passou tempo e soube que estivera para casar com uma rapariga de Ginzo, mas uma moça que trabalhava na TVE varrei-lhe o sentido e lá se foi com ela a Madrid. Ao pouco voltou desiludido.

As viagens foram um fator importante na sua vida. Contou-me que um dia vinha de Madrid e no mesmo compartimento uma jovem sueca. Ele vinha a ler e de vez em quando olhava para aquela cara bonita. Ela perguntou-lhe por Santiago e ele comprometeu-se a ensinar-lhe a cidade. Ela disse-lhe que não podia, pois à noite tinha que subir a um barco na Corunha. Galantemente, prometeu ensinar-lhe Santiago e levá-la a Corunha a tempo para apanhar o barco. E cumpriu a palavra. Essa encantadora jovem terminou aos dous-três meses sendo a sua mulher.

Li atentamente os seus primeiros livros: Vento ferido, Câmbio em três, As Laranjas mais laranjas de todas as laranjas, Galinha azul e a tradução de O principezinho. A partir de aí nem comprei nem li mais nada dele.

Foram depois mais vezes as que nos vimos e falamos amicavelmente. Uma delas foi na sua casa de Nigrám por me ter pedido Stegagno Picchio que a levasse à sua casa. Ali vi com ele muitas cousas: diferente edições e traduções dos seus livros, seu jeito de trabalhar, projetos, etc.

Um grupo de amigos da Agal estivemos com ele em Viana do Castelo duas horas onde pude comprovar o contraditório do seu atuar: reconhecer a estupidez de uma norma por um lado e continuar a empregá-la por outro para não estar em desacordo com os de Galáxia e perder as subvenções da Junta. Foi assim de claro. Tinha medo também aos do Conselho da Cultura. Contradição que foi também própria da maioria dos galeguistas históricos. Ainda tivemos oportunidade de falarmos outras vezes, mas de jeito breve e informal.

Casares queria estar a bem com todos e desse jeito o mundo não pode  avançar. Levar-se bem não significa claudicar dos nossos princípios.

Em Viana do Castelo falamos da necessidade de mudarmos da ortografia empregada no galego, que tinha que coincidir com a usada polos portugueses. Prometeu-nos que ia levantar esse problema no Conselho da Cultura Galega ao tempo que nos falava das dificuldades com as quais se ia encontrar, conhecendo como conhecia o pessoal que havia lá dentro. Aos poucos meses finou repentinamente em Vigo sem poder levar à prática essa promessa.

 

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