Partilhar

Francisco Salinas: «A supervivência da língua e da cultura galegas consegue-se abrindo as fronteiras com Portugal»

PGL – O professor Francisco Salinas Portugal repassa para o Portal o seu percurso polos campos literário, associativo e académico da Galiza, esboça a (auto-)análise dumha trajetória construída “entre o acaso e a necessidade” e reflexiona sobre o relacionamento galego-lusófono e sobre o grau de autonomia dos campos culturais na Galiza a respeito do poder político e do nacionalismo galego.

O poeta Franciso Salinas Portugal começa por lembrar neste vídeo-entrevista o seu labor como integrante dos grupos Alén (1977) e De amor e desamor (1984-1985). Destas duas estratégias de publicaçom coletiva, a primeira reune três estudantes universitários (Miguel Anxo Mato Fondo, Xosé Ramón Pena e o próprio Salinas Portugal) que, próximos do professor Ricardo Carvalho Calero, apostam polo reintegracionismo lingüístico e a renovaçom literária num momento político-cultural caraterizado pola abertura e a incerteza. Ao falar em De amor e desamor, por seu lado, Salinas rememora os seus vínculos com o heterogéneo grupo corunhês que, quiçá, venha a ser alvo colateral das estratégias de consagraçom que as instituiçons culturais autonómicas reservam para um dos seus integrantes mais dificilmente assimiláveis pola crítica literária em meados de oitenta, o poeta Lois Pereiro, a quem é dedicado este ano o Dia das Letras Galegas.

O professor Francisco Salinas Portugal revisa igualmente para nós o seu trabalho como docente de língua e literatura galegas no ensino secundário, de português na EOI da cidade herculina e, desde a década de noventa, como responsável das literaturas lusófonas dentro do Departamento de Galego-Português, Francês e Lingüística da Universidade da Corunha (UdC), instituiçom esta onde desenvolve também um intenso labor investigador virado para o estudo dos processos de autonomizaçom de sistemas culturais ditos emergentes ou pós-coloniais. Este interesse polo conhecimento científico de processos sócio-culturais homologáveis com o caso galego explica em grande medida os seus vários estudos sobre o funcionamento da literatura nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), em especial os dedicados ao caso angolano e à figura de Pepetela. De facto, desde que Francisco Salinas analisa A escrita da angolanidade de Pepetela na sua tese de doutoramento em 1992, o professor corunhês dedica vários trabalhos a este escritor reconhecido com o prémio Camões em 1997, o último dos quais consiste na ediçom dumha peça teatral que funciona como metáfora da dominaçom e a aculturaçom provocadas polo colonialismo europeu nas Áfricas (A revolta da Casa dos Ídolos, publicada em 2010 pola Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor da UdC).

Igualmente, o objetivo de promover o relacionamento da Galiza com o resto da Lusofonia desde o campo académico está também na origem da parceria estabelecida em 2003 entre a UdC e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) para a publicaçom dos Estudos Galego-Brasileiros. Aqui, o professor Salinas promove, junto aos seus colegas de departamento, um empreendimento que já deu como resultado quatro volumes em que investigadores galegos e brasileiros ligados às duas instituiçons universitárias abordam os processos de emergência lingüística e literária tanto na Galiza como no Brasil.

Noutra fase da entrevista, Francisco Salinas Portugal revisa para nós a sua participaçom no campo do associacionismo e da intervençom lingüístico-cultural (desde posiçons enquadráveis no reintegracionismo e o nacionalismo galego), e confessa o seu cansaço pessoal e a sensaçom de derrota que lhe provoca a realidade lingüístico-cultural da Galiza atual. A (auto-)crítica feita polo antigo ativista e fundador da AGAL (hoje afastado da primeira linha da intervençom social neste âmbito) descansa, por um lado, na falta de autonomia dos campos lingüístico e cultural da Galiza a respeito do poder político autonómico e do nacionalismo galego com maior grau de institucionalizaçom e, por outro lado e em boa medida como resultado do anterior, na “visom mui pessimista da situaçom lingüística” que perpassa as palavras que o professor Salinas Portugal dedica a este assunto.

Assim, ao analisar as razons que sustentam o seu desencanto, Salinas refere os últimos resultados do processo (inconcluso) de elaboraçom lingüística na Galiza, em concreto os efeitos provocados polas mudanças nas Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego aprovadas pola Real Academia Galega (RAG) em 2003 após um processo animado desde o nacionalismo que sustentava o chamado reintegracionismo “de mínimos”, através da Asociación Sócio-Pedagóxica Galega (AS-PG), e no qual participarom a própria RAG, o Instituto da Lingua Galega (ILG) e os departamentos de galego das universidades de Santiago de Compostela, a Corunha e Vigo. Neste sentido, o professor Salinas Portugal entende que esta última fase do processo deu como resultado a dita “normativa de consenso” mas, também, a perda da tensom normalizadora, o deslocamento para posiçons em maior medida periféricas do conjunto das propostas reintegracionistas e a consagraçom dum modelo lingüístico que “reforça o processo de castelhanizaçom do idioma”.

Ora, no fim da entrevista surge ainda nas palavras de Salinas Portugal a confiança na supervivência da Galiza como comunidade cultural diferenciada, uma soberania cultural só possível, para o professor da UdC, com a implementaçom dumha estratégia política conduzente à integraçom da Galiza na rede cultural lusófona. Estamos, enfim, perante umha exposiçom pública em que a sinceridade e a capacidade de análise do professor Salinas Portugal contribuem decididamente nom apenas para a percepçom de aspectos destacados no funcionamento do Sistema Cultural Galego das últimas décadas, mas também para entendermo-nos nós nele e percebermos que o nosso futuro coletivo está a depender, ainda, do nosso trabalho comunal. Umha entrevista, portanto, a nom perder.

 

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra