Fiquei contente pela recente nomeação de uma mulher, María Victoria Moreno, para o Dia das Letras Galegas 2018. É apenas a quarta ao longo destes 55 anos de celebração deste dia que começou muito bem, inaugurado com Rosalia, embora cedo brilhassem pela sua ausência novas pessoas de sexo feminino. A Real Academia Galega fez o seu veredito mais um ano. Quase no mesmo momento que isto acontecia Teresa Moure era nomeada académica da Academia da Língua Portuguesa na Galiza. Fiquei ainda mais contente por esta condecoração.
O Mecanoescrito da Segunda Orixe (1974) foi um dos primeiros livros que provavelmente muito pessoal de várias gerações leu, marcando aí alguma coisa, ou não. É um livro mítico, crítico, poético, simbólico e até algo erótico. Como este livro traduzido em 1989 pela nova homenageada pelo Dia das nossas letras (um plural muito oportuno, já agora) esperamos que esta nova escolha inicie um novo período de ressurreição das nossas letras (que são muitas), uma segunda origem das coisas que nos atingem em relação às nossas ‘verbas’.
Maria Victoria Moreno nasceu no limite entre o português e o castelhano, seria já numa sorte de ‘galego’ que ela cresceu? Nasceu numa vila, Valência de Alcântara, que entre 1644 e 1648 pertenceu a Portugal. Veio trabalhar e viver para a Galiza e aqui escreveu toda a sua vasta obra na língua galega e não em castelhano. Será que a Anagnórise foi uma das coisas que marcou a sua vida? Será que a Galiza terá algum dia a sua própria anagnórise e acordará do seu triste sono de Breogão para alargar a sua vida ao Mar adiante composto por inúmeras letras entre as quais os dígrafos NH e LH?
María Victoria Moreno segundo a sua realidade, como Teresa Moure, decidiu não ir por onde estava marcado, não ir por aí, decidiu apanhar a tangente, quis ser a quadratura do círculo, criar circunferências tangentes externas e não internas.
«Eu non son alófona porque o que practico, se é que escribo, podería definirse coma unha amorosa autofonía (…). A miña relación con Galicia e a miña opción pola súa lingua é simplemente unha historia de amor.»1
Sejamos mais equanimes, conciliemos mais os quereres, pois o tempo passa e as fonias ingénuas, reais, cativas, de nosso, de seu, próprias, cada vez têm menos identidade e menos audibilidade. Tenhamos uma segunda origem entre premissas numa lógica de um novo silogismo possível:
Todo o português foi galego-português
O galego quer voltar ser um pouco galego-português
Então, será que galego pode ser ainda (meio-) português?
Parabéns a María Victoria Moreno. Desta vez a procrastinação foi um pouco mais justa. Ricardo Carvalho Calero, paciência, que implica tolerância e perseverança. Muitíssimos parabéns a Teresa Moure. A Academia de Segunda Origem cada dia mais legítima.
Notas:
1—Mª Victoria Moreno em 1993, no congresso “Poetas alófonos en lingua galega”
