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Jota R. Rodrigues, autor da novidade editorial Assim nasceu uma norma: “O ILG nunca ocultou o seu “antilusismo”

Já está nas livrarias, Assim nasceu uma norma, de José João R. Rodrigues. O prologo é do professor Elias Torres, em suas palavras: “Até que, finalmente, temos umha análise sociopolítica do processo e tomada de decisões em relação à norma linguística do galego!” É este um episódio fulcral para a sorte, ou o azar, da nossa língua, na Galiza e com este livro a Através quer ajudar a mostrá-lo e evitar o esquecimento.

Passaram mais de quatro décadas desde a existência da norma Ilg-Rag para a nossa língua, uma norma que, para a maioria das pessoas, é simplesmente “o galego”. Neste teu livro mostras como uma das hipóteses se acabou por tornar “o galego”. O historiador Tiago Andelo,em Breve História do Reintegracionismo, argumenta que o contexto da transição não oferecia mais possibilidades. Em tua opinião, poderia ter sido de outra forma?

Eu acho que nesse jogo entraram dois fatores fundamentais. O primeiro, bem assinalado pelo Tiago Peres Gonçalves: a moderna nacionalização espanhola. O elemento discursivo fundamental nela foi o consenso. Com ele, escolhia-se quem ficava dentro e quem ficava fora das “novas” instituições, e jogou um papel decisivo em momentos fulcrais para o nosso particular, como a lei de normalização linguística. Um consenso, claro, muito enviesado.

Na outra mão, além do processo especificamente espanhol, a eleição da norma respondeu, segundo eu o entendo, às lógicas da governança mais tradicional. As palavras de José Luís Barreiro Rivas na entrevista que mantive com ele foram claras: o Decreto de padronização foi um tour de force, havia que evitar o debate. Um país deve ter uma norma e, também pelas suas palavras, “uma coisa é ser galeguista e escrever poemas em galego e outra coisa diferente é governar um país”. Há quem discorde… não é o meu caso.

A questão, no entanto, é que a norma única fosse a do ILG e não outra. Essa questão é a que pretendo esclarecer no livro.

As palavras de José Luís Barreiro Rivas na entrevista que mantive com ele foram claras: o Decreto de padronização foi um tour de force, havia que evitar o debate.

Na tua obra mostras os antecedentes do ProtosSistema Cultural Galeguista, com três polos, o da oficialidade, o da resiliência e o da resistência. Poderias explicar aos nossos leitores estas categorias.

É um modelo criado por Roberto Samartim, investigador da Galabra, na sua tese de doutoramento. Ele observou as redes sociais e institucionais envolvidas na produção cultural galega no período 1974-1978 e, a partir desses dados empíricos, concluiu que as relações verificadas entre os grupos e agentes do (protos)sistema cultural galego/galeguista se organizavam dessa maneira: havia três núcleos em que se concentravam os nexos. Eu sei que o modelo de Samartim foi construído observando um período muito concreto, mas achei tão limpo e tão adequado que pensei que dava jeito para explicar de maneira esquemática as décadas anteriores, sempre num texto divulgador como este.

Quanto aos polos, como dizes, são três. O da oficialidade estrutura grupos e agentes com alguma relação estrutural com o Estado. O da resistência, aqueles cujo programa contraria de alguma maneira o status quo, pretendendo a impugnação das normas de jogo vigentes. Mormente eram partidos políticos e os seus satélites. O da resiliência, aqueles que assentam a sua estratégia na adequação às mudanças no campo, estabelecendo relações com qualquer grupo ou agente de qualquer polo sempre que isso beneficiasse o próprio programa. Eram geralmente empresas e fundações de capital privado.

Uma das epígrafes intitula-se O galego para quê? Como responderam esta pergunta tão pertinente autores referenciais como Risco e Castelao?

Fundamentalmente, para ambos era uma componente fundamental da galeguidade. Os dois bebem da tradição romântica alemã, da volksgeist e de um essencialismo gritante. Também exponho no livro as diferenças entre os dois autores, que acho que aqui não vale a pena detalhar. O mais importante é perceber a continuidade que aqueles discursos essencialistas tiveram no pós-guerra e mesmo até hoje, quando a maior parte do galeguismo condena –discursivamente– o essencialismo mas professa uma fé cega na língua como signo de galeguidade. Carlos Fernández analisou, penso que muito ajuizadamente, o acriticismo com que foram assumidos os ideais pré-bélicos, passados simplesmente por uma peneira terminológica.

Para dar alguma informação mais sobre a tua pergunta: tanto Risco como Castelao, com 20 anos de diferença entre um texto analisado e o outro, acreditam que o que se fala na Galiza é português.

Tanto Risco como Castelao, com 20 anos de diferença entre um texto analisado e o outro, acreditam que o que se fala na Galiza é português.

O manual Gallego 1, elaborado pelo Ilg em inícios dos anos 70, que implicou, em termos de ligação, ou desconexão, com linhas de pensamento precedentes?

O ILG nunca ocultou o seu “antilusismo” (pelas suas próprias palavras) nem a sua preferência pelo galego oral, o que consideravam (e que, na verdade, não era) a “realidade linguística galega”. Esta postura, além de legítima, tinha alguns antecedentes no galeguismo de etapas anteriores, mesmo no século XIX, e é natural que os atuais defensores desse modelo recorram à história para reivindicarem a sua autoridade. O problema é que, com existir, era uma postura imensamente minoritária, enquanto a vocação geral do galeguismo era a progressiva confluência com a lusofonia, tanto linguística como culturalmente, em termos de repertório e também de relações.

[A do ILG] era uma postura imensamente minoritária, enquanto a vocação geral do galeguismo era a progressiva confluência com a lusofonia, tanto linguística como culturalmente, em termos de repertório e também de relações.

Um debate clássico no ProtosSistema Cultural Galeguista tem a ver com os primórdios da estratégia reintegracionista. Anos 70 do passado século ou os etimologistas do século XIX?

O facto é que, até a década de 70, o debate não se dá nuns termos que permitam imaginar uma coisa assim como o reintegracionismo que hoje conhecemos. Nos séculos XIX e primeira metade do XX não havia uma corrida linguística como tal, mas um confronto entre intelectuais, não havia posições em liça. Num sentido lato, claro que havia reintegracionistas antes de 1970, há mesmo artigos publicados no A Fouce com uma ortografia muito parecida com a norma que a AGAL construiu anos volvidos, ou poemas de Alberto Camino redigidos praticamente em norma portuguesa. Essa era, ainda, a postura de galeguistas históricos como Castelao, Risco, Villar Ponte ou Manuel Murguia. Os dados, os textos, os depoimentos estão aí, o problema é o esforço que tem havido por ocultá-los.

Claro que havia reintegracionistas antes de 1970, há mesmo artigos publicados no A Fouce com uma ortografia muito parecida com a norma que a AGAL construiu anos volvidos, ou poemas de Alberto Camino redigidos praticamente em norma portuguesa.

Vou colocar agora alguns nomes. Poderias resumir em poucas palavras o seu papel neste palco? Ramón Piñeiro, Rodrigues Lapa, Carvalho Calero, Constantino García, Filgueira Valverde.

Ramon Piñeiro: um grande pensador, um génio da estratégia; quanto a mim, o único mau que posso dizer dele é que o seu projeto não era o meu.

Rodrigues Lapa: um dos mais grandes impulsionadores da cultura galega, apagado da história pelo oficialismo e injustamente etiquetado de “reintegracionista” quando ele era, com todas as letras e em todos os âmbitos, um autêntico galeguista. Galego ordinário e extraordinário, merece o Dia das Letras Galegas muito mais do que a maioria das pessoas homenageadas, como bem tem reivindicado José Luís Rodríguez.

Carvalho Calero: um exemplo de orgulho –com o que isto tem de bom e de mau–. Escolheu mal a “etiqueta”, pelas palavras de Elias Torres no prólogo, e foi excluído pelos seus históricos colegas, num processo acho que indissociável da própria lógica da padronização. Oxalá alguém o explique nos termos de Randall Collins, eu não me atrevi.

Constantino García: um empresário, um produto da tecnocracia espanhola, um homem próximo das pessoas e distante da realidade galega.

Filgueira Valverde: uma figura talvez sobrevalorizada neste processo. É verdade que tomou decisões importantes e tinha relações centrais, mas poucas coisas dependeram dele na verdade. Maior foi o seu protagonismo nos tempos da preparação desse cenário, no imediato pós-guerra, quando era um dos pouquíssimos galeguistas permitidos pelo regime.

Mário Herrero, autor de Guerra de Grafias, afirmava numa entrevista em 2011: a institucionalização do galego-castelhano atingiu os seus limites permissíveis e deve começar a retroceder em direção ao único lugar que o nacionalismo espanhol lhe pode conceder: o litúrgico.

Pois é. Menos mal que nos queda Portugal!

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