PGL – José António Cidre Bardelás é arquitecto, técnico em informática e, embora ainda novo, com umha dilatada trajectória no activismo linguístico, mesmo que fosse fora do reintegracionismo. Natural de Barcelona, leva a pegada deixada pela Catalunha durante o tempo que estivo naquelas terras.
Desde maio de 2009 é o primeiro trabalhador profissional ao serviço da AGAL, sendo um bom representante do reintegracionismo do século XXI: aberturismo, integraçom, voluntarismo e profissionalismo.
‘Medúlio’, umha alcunha chamativa. Tem algumha história especial?
Tem história e ainda significado. Todo vem do forte processo de aculturaçom que sofre a emigraçom galega que repercute especialmente nos seus descendentes, os quais habitualmente o aceitam na mesma mentalidade resignada que há na Terra como um progresso e um benefício que associam com umha meirande qualidade de vida. Eu convivim muito tempo com gente que, coma mim, eram filhos de emigrantes galegos e que juntos formávamos colectivos que compunham 70-80% dos âmbitos educativos barceloneses mais “populares”, mas, longe de existir um orgulho próprio de sermos galegos, a gente mais bem virava cara um sentimento de vergonha que levava a rejeitar qualquer cousa que cheirasse a galega e, claro está, o idioma.
Assim, entanto a gente adquiria competência tanto em catalão como em castelão, fugia do contacto com o galego mesmo ainda que nas casas era língua habitual (porém, em crescente desuso). Isso junto com o desinteresse do sistema educativo catalão polos direitos lingüísticos dos galego-falantes (isso foi, ao meu ver, um erro gravíssimo na estratégia normalizadora da língua na Catalunha e que agora estám tentando corrigir com outros colectivos imigrantes) levou ao extermínio de facto de qualquer tipo de transmissom intergeracional do galego.
Mas as inquedanças pessoais podem mais do que os mandados oficiais e eu nom entendia porque de falar perfeitamente o galego com quatro anos tivera que passar primeiro ao castelão e logo também ao catalão nos tempos da “transiçom política”, mas sem possibilidade nengumha de nem sequer achegar-me ao galego… Nestas, os meus pais foram fornecendo-me material dentro das suas possibilidades e eu fum adquirindo conhecimento autodidacta aos poucos, até saber, por exemplo, da história do Monte Medúlio e do conceito de resistência que materializava.
A cousa ficou na minha memória de jeito que, quando chegárom os tempos da explosom da Internet e a demanda do uso de alcumes, decidim empregar o de Medúlio pois considerava que era um pouco a minha história: a resistência diante de constantes e variados ataques de aculturaçom tentando que esquecesse as minhas origens e que, por enquanto, conseguim “vencer”. De facto, da minha geraçom penso que pouco mais de dous ou três indivíduos conseguimos sair desse processo marcado e mantermo-nos num caminho próprio e independente e comprometido coa Cultura dos nossos antergos.
Arquitetura, Informática, Internet e Língua… Como é que casa o ‘Medúlio’ tudo isso?
Todo é Cultura, e é curioso, quando baixas a um nível de génese, como as mesmas circunstâncias que criam umha realidade som as mesmas que lhe dam forma a outra. A Arquitectura e mais a Língua som quase que o mesmo, umha no eido imaterial e outra no material. É expressar-se, comunicar-se, mas também adquirir conhecimentos e formar umha pessoalidade que pode ajudar a definir o mundo.
No que respeita à Internet e mais à Informática som disciplinas que ainda estám no berço mas que, se as analisamos, já vam polo mesmo caminho que as outras. É muito ilustrativo, por exemplo, que o principal teórico da “programaçom orientada a objectos” como umha optimizaçom da estruturaçom da mesma seja um arquitecto, o Cristopher Alexander, com o seu ‘Pattern Language’ que nom é umha obra sobre temas informáticos mas arquitectónicos.
O teu activismo linguístico não é de agora. Conta-nos, qual algum dos teus trabalhos nesse campo?
Com certeza, levo algum tempo já no activismo que considero cultural e da língua, penso que desde a ano 1996 com o começo do auge da Internet na Europa. Daquela figera a primeira página de Arquitectura galega que havia na Rede (era isso, apenas umha página com um resumo mais ou menos da evoluçom histórica) e claro está, em galego, e que pouco a pouco foi evolucionando até hoje na que está um chisco em horas baixas, mas que deve ressuscitar em qualquer intre. Neste âmbito penso que houvo muita gente que se decatou da possibilidade de trabalhar em galego também no que era Arquitectura, chegando a um certo nível de convencimento a que penso também acheguei algo. Mágoa que a tendência se voltou a inverter e agora a situaçom está-se a complicar cada vez mais.
E ainda, também polo 1996, de jeito quase que simultâneo com o começo da minha actividade de posta em valor da Arquitectura galega na Internet, soubem da existência CiberIrmandade da Fala, e comecei por interessar-me nas suas actividades para, cousa de um ano depois, começar a participar nela de jeito activo. Desde aquela figérom-se muitas cousas, campanhas de envio de cartas pola galeguizaçom de diversas entidades, campanhas especiais por eventos culturais, promoçom do software em galego, mas sobretodo tentou-se integrar no possível todos os grupos sociais galegos e para isso, por pôr um caso, nom se optou por normativa nengumha dando liberdade a cada quem para empregar a do seu gosto (cousa que nos custou, e custa, críticas por parte de quase todos os sectores, mas que pensamos é o caminho correcto na procura de acordos e colaborações que tanto precisa a nossa Terra).
Logo estám os trabalhos mais pessoais, geralmente no eido da Arquitectura, como um pequeno ensaio a verbo da materializaçom do ‘Meio Ambiente Histórico e Social’ na realidade galega, ou umha ‘Hipótese sobre a possível existência dum recinto amuralhado romano na cidade de Vigo’ que figem sob o conceito de Castelao de trabalhar e pensar em galego de jeito inseparável aos conteúdos (outra cousa é que o acadasse).
Num primeiro momento, surpreendeu-te em seu dia a oferta de emprego lançada pela AGAL ou achaste brincadeira?
Pois a verdade é que nom. Para mim (e muita mais gente) a AGAL tem um prestígio ao nível de qualquer outra organizaçom lingüística que poda ter mais sona, mas também um pouco de “elite” inalcançável, polo que penso que mais que surpreender xurdia como algo lógico, ainda que “assustava” um pouco precisamente por esse ambiente de “elite cultural”.
Até esse momento o ‘Medúlio’ ouvia falar de reintegracionismo, Lusofonia, língua galega… e pensava em quê?
Bem. Eu já levava anos de contacto com o reintegracionismo ainda que fosse superficial, mesmo de pequeno as minhas primeiras imagens de “marketing” galego que os meus pais mercavam vinham em ortografia histórica (autocolantes com textos como ‘Ser galego é mais que nascer na Galiza’, ou de ‘Galiza’, com ‘Ponte Vedra’, ou ‘A Crunha’, ‘canções’, etc.). Também vivera a polémica da cissom da Filologia Galego-portuguesa em Galega e Portuguesa na Universidade de Barcelona (curiosamente isso foi o ponto de partida de decadência de ambas as duas). Mas o meu desconhecimento da situaçom era muito grande e isso levava-me a ser céptico com o tema e mesmo até crítico em ocasiões, mália que o sentimento de que o galego e o português era um “continuum” ia medrando, nom só por questom pessoal mas também por factos práticos (p.e., gente achegada que se decatava da possibilidade de entenderem-se com gente de Portugal falando em galego, ainda que pareça umha parvada).
E ainda, na questom do trabalho arquitectónico torna-se imprescindível o contacto com o português, e a realidade era que os que sabíamos galego nom tínhamos problema nengum, e mesmo, como anedota, lembro como um meu professor nos comentava que graças ao galego que aprendera na sua estadia no Ferrol por causa das obrigas do cumprimento do “serviço militar” podia ler qualquer texto em português de jeito natural. Isso era umha realidade constatável e independente, mas era preciso “algo mais” um argumento “definitivo” para sair do cepticismo e do criticismo, especialmente vista a exasperaçom que existia (e por desgraça, ainda persiste) entre partidários dumha ou doutra opçom.
Estiveste na Catalunha até há pouco tempo. Conta-nos, como viste e viveste a situaçom linguística catalã?
Eu som catalão de nascimento e 99% da minha vida passei-na ali, mália que de sangue e coraçom som galego… produto da emigraçom (de que me honro). Vivim no começo umha educaçom exclusiva em castelão para ir virando cara a inserçom do catalão e mesmo isso que chamam “imersom lingüística” e nem tivem problemas por isso nem conheço quem os tivesse. De facto penso que é um processo muito desejável que ajuda na aquisiçom de conhecimentos novos, nom só lingüísticos como também gerais. E ainda, está claro que o único jeito de dominar com soltura vários idiomas é o seu uso em disciplinas diversas.
Contra do que alguns dim por aí, o estudo da filosofia, matemática, física ou história em catalão (e por extensom, em galego) ajuda a desenvolver os conceitos de modo independente do idioma empregado, resultando que pouco a pouco o estudante é quem de compreender esses conceitos nom só em castelão e catalão, mas ainda em inglês ou francês. E qualquer pessoa que tenha um dedo de testa decatará-se do necessário que é isso quando for preciso procurar informaçom técnica que nom está disponível em castelão, ou que sim o está, mas com umha traduçom ruim e inexacta.
Assim, a capacidade de variar de registo lingüístico é a chave para a expansom cultural das crianças e umha base sólida para que podam melhorar os seus conhecimentos de jeito independente, eles próprios, sem que lhes tenham que marcar o caminho. É a via para a criaçom de livre-pensantes. Evidentemente a mim beneficiou-me muito o sistema, de jeito que nom tenho excessivos problemas em consultar documentaçom técnica em 6 idiomas.
Porém, umha das eivas do velho sistema educativo foi a rejeiçom da realidade que construía a presença do idioma galego dum jeito significativo nos rapazes da minha geraçom. Isso fanou umha possibilidade real dumha Cultura galego-catalã que fosse contraponto contra a supremacia doutras opções e que ajudasse à dignificaçom tanto de galego como de catalão (só em Barcelona eu calculo que deve haver por volta duns 300.000 descendentes de galegos, perfeitamente aculturados, alguns deles beligerantes coa Cultura catalã e outros simplesmente nom implicados e acatando o estabelecido, seja o que for).
Afortunadamente, agora a cousa mudou, e já se tenhem em conta os direitos lingüísticos dos colectivos imigrantes (excepto o galego, em qualquer das suas variantes, que continua a ser menosprezado), bem que seja por medo a partir dos distúrbios que aconteceram no seu dia nas aforas de Paris…
Contodo, o caso é que graças ao sistema de imersom lingüística tam criticado desde certos colectivos galegos é normal atopar crianças que falem perfeitamente catalão, castelão e o seu idioma materno (seja urdu, árabe, francês, etc.), mudando de registo lingüístico sem eiva nengumha da sua capacidade de expressom.
E isso reflecte-se no “mundo real” e, de resultas desse sistema, qualquer pessoa pode empregar sem problema nengum tanto o castelão como o catalão em qualquer Administraçom pública (evidentemente há casos pontuais como excepções que confirmam a regra) e mesmo o inglês numha percentagem crescente. E outro tanto acontece no âmbito privado em que se pode trabalhar de jeito normal com o catalão e ainda com o castelão, mália que continue a ser muito mais predominante este segundo, especialmente no território metropolitano de Barcelona que concentra metade da populaçom catalã.
Podemos aprender qualquer cousa de casos como o catalão ou devemos construir o nosso próprio caminho?
Podemos aprender de todo, e também do caso catalão, com certeza. É claro que tenhem as suas virtudes e mais os seus defeitos, mas o principal é a capacidade de organizarem-se e construírem desde o próprio, e depois expandirem-se polo mundo sem dependerem de ninguém (ainda que isto nom seja sempre certo, e às vezes xurdem pactos mesmo com o demo se for preciso com tal de acadar o objectivo, mas isso já e parte dos defeitos anteditos).
Quer dizer, que às vezes semelha que na Galiza a gente nom confia no próprio e necessita apoiar-se sempre em algo de fora, mesmo nos eidos mais “auto-suficientes”. Penso que é umha patologia endémica do carácter galego (e português) disfarçada em ocasiões de ‘saudade’. Por isso, cumpriria lembrar a miúdo aquela afirmaçom de Castelao que falava da Galiza como ‘célula de universalidade’, deixando claro que nom precisamos de ninguém para chegar ao mundo desde nós mesmos, e assim foi de jeito histórico, pois territorialmente sempre fomos um fito estratégico em termos culturais, comerciais, etc.
Agora a questom é convencermo-nos de que continuamos a sê-lo, e por aí é por onde temos que tomar exemplo da Catalunha, pois a nível material e histórico nom estamos por debaixo, nem muito menos.
O teu novo trabalho profissional foi o único estímulo para te teres associado à AGAL e aderires ao reintegracionismo, ou houvo mais?
Houvo. De facto, o meu novo trabalho foi abrir a porta dumha muralha que impedia a entrada a um âmbito que eu considerava de elite (e consta-me que há mais gente que pensa o mesmo) e poder ver que dentro desse âmbito há gente normal de ideias semelhantes às minhas (e que nom mordem). Mas sobretodo foi abrir a porta a mergulhar-me em documentaçom que me fornecesse informaçom, começando polo ‘Manual de Iniciaçom à Língua Galega’ do Maurício Castro, e seguindo polas publicações da AGAL bem como doutras arredor do estudo do galego medieval, assim como a releitura de cartulários medievais, transcrições, velhos dicionários, etc. E chegar à conclusom de que a ortografia etimológica do galego é o caminho mais coerente, especialmente quando as opiniões contrárias se baseiam na comodidade (preguiça diria eu) ou numha proximidade ao castelão (o mesmo, preguiça e medo ao plurilingüísmo).
De facto, para mim som definitivos argumentos como o uso inteligente da letra ‘h’ como modificador que permita variar a pronúncia doutros símbolos (veja-se os dígrafos ‘lh’ e ‘nh’, mesmo até propostos para o seu uso no castelão nalgum caso como em http://dat.etsit.upm.es/~mmonjas/reforma.html) ou a coerência no emprego de ‘g’ e ‘j’ em consonância coa maioria das línguas europeias, bem como umha consistente justificaçom histórica na qual mesmo personagens como o próprio Frei Martim Sarmiento reivindicavam directamente.
Resumindo um pouco, se a gente sabe perfeitamente como pronunciar ‘Jordi Pujol’, porque nom vai saber pronunciar ‘janela’ em troques de ‘xanela’? Está claro que na situaçom actual, com um maior conhecimento de idiomas por parte da populaçom, já nom há escusas para falar de “facilidade de aprendizagem’ (na qual se apoia a proximidade ao castelão) ou “dificuldades de assimilaçom” dos conceitos para rejeitar a adopçom dumha ortografia de continuidade etimológica.
E todo isso, ainda, permite justificar a opçom desde “dentro”, como indicava antes que é desejável, resultando o reintegracionismo como umha consequência do natural processo de recuperaçom dumha linha histórica que a Galiza pode e deve controlar de seu.
Quando alguém diz que o galego serve para nos comunicar com mais de 200 milhões de pessoas… o Medúlio pensa em quê?
É claro que se revela um plus engadido, tanto dumha visom cultural como puramente neoliberal de globalizaçom. É também um argumento mais que sólido contra das opiniões que falam do galego como algo inútil, baseando-se em conceitos puramente económicos com que eu nom concordo. Porque, se falamos em termos estritamente económicos, que valor tem a Muralha de Lugo, a Torre de Hércules ou a Catedral de Santiago? Por isso, essas declarações que falam do galego como algo inútil caem polo seu próprio peso (que será o seguinte? achandar todas essas edificações “inúteis” para construir o que dite a economia?). Um idioma é mais que umha ferramenta de comunicaçom, é ainda um canal de aquisiçom de informaçom e conhecimento e a constataçom do resultado dumha Cultura do mesmo jeito que se pode materializar em Música, Escultura, Pintura ou Arquitectura (também som cousas inúteis?).
Agora, se temos a possibilidade de chegar e contactar com mais de 200 milhões de pessoas, nom sejamos parvos e aproveitemos… mas dum jeito bidireccional, compartindo Cultura e Comunicaçom. Há que ser práticos e inteligentes, e aproveitar as nossas condições para relacionarmo-nos com o mundo, e o idioma é um primeiro passo de potencialidade impensável e totalmente irrenunciável.
E para começar, vamos lá ver se os nossos desportistas aproveitam para cultivar o galego com vistas aos Jogos Olímpicos do 2016, pois vai-lhes ser muito útil.
O trabalho na net é umha das principais apostas da AGAL. A sério, achas que seja útil socialmente ou apenas para chegar a uns poucos friques?
Sem dúvida, apesar da “banalizaçom” que está a sofrer a Internet igual que acontece em outros sectores da sociedade, está claro que é um canal de espalhamento da informaçom muito importante e no qual ainda há caminhos novos que explorar e potenciar. Ainda, é constatável a grande presença dos colectivos que trabalham a prol da Galiza na Rede, pois é também um jeito de fugir da censura da imprensa oficial, e de coordenarem esforços eficazmente.
Todo isso sem esquecermos a via da educaçom por meio da formaçom em linha, para fomentar a autoaprendizagem e mais a potencialidade do autodidactismo em relaçom à procura de respostas por um próprio (quer dizer: potenciar a geraçom de livre-pensantes de que falei antes). Oferecer a possibilidade de que a gente investigue e chegue a conclusões sem depender de factores externos é muito importante para alicerçar um projecto, e a Internet é umha via a que cada vez mais gente vai ter acesso e que se tornará difícil de controlar e censurar. É a base da Cultura Ceive e como tal deve aproveitar-se.
Conhecendo ‘Medúlio’
Um sítio web: http://archeologiamedievale.unisi.it/
Um invento: a imprensa (e o Projecto Gutenberg).
Umha música: a ‘Alborada de Ponte Caldelas’.
Um livro: O Cavaleiro Inexistente, de Ítalo Calvino.
Um feito histórico: a Grande Revolta Irmandinha.
Um prato na mesa: um bom arroz ao cava com peixe-sapo (de cozinha própria).
Um desporto: a bilharda.
Um filme: The Fountainhead, de King Vidor.
Umha maravilha: a Galiza.
Além de galego: galego internacional.

