Carvalho Calero olímpico



carballo-calero-17Recentemente mencionei neste meio os motivos polos quais achava que conceder Carvalho Calero o Dia das Letras 2020 era um motivo de alegria e de esperança. Infelizmente, esta festa está a ser uma das numerosíssimas vítimas colaterais da pandemia do Covid-19.

Um dos objetivos deste acontecimento é divulgar a vida e a obra de quem é homenageada. Para isto, muitas pessoas e entidades realizam um grande trabalho preparando materiais desde meados do ano anterior, quando se conhece a quem vai ser dedicado o Dia. Circunscrever este reconhecimento a poucas semanas no final do ano implica que este esforço humano e económico seja praticamente estéril, pois estes eventos entrariam em concorrência com todas as atividades pendentes de realizar durante estes meses e que se têm que desenvolver, por força, antes de o ano acabar. Para um setor precário e castigado nos últimos lustros como é o cultural, esta medida não solidária seria, mais que uma lousa com que carregar, um verdadeiro túmulo.

Por outra parte, é bom remarcarmos que o ensino costuma ser o grande catalisador do Dia das Letras pois os centros programam centos de atividades relacionadas com ela, consomem esses produtos de que falámos e o alunado torna-se num elemento transmissor fundamental para o conjunto da sociedade. Convém lembrarmos que no primeiro trimestre do curso 2020-2021 vai ser preciso tentar recuperar parte do currículo sem desenvolver durante estes meses. Se somamos a isto um Dia das Letras fora do seu período habitual e de uma jornada feriada que o complemente, dificilmente vai poder ter uma grande incidência social, sobretudo havendo outro em maio dentro do mesmo ano letivo.

Para um setor precário e castigado nos últimos lustros como é o cultural, circunscrever este reconhecimento a poucas semanas no final do ano implica que este esforço humano e económico seja praticamente estéril; esta medida não solidária seria, mais que uma lousa com que carregar, um verdadeiro túmulo.

Depois de muito reflexionar vejo-me incapaz de encontrar motivos razoáveis para manter o Ano Carvalho em 2020. Se alguém pretendesse limitar o impacto da difusão do pensamento de Carvalho Calero, a melhor maneira seria precisamente esta: mover tudo para o final dum ano que vai estar cheio de outras prioridades e com o nome da seguinte homenageada a bater na porta. Será isto o que está a acontecer?

Homenagear dom Ricardo Carvalho Calero é homenagear o principal promotor de uma norma culta para a nossa língua, não é apenas “tirar um morto de riba”. Vimos nestes dias o esmagador apoio social para adiar a sua homenagem para 2021. Bem sabemos que nenhuma entidade está por riba da vontade da sociedade galega e, se esta consiste em adiar para 2021 o Ano Carvalho, aí vai estar a AGAL, isto é, que se esse reconhecimento não chega polas vias oficiais, fará-o por outras, se quadra, mesmo com mais sucesso.

Nenhuma entidade está por riba da vontade da sociedade galega e, se esta consiste em adiar para 2021 o Ano Carvalho, aí vai estar a AGAL, isto é, que se esse reconhecimento não chega polas vias oficiais, fará-o por outras, se quadra, mesmo com mais sucesso.

Os Jogos Olímpicos costumam coincidir com anos bissextos, como 2020, quando deveriam ser realizados em Tóquio. Devido a esta pandemia, o Comité Olímpico Internacional (COI) decidiu-nos adiar para 2021. Se a história nos conduziu a um Ano Carvalho olímpico, quem somos os vulgares mortais para impedir tais desígnios?

Eliseu Mera

Eliseu Mera

(Ourense, 1976) Vice-presidente da AGAL. Cantor lírico e professor de Música do IES de Valga. Acredito firmemente em que a boa música deve ser acessível para todos os públicos, sem exceção. Para este fim, experimento com um blogue:notas.gal
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  • Joám Lopes Facal

    Um Carvalho Calero olímpico, bem dito!