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Homenagem ao cineasta Eloi Lozano Coelho, com a sua filmografia de cinema galego

Eloi Lozano Belas dormentes FilmeImersos ainda nas jornadas dedicadas às Letras Galegas, quero aproveitar para fazer uma homenagem a um cineasta galego falecido em 2009, quando ainda tinha por diante muitos anos para continuar realizando cinema sobre muitos dos temas da nossa cultura. Eloi Lozano (1953-2009) foi também um meu grande amigo e quero lembrar o muito que nos ajudou aos que dirigíamos o Cinema Clube “Padre Feijóo”, as Jornadas do Cinema de Ourense e as Mostras Cinematográficas de Arte e Ensaio nas festas maiores da cidade das Burgas. Eu contava com a sua profunda amizade e ele com a minha desde havia muitos anos quando faleceu em Compostela. Eram também muito amigos meus seu pai e sua mãe, mestra que foi do colégio de Amoeiro, e já desaparecidos. Lozano conheci-o pela primeira vez a princípios dos anos setenta. Quando chegava de Madrid com o seu flamante título de diretor cinematográfico, depois de terminados os seus estudos de cinema. Também eu terminara na Complutense em 1971 os de Pedagogia. Sempre valorizei positivamente este cineasta, de especial sensibilidade, como verdadeiro artista que era, pela imagem e pela cultura. O apreciei sempre e sempre me dei muito bem com ele. Lamento que na cidade ourensana, que terminou por abandonar, fosse um incompreendido. Como grande amante do cinema que era, ajudou sempre o Cine Clube, tal como comentei. Na sua programação e noutras importantes atividades, de 1973 a 1978. Nas primeiras Jornadas apresentara a sua curta-metragem em 35 mm. “Retorno a Tagen Ata”, baseada num relato de Ferrim, e produzido pelo carvalhinhês Ismael González. E, em 16 mm., Os Oleiros, documentário dedicado aos oleiros de Ninho d´Águia, Meder-Salvaterra, Bunho, Nogueira de Ramuim e Gundivós. Documentário magnífico, merecedor de ser editado em DVD, que projetamos várias vezes nas nossas Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal. Mesmo foi ele quem recuperou o filme etnográfico O carro e o homem, do ourensano António Romam, com voz de Joaquim Lourenço (“Jocas”), como já comentei num depoimento anterior. Foi ele também quem ajudou no seu momento a salvar o Cine Clube, ao recuperar os projetores de 35 mm. marca OSA-VI do Cine Avenida, que estavam no colégio das freiras de Maceda. E que ainda devem estar instalados na Casa de Cultura da rua ourensana do Concelho. Gostava muito do cinema oriental e japonês, como o de Kurosawa e Ichikawa. Não deve admirar, por isso, que chegasse a filmar As belas dormintes, a sua longa-metragem baseada no romance de Yasunari Kawabata, prémio Nobel de literatura. Olhando há pouco os seus dous últimos filmes, que me surpreenderam gratamente, ao visionar a desfeita urbanística levada a cabo nos últimos tempos na Galiza, amostrada num dos dous filmes, lembrei o muito que gostava do filme Le mani sulla città (As mãos sobre a cidade) do italiano Rossi. Que no seu dia fora projetado, a proposta sua, no Cine Clube ourensano. Era um cineclubista exemplar, que não perdia nenhuma das sessões. Em muitos momentos ajudou, orientando sobre filmes e ciclos e participando na organização das atividades mais interessantes. Porque Lozano tinha uma sensibilidade especial para a linguagem icónica. Era um vanguardista e um adiantado em muitos temas. Por isso também foi um incompreendido, tanto na cidade das Burgas, como na Galiza. Ainda lembro o entusiasmo que tinha por pôr a andar o primeiro festival de cinema independente de Ourense (OUFF), projeto seu que graças ao meu apoio e ao de Bobilho, com todos contra, foi logo aceitado pelo conselho municipal de cultura naquela altura. Infelizmente, por desavenças com o inefável ex-alcaide Cabezas, na seguinte edição Lozano apartou-se do projeto por ele criado.

De uma das cousas de que mais orgulhoso me sinto é de fazer parte no ano 1975 do grupo “Adepende”, que com a sua reivindicação logrou salvar da piqueta o Teatro Principal da rua da Paz. O grupo formávamo-lo o arquiteto Iago Seara, Eloi Lozano, o pintor Pepe Conde Corbal, que era a alma mater do grupo, e eu mesmo como pedagogo. Maribel Outeirinho apoiava-nos muito desde as páginas do diário local, e foi também inestimável a colaboração do Colégio de Arquitetos. Aí foi onde melhor conheci a valia de Eloi e onde forjei a minha amizade com ele e com os demais do grupo. De Eloi lembro muitas cousas positivas e tenho muitas anedotas, especialmente relacionadas com o cinema, paixão comum em nós os dous. Lozano gostava muito do cinema oriental, igual que eu, de Kurosawa, Mizoguchi, Ozu, Ichikawa, Oshima, Ray. Também dos grandes como Ford, Welles, Tourneur, Lang, Kazan, Eisenstein, Renoir, Visconti, Fellini, os Taviani, Bunhuel, Erice, Berlanga, Herzog, Wajda, Menzel, Wenders… Como eu, gostava muito do cinema do grego Angelopoulos e do húngaro Jancsó. Há um filme que realmente o entusiasmava, Iluminação do polaco Kristof Zanussi. E como eu, amava também os clássicos e os grandes filmes do cinema mudo. E o cinema de animação do canadiano Norman MacLaren e do checo Jiri Trnka.

IslBGDe forma totalmente injusta Eloi nunca foi apoiado na sua cidade, apesar da sua grande valia e capacidade criativa. Mesmo Blanco Amor não lhe cedeu no seu dia os direitos para rodar A Esmorga. Igual que Conde Corbal, partiu de Ourense com verdadeira desilusão. Incompreendidos, como quem subscreve este depoimento, na cidade que amavam, passam a fazer parte do grupo que Risco nomeou, frente aos “filisteus”, como “inadaptados”. Quiçá por ir muito à frente dos demais, por querer a sua cidade e por trabalhar por ela sem descanso. Eloi deixou-nos fisicamente num triste dia de abril de 2009. A sua lembrança, o seu poder criativo, a sua amizade, o seu labor, ficarão sempre permanentes na nossa mente e, especialmente, no nosso coração. E hão de vir agora reivindicá-lo os que, podendo ajudá-lo quando o necessitava, declinaram o apoio que bem merecia. Este é o signo que lhes espera aos bons e generosos da Nossa Terra como Eloi Lozano.

O Festival de Cinema de Ourense, na sua décimo quarta edição, teve o grande acerto de homenagear Lozano de forma póstuma bem merecida, que foi o criador do mesmo no ano 1996. Também ao nosso mais importante romancista, Eduardo Blanco Amor, no ano em que se celebrava o cinquentenário da primeira edição do seu excelente romance A Esmorga, cuja ação decorre pela cidade ourensana e os seus bairros. E está considerado como o mais importante romance da nossa literatura. Curiosamente, entre os dous homenageados, existiu uma relação de amor-ódio. Lozano tinha escrito o roteiro em galego de A Esmorga. Ambicionava rodar este filme com Landa de protagonista. Mas, depois de idas e vindas, Blanco Amor (de maneira muito desacertada) preferiu vender-lhe os direitos ao asturiano Gonzalo Suárez. Que a rodou em castelhano, em espaços das Astúrias, e não, como lhe correspondia, nos da nossa cidade. Deste filme só salvamos o elenco dos seus grandes atores. Lozano e seus pais, Eloi e Xaviera, mestra em Amoeiro, que eu muito apreciei também, ficaram muito frustrados. Lozano nunca esqueceu que Blanco Amor declinasse apoiar um jovem que se iniciava nas artes cinematográficas. Um Blanco Amor tão narcisista e ególatra, como extraordinário escritor. Os seus livros Gente ao longe, Os biosbardos e A Catedral e o neno, são magníficos para levar ao cinema. Assim como muitas das suas Farsas para títeres. De A Esmorga em galego já existe uma versão recente, que está a ter um grande sucesso.

FILMOGRAFIA COMO REALIZADOR CINEMATOGRÁFICO:

1. T.O.: Retorno a Tagen Ata (Galiza, 1974, 17 min., a cores, curta-metragem falada em galego).

  • Roteiro: Eloi Lozano, baseado no relato do mesmo título de J.L.M. Ferrim.
  • Fotografia: A. Ballesteros e Tucho Rodríguez. Música: Pink Floyd. Iluminação e som: Eloi Barreiro.
  • Atores: Alfredo Cortón, Manolo Gómez, Ângelo Martínez, Pepe de Lage, Delfina Meire e Lourdes Soto.
  • Argumento: Uma moça chega a um país sem liberdade, enviada por uma organização política no exílio. Rodada na Merca e na Valençã, recria o regresso de Rotbaf Luden à terra da sua família para entrevistar-se com o líder do movimento de libertação nacional de Tagen Ata no interior. O enigmático Ulm Roam, personagem em que muitos viram um trasunto do omnipresente Ramom Pinheiro, comunica-lhe à moça que a luita terminou. Terra Ancha está preparada para conceder um estatuto de autonomia ao país, reconhecendo a sua língua e delegando-lhe competências sobre ensino e obras públicas. Não há portanto motivos para continuar nem para reivindicações maximalistas. Fim da resistência e da luita armada.
  • Nota: O CGAI fez uma nova cópia a partir do negativo, que fora rodado em 35 mm. com versão original em idioma galego, depositado por Mª de las Cuevas, viúva do realizador.

2. T.O.: Os Oleiros (Galiza, 1975, 25 min., a cores, documentário em 16 mm. falado em galego).

  • Eloi Lozano Os oleiros Filme2Roteiro e argumento: Eloi Lozano. Produtora: Ana Mª Fernández Puentes.
  • Fotografia: Guilherme Santoro, Fernando del Rio e João Carlos Fdez. Pulpeiro.
  • Montagem: Tucho Rodríguez. Som: João Carlos Fedez. Pulpeiro.
  • Atores: Oleiros de Ninho d´águia, Nogueira, Salvaterra (Meder) e Bunho.
  • Argumento: O tema dos artesãos do barro chamados oleiros, criadores da olaria popular galega serve de algum jeito, de exemplo demonstrativo, de como é hoje a situação da Galiza rural. O filme tem um claro senso antimuseístico. O filme deixa agromar na demora dos primeiros planos a memória da repressão na Galiza.

3. T.O.: O Castinheiro (Galiza, 1979, 11 min., a cores, documentário didático sobre uma das nossas árvores mais importante).

  • Roteiro e produção: Eloi Lozano. Ajudante de direção: Lucila franqueira.
  • Ajudante de fotografia: Ângelo Lozano.
  • Argumento: Documentário sobre a vida e biologia do castanheiro.

4. T.O.: Quatro escultores (Galiza, 1986, 18 min., a cores, documentário faladado em galego).

  • Roteiro: Eloi Lozano. Nota: DVD disponível no CGAI.
  • Argumento: O filme explora a criação plástica dos escultores galegos Francisco Leiro, Manolo Paz, Francisco Pestana e Henrique Velasco.

5. T.O.: Numerália (Galiza, 1988, 3 min., a cores, documentário de cinema experimental ou Videocriação).

  • Roteiro: Eloi Lozano, Nota: DVD disponível no CGAI.
  • Argumento: Combinação de cores e números numa animação experimental, que nos lembra o cinema de animação do canadiano Norman MacLaren.

6. T.O.: Entrevista (Galiza, 1993, 10 min., a cores, curta-metragem).

  • Roteiro: Eloi Lozano (baseado num relato de Rubem Fonseca). Ajudante de direção: Xavier Bermúdez.
  • Diretor de produção: Carlos Garcia. Nota: DVD disponível no CGAI.
  • Atores: Fabiola Toledo e o pintor Antom Lamazares.
  • Argumento: Uma mulher dirige-se, através de uma populosa cidade, à casa de um homem que a está a aguardar. Ele mostra-se relutante a identificar-se e a ser visto, iniciando-se uma conversa tensa sobre o passado da mulher, com uma violenta relação com o seu marido, do qual já se encontra libertada.

7. T.O.: Belas dormentes (Galiza, 2001, 120 min., a cores, longa-metragem).

  • Eloi Lozano Belas dormentes cartaz FilmeRoteiro: Eloi Lozano, baseado no romance de Yasunari Kawabata, Prémio Nobel de Literatura de 1968.
  • Diretor de produção: António Gonzalo. Produtor: Ângelo Lozano. Montagem: Martín Eller.
  • Fotografia: Tomás Pladevall. Som: Miguel Polo. Decorados: João Calvário.
  • Figurinista: Estivaliz Markiegi. Maquilagem: Raquel Fidalgo. Produtoras: TVG e Junta da Galiza.
  • Atores: Teresa Gimpera, Xabier Elorriaga, Jane Bautista, Clive Arrindell, Brendan Price, Denis Rafter, Mapi Galán e Unax Ugalde.
  • Argumento: Lawrence, escritor de prestígio e professor universitário, chega aos seus 60 anos a uma antiga cidade para passar o curso de inverno. Ali, por meio de seu colega Elias, descobre uma casa muito especial às aforas da cidade, governada por uma mulher hermética e misteriosa, chamada Salomé. Nesta casa, homens maduros passam a noite junto de moças novas narcotizadas, que permanecem tranquilamente sedadas. O filme foi rodado em Compostela, Vigo, Ponte Vedra e Corunha. Lozano trasladou a sensibilidade galega à ação do romance, pulsando os elementos psicológicos, eróticos, mágicos e filosóficos da obra. Na história que conta o filme, um professor e escritor estrangeiro chega a Compostela e descobre uma casa onde se pode dormir com mulheres muito jovens, que são virgens. E a partir daí começa a lembrar cousas do seu passado, reflete sobre a sua vida, a sua idade e as relações com as mulheres. Não se trata de um prostíbulo, mas de um lugar onde um homem pode dormir com mulheres virgens, embora sem chegar a realizar o ato sexual.

8. T.O.: Ideia e território. César Portela, arquiteto (Galiza, 2002, 26 min., a cores, documentário).

  • Roteiro: Ângelo e Eloi Lozano. Fotografia: Heitor Cerdeira, Alberto Fraga e António Vales.
  • Apresentação e locução: César Portela, arquiteto pontevedrês. Nota: DVD disponível no CGAI.
  • Argumento: Documentário em que se achega às últimas obras arquitetónicas do grande arquiteto galego César Portela Fernández-Jardón.

9. T.O.: Negra sombra (Galiza, 2007, 64 min., a cores, documentário etnográfico em galego).

  • Roteiro: Eloi Lozano. Produtoras: Off Films SL. e TVG.
  • Argumento: Uma olhada crítica e incisiva sobre a paisagem urbanística e arquitetónica da Galiza, que está a converter o feísmo em algo muito mais grave que uma anedota estética da Nossa Terra.

10. T.O.: Quem sou? (Galiza, 2008, 85 min., a cores, documentário biográfico em galego).

  • Roteiro: Eloi Lozano. Produtora: Off Films SL.
  • Argumento: Uma visão sobre a Galiza e os seus moradores ao redor da ideia da identidade como base sustentadora das personalidades diferenciadas psicológica e socialmente. Filme introspetivo de si mesmo e do seu próprio conflito, em que reflete sobre a sua própria identidade e/ou a identidade de galegas e galegos. Documentário que, como ele mesmo, expressa uma relação de amor-ódio com a sua Galiza natal, terra da qual estava convencido que o mau que tinha eram os seus habitantes.
  • 11. T.O.: “A ideia construída”. Série para a TVG de 13 episódios, que, a partir de uma visão tanto artística como didática, faz uma viagem em 13 documentários pela obra de outros tantos arquitetos galegos da época e do último meio século, com a sua destacada criatividade, o seu rigor e a sua busca de novas técnicas artísticas e construtivas (Galiza, 2004, 28 min. cada episódio, a cores e com entrevistas aos arquitetos correspondentes). A série foi realizada com o apoio do Conselho da Cultura Galega.
  • Arquitetos protagonistas: César Portela, Iago Seara, Alfonso Penela, Alberto Noguerol, Andrés Fernández-Albalat, José Bar Boo, Alfredo Freixedo, Fernando Blanco, Pedro de Llano, Manuel Gallego Jorreto, Jesus Irisarri, Rafael Baltar e Carlos Meijide.
  • Argumento: A série documental “A ideia construída” achega-nos o trabalho e a figura de treze arquitetos galegos que nos últimos 50 anos abriram novos caminhos pela sua criatividade, rigor construtivo, formulações artísticas e técnicas construtivas relevantes, mas também pelo seu discurso e pensamento pessoal e pela obra construída e representativa. A série pretende afundar no património arquitetónico mais recente criado na Galiza por profissionais galegos, proporcionando uma visão ampla e complexa da arquitetura galega.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Depois de organizar um ciclo cinematográfico com os filmes e documentários da filmografia de Lozano acima citada, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do Cinema-fórum, analisar o fundo e a forma (linguagem fílmica utilizada) de cada um dos filmes, incluída a temática dos mesmos e o seu aproveitamento pedagógico e cultural.

Utilizando a técnica didática freinetiana da Biblioteca do Trabalho, os escolares podem redigir monografias, com textos seus, com fotografias, desenhos e entrevistas, sobre temas tão interessantes, como os que aparecem nos filmes de Eloi Lozano: os oleiros galegos, o castanheiro e a castanha, o património arquitetónico da Galiza, os grandes escultores galegos, os arquitetos da Galiza, a literatura galega, o cinema galego, etc. Estas monografias podem depois ser policopiadas.

Organizar nos estabelecimentos de ensino uma amostra sobre o cineasta galego Eloi Lozano, em que se recolham uma pequena biografia sua, fotos, textos, a sua filmografia, opiniões de outras pessoas sobre a sua figura, o Festival de Cinema de Ourense que ele criou, com uma pequena história do mesmo. E mesmo o seu labor como publicista em Ourense e Compostela.

Se contarmos na escola com infraestrutura adequada, podemos realizar algum documentário sobre um tema a escolher pelos escolares, ou uma curta-metragem de ficção. Os trabalhos realizados podem ser apresentados depois ao certame OUFF do Festival Internacional de Cinema de Ourense.

 

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