Alexandre Anhel Cuquejo – Pois sim, Gibraltar é um bocadinho de Andaluzia, não cabe a menor dúvida. A existência de Gibraltar como território britânico é absolutamente legítima e ajustada a direito; ao direito nascido dum tratado o de Utrecht.
É tão ajustada a direito a sua posse, que o peculiar ministro de exteriores do Reino de Espanha, o Sr. Margallo1, quem acaba dedicando a maioria do seu tempo a pedir desculpas internacionais, pelas suas continuas impertinências, -de nenhum jeito quererá que isso se discuta no quadro europeu-, pelo Tribunal de Justiça da União Europeia.
Porque o governo Rajoi não reclama a Sardenha?, também ela foi entregue por esse tratado de Utrecht….. isso é muito melhor peça não acham, mas hoje isso não teria siso..
Um pequeno apontamento: É certo o que diz Margallo de que no tratado de Utrecht não se falava de águas territoriais, sim é bem certo, mas daquela tampouco havia águas territoriais em nenhum estado do mundo. Isso não é mais que fume do sr. Margallo, sempre a tentar confundir…. e com tão poucos argumentos.
Sim, os britânicos criam arrecifes artificiais nas suas águas, porém a Comunidade andaluza já fez isso antes e nas mesmas águas da baía de Algeciras e também com protestos de pescadores, mas todos acharam bons os argumentos para defenderem isso mesmo, em águas dessa mesma baia.
Gibraltar está na União Europeia, e se algo há na União europeia é livre circulação, é absolutamente estupido o argumento de paraíso fiscal. Na União europeia há uns quantos, a começar pelo mais grande Luxemburgo e nenhum vizinho faz problemas… Estamos mais uma vez ante o fala-barato com uma bandeira à que todas as forças espanholas se somam direita e esquerda, e com assunto que ninguém ousa questionar….semos hespanholes o que, e de passo tenta-se tapar a desvergonha corrupta peppeira que ocupa tantos meios.
Não estarão Margallo/Rajoi, com o assunto Gibraltar, tentando dar resposta, ao facto de que o Sr. Cameron lhes lembrou que a gente tem direito a decidir e os povos direito de autodeterminação. Não estaremos com esta mostra de nacionalismo integralista a tentarem fechar fileiras para próximas batalhas de mais calado.
Se algum estado carece de legitimidade e honra para abrir a boca nestes temas, esse estado é o estado espanhol. Poucos estados há como o estado espanhol, que converteram sistematicamente tratados e acordos internacionais (e internos) em águas de bacalhau.
Não há que se retrotrair na história, os exemplos são inúmeros, como botão de mostra chega com compararmos o comportamento inglês em Gibraltar após um tratado que lhe dá legitimidade e o comportamento espanhol sobre o território de Olivença e após de assinar um tratado onde acorda a sua reintegração a Portugal, tratado de Viena de 1815.
Eis leitores a comparança das política aplicadas em Olivença, e como brilha infeliz com a aplicada aos andaluzes de Gibraltar, a limpeza étnica impulsionada em Olivença.
Esse domínio inglês2 nunca levou aos ingleses a adotar em Gibraltar, a mais mínima medida contra o uso do andaluz/castelhano, nem o castelhano teve nesse lugar a mais mínima perseguição, as missas católicas seguem-se a poder escutar em castelhano. Trezentos anos depois todos os gibraltarenses continuam a saberem falar todos a variante andaluza do castelhano.
Depois de duzentos anos de domínio ilegítimo e contra os tratados3, do território português de Olivença4, Espanha adotou todo tipo de medidas contra o português.
A esse respeito a comunicação do professor Carlos Luna, no Colóquio da Lusofonia celebrado em Bragança em 2007, da boa informação.
Eis; “A história de Olivença tem que ser contada, uma e outra vez, enquanto é tempo. O drama começou em 1801… Tem-se aqui de se referir toda uma política. Não se pretende levantar uma polemica, mas não é possível compreender o que se passou, e a situação atual, ocultando-se fatos decisivos.
Assim, já em 26 de Janeiro de 1805, suspendeu-se, naturalmente, o uso da moeda portuguesa em Olivença. As autoridades espanholas comunicaram então a vários ofícios, nomeadamente aos aguadeiros, que era obrigatório usar medidas espanholas (referiam-se a comprimento, peso, volume, etc.).
Claro que a Língua não tardaria a sofrer as consequências. A 20 de Fevereiro de 1805, foi decidido suprimir toda e qualquer escola portuguesa, bem como o ensino do Português. A 14 de Agosto de 1805, as atas da Câmara Municipal passaram a ser escritas obrigatoriamente em Castelhano, o que fez uma vítima: Vicente Vieira Valério. Este, negando-se a escrever na Língua de Cervantes, teve de ceder o lugar a outro. E acabou por morrer à míngua de recursos, personificando um drama cujo desenvolvimento se processaria, geração após geração.
Há notícias de oposição dos oliventinos a estas medidas. As Escolas privadas continuaram a ministrar ensino em Português, até que são fechadas a 19 de Maio de 1813, com o propósito (oficial) “de evitar qualquer sentimento patriótico lusitano” ( A.M.O. leg/Carp 7/2-18, 19-05-1813, n.º 1324; revelado por Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, “Olivenza en su História”, Olivença, 1999 ).
Mas, porque eram muitos os oliventinos que queriam que os seus filhos fossem educados na língua materna, continuaram a existir professores particulares para o fazer. O “Ayuntamiento” não hesitou, e proibiram-se “as aulas particulares, sob pena de multa de 20 Ducados”, em 1820 (A.M.O. leg/Carp 8/1-171, 7-10-1820, n.º 1704; revelado, também, por Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, “Olivenza en su História”, Olivença, 1999).
A população oliventina mantinha as velhas tradições, a vários níveis, procurando agir como se nada tivesse mudado. Mas tal foi sendo cada vez mais difícil, e muita gente foi emigrando de volta ao além do rio Guadiana, principalmente para as povoações portuguesas mais próximas, (limpeza étnica), e substituídos por imigrantes de fala castelhana.
Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola (recorde-se: efetuada em 1801), o Português foi proibido em Olivença, inclusivamente nas Igrejas. O combate contra a Língua de Camões já vinha de trás, todavia.
Algumas elites foram aceitando o castelhano. O Português foi-se mantendo, teimosamente, principalmente a nível popular. Numa deliciosa toada alentejana, que logo as autoridades, vigilantes, classificaram como “chaporreo”, palavra de difícil tradução (talvez “patois”; talvez “deturpação”), que criou complexos de inferioridade nos utilizadores, levando-os, cada vez mais, a usar a Língua Tradicional apenas a nível caseiro, dentro do aconchego do lar, em público, quase só por distração, ou com amigos próximos”.
Nada mais a comentar sobre isso, os factos comentam-se por sim próprios.
Mas a respeito de Gibraltar temos que afirmar agora, que Gibraltar é um território não espanhol legitimamente, e hoje em dia tem o absoluto direito de autodeterminação, partindo da legitimidade da sua existência.
Porém o estado espanhol não gosta de reconhecer direitos, nem de que as pessoas votem e determinem livremente o seu futuro…gosta mais dos bombardeamentos, da limpeza étnica, da imposição com a que democratas como Peces Barba (um dos pais da constituição) faziam conto, com o prático que eram os bombardeamentos cada 50 anos sobre a Catalunha…
Notas:
1 O Sr Margallo para consumo interno é vendedor de fume reconhecido.
2 Por que o nacionalismo espanhol reclama Gibraltar e não a Catalunha norte (Roselhão) cedida à França pelo tratado dos Pirineus; tão legítima seria uma reclamação como outra; ou porque não reclama a ilha da Sardenha, cedida no mesmo tratado de Utrecht?
Euscadi norte passou a França como dote que acompanhou a coroação do rei de Navarra Henrique III, como Henrique IVda França.
3 Na convenção de Viena de 1815, Espanha comprometesse a restabelecer a situação das fronteiras ao período anterior a guerra.
