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Fraude no jazigo alavés de Iruña-Veleia

Andoni Herrera – O jazigo arqueológico de Iruña-Veleia situa-se 10 quilómetros ao oeste da capital Vitória-Gasteiz. Antigo assentamento romano, situado à sua vez sobre um castro pré-romano ocupado desde a idade de bronze, está dando muito de que falar estes últimos dias. E não é precisamente nada de bom.

Comentávamos há dois anos no artigo intitulado Primeiras palavras escritas em euskara, que o verdadeiramente emocionante e de grande transcendência foi a descoberta de um conjunto epigráfico com textos em euskara escritos em grafia latina sobre material cerâmico, vidro e ossos. Tudo isto datado entre os séculos III e VI.

Pois bem, a Comissão, criada pela Deputação de Araba para investigar a autenticidade destes ‘formidáveis’ achados e integrada por historiadores, linguistas, arqueólogos e químicos, informa categoricamente no seu relatório da tosca manipulação de que foram objecto as peças.

«Os grafites poderiam ter sido feitos ao mesmo tempo da sua aparição, num laboratório», assinalam os especialistas, «o dano causado ao jazigo é enorme e, em particular, à filologia basca.» Segundo os linguistas Gorrotxategi e Lakarra, só «alguém que não conhece bem a história da língua pode ter manipulado as peças, alguém que não domina muito nem o euskara nem o latim. Do ponto de vista da filologia histórica e após do seu estudo morfológico, sintáctico e fonético, é totalmente impossível que as palavras achadas pertençam a esses séculos.»

A Deputação, preocupada com a má imagem que esta desfeita possa reportar à Iruña-Veleia, já deixou claro que o jazigo é verdadeiro e o que é falso são as inscrições. Para além, anunciou acções legais contra os responsáveis e, tem posto em conhecimento da fiscalia o estudo da comissão. Embora ainda não sejam conhecidos os autores materiais e ‘intelectuais’ do calote, todo o pessoal está a olhar para o arqueólogo director das escavações, Eliseo Gil, a quem lhe retirada imediatamente a permissão para continuar à frente das mesmas.
Contudo, o ex-director do jazigo manifesta a sua inocência e declara que o estudo da Comissão fundamenta-se exclusivamente em opiniões e que está a sofrer um linchamento mediático.

Seja como for, a listagem de incongruências é bastante longa: latim com faltas de ortografia; a inscrição RIP, em lugar de INRI,  sobre a imagem de Jesuscristo; a imagem de uma sereia, ser mitológico que nasce na Idade Média; a aparição do nome de Descartes; o termo Nefertiti, rainha egípcia de que nada se sabia até o século passado; peças aderidas com cola…

No entanto, quê necessidade havia de mentir? Acaso ia favorecer substancialmente ao aprimoramento da língua basca o adianto em oito séculos da aparição dos primeiros testemunhos do euskara escrito?

Com efeito, todos gostaríamos de ver aparecer escritos em éuscaro no século de Pericles, com outra grafia seguramente, mas, a realidade é a que é e, não devemos ter medo à verdade. E a verdade, hoje por hoje, diz que o éuscaro é um idioma antiquíssimo ainda que ninguém tivesse a ocorrência de o plasmar na escrita até o século XI (as famosas glosas de São Milhão de la Cogolha na Rioja).

De todos os jeitos, quem sabe, se calhar em qualquer um outro dia, quando menos o esperarmos, noutro jazigo, em baixo de uma pedra…

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