A falta de consenso é culpa dos outros

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Um dos lugares comuns em que nos estamos a mover nos últimos anos é o muito que se foi polarizando a sociedade a respeito de assuntos fundamentais para a convivência. Logicamente haverá pessoas e coletivos que vejam neste contexto uma grande oportunidade para terem uma maior visibilidade, mas isto fica longe das minhas posições e das do coletivo que represento.

O consenso
Percebo uma certa ideia consistente em que o consenso consiste em que, se uma pessoa apresenta uma proposta, fala-se de consenso se esta é assumida integramente por outras partes. A possibilidade de evitar -mesmo temporariamente- pontos de discrepância em favor de pequenos acordos não costuma estar em cima da mesa e tende a magnificar-se a pequena discrepância em vez valorizar os elementos em comum como ponto de partida.
Nestes últimos anos, a Associaçom Galega da Língua (AGAL) deu mostras de capacidade de diálogo com todos os setores sociais com que teve a oportunidade de falar. A premissa foi sempre muito simples: se de cinco ideias concordamos numa, centramo-nos nessa, consolidamo-la e, se quadra, a confiança gerada pode favorecer um consenso mais alargado.
Porém, a sociedade transita por outro caminho, se concordarmos em quatro pontos sobre cinco, magnifiquemos a discordância a fim de sublinhar os elementos característicos do discurso próprio em defesa da sua pureza e frente a um eventual debilitamento ao interagir com outros coletivos.

A língua
Neste contexto, a língua está a sofrer as consequências desta polaridade. Ouvimos constantemente emendas à totalidade das propostas de outrem, e as principais forças políticas do país foram incapazes de promover acordos durante estas últimas quatro décadas, com três exceções, todas elas com a lusofonia como nexo: a chamada Lei Paz Andrade (2014), a entrada do Concelho de Santiago de Compostela na União de Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e a concessão da Medalha de Ouro da Província de Ourense a Isaac Alonso Estraviz (2022).
Pouca gente questiona as conexões existentes entre “galego” e “português”. De facto, mesmo pessoas que não costumam falar galego na Galiza, fazem-no quando visitam Portugal, o qual não pode ser acidental. A perspetiva da AGAL é, evidentemente, que se trata de duas variantes duma mesma língua, como acontece em todos os idiomas de certa extensão geográfica. Por exemplo, se nos perguntam polas línguas faladas na Suíça, automaticamente dizemos que são francês, alemão e italiano, alguém mesmo adicionaria o romanche. No entanto, se uma pessoa suíça de fala alemã visita a Alemanha, deverá utilizar o alemão padrão para ser percebida, cousa que não é necessária quando vamos a Portugal. Está mesmo o caso do inglês dentro da mesma Inglaterra, alguém de Manchester também não vai ser percebido em Londres se fala com o seu sotaque local devendo procurar outro mais “neutro”.

Um novo consenso
Mesmo assim, quando tratamos estes assuntos com outras pessoas ou entidades, partimos dessas conexões prévias em favor do acordo. Não é o mais relevante considerarmos “galego” e “português” uma mesma língua, línguas próximas, línguas irmãs ou o que for, senão afundarmos em com o interação entre “galego” e “português” pode ser benéfica para a nossa língua ou que ações se podem desenvolver para um melhor conhecimento do “português” na Galiza.
Geralmente, quando se realizam inquéritos ou estudos a respeito de fórmulas para melhorar a situação social da língua, costuma-se perguntar a gente destacada pola sua defesa e promoção. Em realidade, não tenho muito interesse em saber a opinião de quem já está comprometido com “a causa”. O que realmente gostaria e acho que poderia ser de ajuda é perguntar a quem não fala galego habitualmente, quer por indiferença, quer com atitude beligerante, polas causas da sua atitude, aí poderíamos encontrar eventuais elementos mínimos dum possível novo consenso sobre que construir uma nova estratégia.
O tempo vai passando, e se tudo continua igual, os resultados vão ser iguais.

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]