É hoje, é o dia, decidi-me a começar! Foi ontem, já foi, não voltará ser mais.
Mas resulta que hoje já foi ontem e talvez seja já amanhã. Como tem sido, (quase) sempre na vida, sempre(,) há um amanhã, e hoje vai começar o que amanhã, e alguma outro dia, começará. Sempre há uma primeira vez para tudo e, sobretudo, sempre há uma primeira vez, um primeiro segundo para o novo dia, para começar a borrar uma página.
A gritar eu me defino:
Quando estava em 6º ou 7º de primária (10/11 anos) um meu professor de língua castelhana e de inglês (parece que o das afins vem de longa data) fez-nos fazer um exercício que na altura não percebi muito bem. A atividade consistia em colocarmo-nos um papel em branco colado nas costas e depois ao ritmo de uma música íamos todos os projetos de pessoas andando pela aula e tínhamos de nos escrever nas costas umas pessoas às outras o que primeiro que se nos viesse à cabeça sobre essa outra pessoa que fitávamos e julgávamos de costas, pela calada.
Estando nessas, numa de tantas viagens mentais baseadas em vivências, pensava o quanto úteis podem chegar a ser as alcunhas numa comunidade. As alcunhas como identificação e reconhecimento, como idiossincrasias próprias, como primeiro passo para a tolerância, a inclusão e a condescendência, no bom sentido do termo, no comum das vidas do comum. Como primeiro passo para a (auto)aceitação e o (auto)conhecimento.
Um outro dia qualquer, passados muitos anos, tantos como quase ¼ de vida, fui de viagem ao Gerês e lá, no bailarico, à roda duma banda bem pimba, alguém chamou para entrar em cena ao bêbedo da aldeia, que ainda por cima devia ter sido também a pessoa com ‘necessidades educativas especiais’ que nunca teve nem educação, nem nada especial para ela. O ébrio fez questão, e assim, Sicrano, enchendo mais a cara, deu a cara e subiu ao palco onde dançou, fez cenas e deu nas vistas para o público. A maior parte do auditório ria ou fazia a vista grossa ficando na sua, mas, as pessoas urbanitas que ali estávamos entramos em choque por uns instantes, por acharmos o ato cruel e desajeitado.
Contudo, contrariada e em contradição, eu logo mudei a minha opinião e ideia da realidade; o patife estava a receber a maior mostra de afeto, respeito e reconhecimento que o seu povo podia oferecer-lhe naquele momento. Ele era, ele estava, ele fazia parte, mesmo sendo o que estava sempre com a pinga. Mesmo sendo o chamado de Bebedolas. Era a parte equilibrista, do bêbado.
Um outro dia mostro o que a mim me escreveram, aquando o exercício.
Louro, Veleta, Patán, Carrapica, Monhas, Gata, Lercha, Taconatá, Pote, Breu, Cachuchas, Carrancha, Porca, Cândida, Pachara, Baldas, Chana… Brincamos?
