José Paz Rodrigues (*) – Rapazes e raparigas acabam de regressar às aulas, depois das férias de Natal. Somos muitos os que ultimamente pensamos que seria muito interessante reformar os tempos escolares e o calendário anual de aulas. De forma que durante o ano os escolares pudessem ter mais descansos ou férias, com menos número de dias.
Por exemplo, quatro períodos de vinte dias, a razão de um por trimestre. Seria mais racional, tal como o é na maioria dos países europeus. Sem perder de vista que o descanso nos estudos é vitalmente necessário, e, se se aproveita adequadamente, muito melhor. Como quando se participa em atividades artísticas ou lúdicas, organizadas para rapazes. Com a finalidade de despertar afeições positivas em crianças e jovens, e ensiná-los a utilizar positivamente o tempo de lazer.
Porque ademais jogar é essencial para a formação psico-física de nenos e nenas. Tão importante como comer. Tema do que temos que convencer antes de nada mães e pais. Mais tarde os docentes, alguns dos quais não são conscientes do profundo valor educativo do jogo. E esquecem-se rapidamente de que o grande pedagogo romano Quintiliano já dizia há milhares de anos que a melhor maneira de ensinar aos rapazes é por meio do jogo.
Também há que consciencializar os administradores educativos sobre o que assertamos, e os dirigentes municipalistas. Os que nos últimos dezassete anos, com o apoio da Deputação Provincial, organizamos o programa denominado “Ourense Lúdico”, com atividades artísticas e lúdicas para crianças de 3 a 14 anos, temos isto muito claro e muito presente.
Para falar do tema do jogo na infância escolhi, acho que de forma acertada, o famoso filme francês “A guerra dos botões”, premiado em 1962 com o prémio Jean Vigo ao melhor filme, e que naquela altura, cativou muitos amantes do cinema.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: La guerre des boutons (A guerra dos botões)
Diretor : Yves Robert (França, 1962, 90 min., branco e preto).
Roteiro: François Boyer, baseado no livro de Louis Pergaud.
Fotografia: André Bac. Música : José Berghmans.
Intérpretes: Jacques Dufilho, Michel Galabru, Jean Richard, Pierre Trabaut, Pierre Tchernia, Yvette Etiévant e Michele Meritz.
Sinopse: É o retorno às aulas. Como todos os anos, os estudantes de Longeverne, liderados polo rapaz Lebrac, declaram a “guerra” aos da aldeia vizinha de Velrans. Numa dessas “batalhas”, este rapaz tem uma ideia brilhante: arrancar todos os botões e confiscar os cintos dos presos, para que sejam castigados polos próprios pais. O filme é uma sátira formidável da guerra dos adultos e amostra o importante que é o jogo na etapa infantil. Demonstrando como a imaginação das crianças se põe a funcionar durante as brincadeiras, enredos e jogos. No que têm muito que ver os modelos adultos e a influência que estes têm na vida das crianças.
O jogo é o alimento do espírito:
Depois de ver este formoso filme e refletir sobre o mesmo, pode concluir-se sobre a veracidade de que os rapazes aprendem por imitação, e muito mais do que veem fazer aos adultos e do ambiente que os rodeia. Por isto, a conduta dos maiores e dos educadores teria que ser sempre modelar, devido à sua enorme influência no comportamento de crianças e jovens e nas suas aprendizagens apreciativas.
No filme os rapazes querem jogar a adultos, seguindo a sua inata tendência de querer sempre jogar e brincar, imitando as guerras dos maiores. Hoje ninguém pode discutir sobre a importância que o jogo tem na infância, e também na juventude e terceira idade. Grandes pedagogos e psicopedagógos como Piaget, Chateau, Claperède, Decroly, Montessori, Huizinga e todos os educadores da Escola Nova, com os seus escritos e pesquisas, apoiam o que assertamos.
Por isso, é vitalmente necessário criar tempos e espaços para os jogos e brincadeiras das crianças, nos centros de ensino, nas alamedas, nos espaços abertos, nos centros sociais…e dar-lhe o valor que realmente têm para a sua formação psicomotora, intelectual e afetiva. Sem se esquecerem os docentes de todos os níveis do ensino, que a melhor estratégia didática para conseguir a sua motivação e aprendizagens, é a de ensinar jogando. E, para isto, existem muitos jogos didáticos e outros que podem ser criados e inventados polos ensinantes e polos alunos. Jogos de tabuleiro (jogo da glória, ludo…) que podem ter conteúdos culturais nos seus desenhos, jogos dramáticos e teatrais, musicais, manualidades temáticas, etc. Jogos simbólicos em que os estudantes sejam protagonistas como no filme que comentamos, jogos ao ar livre e desportivos, jogos na natureza, jogos aquáticos, literários, conta-contos, encenações, revistas orais, programas de rádio levados polos rapazes, filatelia, coleções de cromos e postais, intercâmbios escolares, jornais escolares, sempre com alegria e senso lúdico.
De resto não podemos esquecer, polo seu grande valor cultural, histórico e educativo, os nossos jogos tradicionais ou populares. A Galiza é, sem dúvida, o povo com uma cultura popular mais rica neste tema, junto com a portuguesa e a bengali indiana. Os estudos de Risco, Ben-Cho-Shei, Taboada, Bouça-Brei, Lourenço, Romaní, Brandim, Pires de Lima, e muito especialmente, António Cabral, há poucos anos desaparecido na cidade lusa de Vila Real, de recolha de jogos dos nossos antergos, assim o demonstram. Jogos com recursos e materiais, que podemos construir nós, como os bilros, a bilharda, a rã, as argolas, a corda, o pião, a turra-soga, os sacos, as olas ou a farinha, são modelares. Mas também existem muitos que não necessitam mais que espaço e desejos de brincar: o marro, o sapo, o pano, o truque, as escondidas, a viola, a pita-cega, os carros romanos, as corridas, a carretinha, o cavalo…
O que necessitamos é que famílias, docentes, administradores educativos e toda a sociedade, acreditem no que comentamos mais acima e apoiem de forma decidida que crianças e jovens tenham tempo, onde e com que jogar. E que nas escolas se lhe dê mais valor ao jogo infantil polo seu grande valor formativo. E, se puder ser, prescindir dos chamados “come-come” ou jogos de computador, tão funestos.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.


