Galiza Bilíngue (I)



Perder nunca é agradável, nem sequer uma discussão de bar. Deixar o galego esmorecer no nosso país com a sensação de que não se pode fazer nada é deprimente. E perder o debate da língua cedendo os argumentos mais potentes a quem quer acabar com ela é absolutamente patético.

Um coletivo que defende exclusivamente uma língua e que fai todo o possível para a outra desaparecer não se pode denominar “bilíngue”. Bilíngue sou eu, que me podo expressar indistintamente em galego ou em castelhano, como qualquer outra pessoa do movimento normalizador. Por que teimamos em negar a nossa natureza privilegiada?

Alguém de nós nega a importância de as nossas filhas terem também uma boa competência em castelhano? Acho que não. No entanto, há outra gente que trabalha para as suas filhas não terem contacto nenhum com o galego e permitimos-lhe utilizar em exclusiva o conceito de “bilíngues”.

É o momento de esclarecermos uma série de conceitos e de tirar prejuízos. A experiência catalã demonstrou que a imersão na língua própria é o melhor sistema para evitar guetos linguísticos e para conseguir um bilinguismo real, e esta imersão deve ir acompanhada de um uso preferente polos poderes público. A nossa sociedade está programada para aprendermos tornillo, guante ou grúa (mesmo sem termos uma grande formação académica), mas para dizermos parafuso, luva ou guindaste precisamos do sistema educativo (e da lusofonia).

O bilinguismo é positivo para o funcionamento do cérebro e também nos ajuda depois a adquirirmos outras línguas. Mas tem que ser um bilinguismo real, onde as duas línguas estejam bem estabelecidas. Esse bilinguismo castelhano-inglês que vende, por exemplo, a Comunidad de Madrid, é fictício, pois o inglês não é uma língua ambiental nesse território e o estudantado madrileno vai ter uma competência nessa língua muito mais baixa do que em castelhano.

Vivemos num território onde se falam as duas línguas romances mais extensas: o galego-português e o castelhano-espanhol, meia Europa sonharia por um contexto como o nosso. Para isto continuar, é preciso reforçarmos a parte que tem mais dificuldades, que é claramente o galego. Em caso contrário, perderíamos os benefícios do bilinguismo.

Parece que toda a humanidade quer ser bilíngue exceto nós, que o somos.

Eliseu Mera

Eliseu Mera

(Ourense, 1976) Secretário da AGAL. Cantor lírico e professor de Música do IES de Valga. Acredito firmemente em que a boa música deve ser acessível para todos os públicos, sem exceção. Para este fim, experimento com um blogue:notas.gal
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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Muito bom artigo, Eliseu.
    A condição de pessoa bilingue não é uma característica de nascença, mas que se adquire com a passagem do tempo. Não somos bilingues, estamos bilingues. No nosso caso, ao sermos um país governado por outro maior, o contato com a língua maioritária realiza-se desde bem cedo. Mas [email protected] nascemos monolingues dado que durante os primeiros seis meses de vida, mesmo que o casal seja polilingue, a criança passa quase todo o tempo com a mãe. Naturalmente, há exceções e cada história pessoal é um mundo, mas o comum da gente nasce assim, monolingue na língua que a mãe lhe fala.
    Depois é que vem o período de aprendizagem doutras línguas, que se bem na Galiza acontece muito cedo nas nossas vidas, noutros países não é assim e conseguem ter um bom desempenho nelas. O fracasso do ensino do inglês na Espanha parece ter mais a ver com a falta de vontade política de ensinar outras línguas, talvez por ser facto que lembra haver mais línguas no território…
    O sistema catalão é produto de uma organização eficaz de todos os recursos autonómicos contra o linguicídio perpetrado desde a Constituição espanhola (art. 3). Eles conseguem uma boa competência em catalão nas suas crianças porque o sistema linguístico está bem estabelecido e unificado (reintegrado), porque existe uma forte vontade política de levar para a frente o seu ensino público e têm o imprescindível apoio de setores mediáticos e culturais catalães.
    @s que carecemos dessas condições políticas atravessamos um deserto que acaba como já sabemos. A nossa grande força radica num Estado que não controlamos, mas que é o nosso Estado linguístico natural, monolingue e com um grande nível em inglês e francês, além de conhecimento em castelhano. Toda a gente sabe, desde há décadas, quando a forte vaga de reintegracionismo começou, que a reintegração completa da língua é um passo fundamental para fazer valer o nosso peso político peninsular. Ganhar um aliado como Portugal é tarefa imprescindível para qualquer governo galego. Essa seria uma grande ajuda para o nosso equilíbrio linguístico. Mas, que governo galego tem tido esse objetivo?

    • Miro Moman

      Cara Isabel,

      Sem ser um especialista na matéria, acho que o nosso cérebro não é intrinsecamente monolingue nem multilingue. Ele adapta-se as circunstâncias, sejam estas as que forem.

      Estudos feitos no Quebeque mostram que, até os 8 meses de idade, todos os bebés prestam atenção imediata a qualquer mudança de língua na sua contorna.

      Já depois dos 8 meses, as crianças expostas a mudanças linguísticas retêm esta habilidade, enquanto as crianças expostas a uma única língua deixam de ser sensíveis as realidades multilingues.

      Desculpai as gralhas, tenho um teclado russo e pouca paciência.

      Abraço,

      Miro

    • http://www.notas.gal Eliseu Mera

      Obrigado polo comentário, Isabel, sempre preciso e oportuno 🙂
      A minha intenção era apenas refletir o absurdo de defenderem o termo “bilíngue” pessoas que nem são nem têm vontade de o ser, enquanto as autênticas bilíngues fugimos dele.