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Isaac A. Estraviz: «Bilinguismo pessoal é uma riqueza. Bilinguismo territorial é uma pobreza»

PGL – “Usemos a nossa fala” foi o título duma conferência do professor Isaac Alonso Estraviz no passado 26 de abril convidado pelo grupo de Pensionistas e Jubilados do sindicato Comisións Obreiras de Ourense. Nela, o vice-presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), dissertou sobre a nossa língua e encorajou a usá-la “com naturalidade e orgulho”, como se faz em toda parte.

O professor Estraviz começou a conferência lembrando um facto praticamente universal, normal, cujas exceções delatam inequivocamente a existência duma situação de dominação: em todo lugar a gente fala sua língua sem pedir permissão ao visitante. Os próprios galegos adotaram as línguas dos países de destino sem isso implicar a renúncia ou o desprezo à língua própria. Por que os galegos não vão falar “com naturalidade e orgulho” na sua língua como sabem que se faz em toda parte?

A pertença a Espanha ou o preceito constitucional do dever de conhecer o castelhano não empecem em nada o dever moral de respeitar a nossa herança cultural, nem exige a renúncia ou desapego a respeito do que é uma riqueza da humanidade. Se os galegos somos espanhóis só podemos sê-lo em quanto galegos; se o galego é um idioma espanhol, como afirma a Constituição de 1978, “terá a mesma dignidade que o castelhano”.

Neste sentido, o professor Estraviz distingue com clareza o bilinguismo pessoal, uma riqueza para o indivíduo e, portanto, para a comunidade, do bilinguismo territorial, que empobrece a comunidade e, portanto, a todos. Pois não há convivência possível entre duas línguas em contato: “uma termina por enfraquecer, debilitar, ir substituindo a outra até que a faz desaparecer totalmente, ficando alguns substratos quase impercetíveis polos utentes.” Que este bilinguismo não é a riqueza que dizem seus defensores prova-o que nenhum deles o propugne para as comunidades monolingues espanholas. Por isso afirma com ironia “que [ele não quer] privilégios que não sejam comuns a todos”. Só o monolinguismo social possibilita a supervivência vigorosa dos idiomas e as culturas sem debilitar por isso a “unidade nacional”, que não é o mesmo que homogeneidade, como prova o desenvolvimento económico e cultural alcançado por países com vários idiomas como a Bélgica ou a Suíça. O problema reside na “sarta de mentiras” em que consiste a história de Espanha que conforma as atitudes da gente, da que quase se pode dizer que tem por fio a negação da Galiza e do galego.

O professor Estraviz denuncia a incoerência oportunista dos que premeiam os defensores da hegemonia do castelhano em Porto Rico e vituperam os defensores das línguas ‘espanholas’ da Galiza, Catalunha ou Euskadi. De facto, o período do chamado “bilinguismo harmónico” (uma contradictio in terminis, se não um placebo ou coartada para não sentir a ignomínia) levou o galego a uma situação quase terminal, como prova “que nos últimos quarenta anos se perdeu mais galego que nos quinhentos anos anteriores”.

Por isso, o professor encoraja a falarmos com “orgulho e dignidade” o nosso idioma porque só assim, sem renunciar ao próprio, poderemos enriquecer outros e a nós próprios: com efeito, só se aprende a partir do que um é.  A defeção de muitos galegos faz-se mais ignominiosa se a comparamos com a atitude aberta e integradora dos que, chegados à nossa terra, sem “necessidade”, adotaram com entusiasmo a nossa língua,

Concluiu a conferência recalcando, frente inveterados preconceitos e sentimentos de inferioridade, aos que não foi nem é alheia uma instituição tão importante do ponto de vista histórico e cultural como a Igreja Católica, a “enorme riqueza da nossa língua”. Como língua românica é uma ponte com muitas outras, muitas delas de relevância histórica universal; sua riqueza vocabular, como ele próprio comprova no sucessivo enriquecimento de seu famoso dicionário, não cede ante nenhuma das grandes línguas de cultura; mas também do ponto de vista estritamente económico ou comercial, com o nome de português, é um instrumento de comunicação em todos os continentes. O que qualquer um pode comprovar se em lugar de sair da Galiza pelo leste escolhe a outra saída terrestre da nossa terra.

À conferência seguiu uma animada conversa com os assistentes.

 

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