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Jorge Mendes: “Tenho aprendido imenso sobre o português através do galego. É uma experiência muito enriquecedora”

Programa Grandes Vozes do Nosso Mundo conversa com o membro número 500 da AGAL.

Jorge Mendes tem 46 anos. Nascido em 1976 numa freguesia rural do Concelho de Guimarães, por razões de estudo passou primeiro para Braga e depois para a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viana do Castelo. Após viver durante trinta anos nas Terras do Minho, por questões de trabalho em 2006 foi para Lisboa. Em Odivelas, na área metropolitana da capital portuguesa, foi localizado pela equipa do programa radiofónico Grandes Vozes do Nosso Mundo, dirigido por Marco Pereira Oliveira, inicialmente para falar de música, em qualidade de integrante do grupo Água Doce. Contudo, antes de se centrarem na interpretação das canções tradicionais portuguesas, os tertulianos dedicaram uns minutos a uma demorada contextualização que compartilhamos através do Portal Galego da Língua.

“Sempre estive próximo da Galiza. Mais próximo fisicamente do que mentalmente, até que me fui apercebendo de uma realidade em que não tinha reparado”, começava dizendo o entrevistado e, após esta declaração de princípios, o interlocutor galego queria saber mais a respeito da feliz descoberta que levou o português minhoto a se inscrever na AGAL, onde ingressou com o número 500: “O 500 é um número bonito e ter sido eu foi uma coincidência que para mim tem muita importância”.

Na medida em que a conversa avança, constatamos que o interesse do gestor vimaranense pela Galiza não é de agora mesmo. Perguntado por como tinha nascido -e, ainda o mais importante, como fora consolidado-, a resposta foi rápida: “Desde criança estou rodeado de sinais da Galiza: no falar das pessoas, na música e ainda noutros diversos sinais. Mas em Portugal não temos uma educação orientada para a Galiza, que vemos como o princípio da Espanha e que associamos a todo o tipo de estereótipos. Não temos a capacidade de entender a Galiza como uma realidade cultural muito próxima da nossa; e também não somos educados para isso”. Nada que não possa ser superado, como veremos a seguir.

O voo da Rádio Galega

Que a Rádio Galega tem audiência no Portugal minhoto é algo bem conhecido desde os inícios das emissões, em 1985. Através desta entrevista conhecemos mais pormenores em primeira pessoa: “Numa altura em que conduzia junto à raia, ouvi um programa da Rádio Galega. Fiquei confuso: o falar daquelas pessoas era muito parecido com o falar da minha terra, com o falar da minha própria avó. Inicialmente, pensei que seria uma emissora de Paredes de Coura ou de qualquer outra localidade, mas depois acabei por perceber algumas palavras que não eram portuguesas. Será o galego?”.

Com efeito, era o galego e a audição foi reveladora: “Na minha mente a língua galega era um dialeto do espanhol, mas aquilo espanhol não era”. O Jorge, ouvinte interessado, ficou com curiosidade por saber mais e chegou a saber. A rádio tinha feito a sua função.

Com efeito, era o galego e a audição foi reveladora: “Na minha mente a língua galega era um dialeto do espanhol, mas aquilo espanhol não era”. O Jorge, ouvinte interessado, ficou com curiosidade por saber mais e chegou a saber. A rádio tinha feito a sua função.

O Marco Neves na Feira do livro da Corunha

Movido pela curiosidade, o economista passou a viajar pela Galiza com os olhos bem abertos e o ouvido bem afinado para diferenciar os idiomas falados na nossa terra. Na cidade da Corunha achou a seguinte grande descoberta: “Há cerca de três anos estive na Corunha e encontrei a Feira do Livro. Comprei livros galegos, porque queria saber como era o idioma e queria conhecer a História da Galiza. Alguém me recomendou uma obra que ainda me deixou mais interessado: São o galego e português a mesma língua?, do Marco Neves. Uma editora galega a editar um autor português… num livro escrito em português! Pensei: há aqui qualquer coisa que me está a escapar”.

Aquela qualquer coisa não escapava, porque existia um interesse que levava mesmo à base da própria identidade. Na medida em que o Jorge Mendes sabia mais, mais queria saber e assim chegou à Através, a editora que tornou real aquele histórico desejo da Sá da Costa com a coleção Noroeste em que publicaram Lapa e Carvalho Calero quase médio século atrás: “Seguindo aquele fio inicial, fui procurando mais livros da Através, fui à página web da editora e percebi que podia encomendá-los comodamente desde Portugal. Foi assim como comecei a saber mais sobre reintegracionismo e sobre a AGAL. O galego deixou de ser para mim uma espécie de portunhol da raia. Agora sei que é um codialeto do português, que nasceu junto com o português e que -em certa medida- o galego é português como o português é galego”.

O relacionamento humano

Após esse encontro revelador da Corunha, Jorge Mendes propiciou a aproximação humana. Queria saber como era a realidade do dia a dia na Galiza e nesse processo ganhou muitas amizades e também conhecimentos novos: “Tenho aprendido imenso, até sobre o português, através do galego. É uma experiência muito enriquecedora”. Em certa altura, essa comunicação enveredou para um dos pontos de encontro dos movimentos sociais: a AGAL. O próprio protagonista conta-o assim: “Como muito do que eu consegui aprender foi através da AGAL, da Através e de muitos vídeos que achei na rede, inscrevi-me como associado lusófono e agora que surgiu a oportunidade de me tornar sócio ordinário quis também colaborar. Acho que é um esforço que merece todo o apoio. Para a divulgação da unidade linguística na Galiza e também em Portugal, onde existe muito desconhecimento desta realidade”.

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